domingo, 8 de janeiro de 2017

Um complemento


Um adendo ao que publiquei ontem no meu blog - sob o carinhoso título de “Horror brasileiro”.

No Brasil, há gente capaz de tocar planos, programas. O plano de segurança pode ser levado adiante, mas as máquinas burocráticas dos governos federal e estaduais são tão complicadas, tão cheias de idas e vindas, que acabam levando a que pouco ou nada seja feito. Um exemplo é a lei que regula as licitações públicas, a notória lei 8.666. Ela é tão minuciosa, exige tanto das empresas, permite os mais diversos recursos, que caem nos escaninhos da justiça, podendo inclusive chegar ao Supremo. Nenhuma obra urgente aguenta a citada lei – e a construção de novas penitenciárias cai, como uma luva, nesse caso. O cidadão comum não conhece os mistérios dessa lei, mas em razão dela, por exemplo, institutos de pesquisa são obrigados a adquirir reagentes ou outros apetrechos no Brasil se houver “similar nacional” – mesmo que o similar nacional seja uma porcaria.

Há ainda a corrupção, que eu falei, ontem, da seguinte maneira: “a coisa vem lá de cima, chegando, em cascata, aos guardas penitenciários”. Quando digo “lá de cima”, falo de governadores, secretários, juízes, procuradores, promotores, advogados, diretores de presídios. Não estou fazendo uma acusação generalizada, mas enquanto eu não souber como um sofá entrou no presídio de Manaus e foi parar na cela do Garrote, não retiro uma só palavra do que disse e digo. Lembrem-se do Massacre do Carandiru, que até hoje rola na primeira instância da justiça, enquanto os militares acusados estão soltos.

Outro ponto desejo assinalar: ontem, eu vi na TV (eles inclusive foram entrevistados) dois casais e senhoras saindo da praia (Arpoador e Ipanema) depois de dois ou três arrastões, apesar do policiamento ostensivo, tanto nas calçadas como nas areias. Os entrevistados estavam com medo. A praia estava cheiíssima, o que facilitava a vida dos futuros hóspedes das penitenciárias cariocas.

A desagregação social no Brasil é patente. Nós acumulamos historicamente heranças malditas na formação do caráter brasileiro, como foram as matanças dos aborígenes pelos portugueses, a ideologia da “casa grande & senzala”, o jaguncismo, o fanatismo, a ideologia da corrupção como prática tolerada, a falta de respeito entre as pessoas, a ideia de que vale tudo contra os movimentos contestadores (Praieira, Palmares, Inconfidência Mineira, Confederação do Equador, Cabanada, Revolução Farroupilha, Canudos, nos quais cabeças foram decepadas), a ideia de que tudo pode ser conseguido na “moleza” e no “jeitinho”. Nós convivemos com a miséria numa boa, não é mesmo? Claro, reclamamos, denunciamos, mas quando nos pedem sacrifícios mínimos e algum esforço só sabemos gritar “pelos nossos direitos” – direitos que, na verdade, são privilégios.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O horror brasileiro


Estou preparando um texto sobre a Revolução Soviética, que esse ano faz 100 anos. Pouco vejo televisão. Ontem, porém, liguei rapidamente a TV e tive chance de ver os aposentos (sofá, TV, tapete, geladeira, ar condicionado) de um chefão de uma das falanges que se engalfinharam no presídio de Manaus, resultando da luta quase cem mortos (a maioria esquartejada) e quase duzentos foragidos. Um horror.

Fiquei pensando: como aqueles apetrechos decorativos entraram na penitenciária? Certamente não foram as visitas que levaram os brindes para a cela do chefão, que atende pela alcunha assustadora de Garrote. Presumo que um caminhão da Lusitana (“O mundo gira e a Lusitana roda”) parou diante do presídio, descarregou o mobiliário e gente do próprio presídio o levou à cela do chefão. Não pode ter sido de outra forma. Um sofá não cabe no bolso.

Este é um aspecto sobre o qual tenho falado: a enorme capacidade que o crime organizado possui de corromper – e aí a coisa vem lá de cima, chegando, em cascata, aos guardas penitenciários, que lidam com os presos no dia a dia e fazem vista grossa ao que presenciam. Isto é assunto tabu, pois se generalizou a ideia de que só políticos e empresários se corrompem. Lamento informar, mas os proletas também são corruptíveis. Preciso dar exemplos?

Ao contrário dos sociólogos e antropólogos que se dizem especialistas no assunto, não tenho como opinar sobre o Plano Nacional apresentado pelo ministro da Justiça, inclusive porque não o li. Mas não vou esculhambá-lo gratuitamente; todos nós, sociedade brasileira, fomos pegos de surpresa pelos acontecimento e a montagem do Plano em tão pouco tempo foi uma exigência da própria sociedade.

Não conheço ninguém que não soubesse que o sistema penitenciário é o inferno que é – e que bandidos de alta periculosidade são irrecuperáveis. Livros e filmes estão cansados de mostrar o que acontece nas penitenciárias no Brasil e no mundo, EUA inclusive. No nosso caso, não só o sistema penitenciário é essa coisa monstruosa: infernais são também os sistemas de saúde (diariamente morre-se em filas, morre-se por falta de tratamento e exames), de educação (crianças saem da escola sem saber ler, escrever e fazer contas, tornando-se facilmente recrutáveis pelo crime organizado), de segurança (cá de fora), de transporte coletivo e, vale dizer, o sistema de convivência humana no Brasil. Ninguém caminha à noite pelas ruas das cidades brasileiras com a certeza que vai chegar incólume ao destino. E não só isso: sabe-se que centenas de pessoas são linchadas no Brasil. Fora, é claro, aqueles que matam por problemas no trânsito.

A verdade é que o Brasil é um país desatinado, desigual, miserável, violento por sua própria natureza, que precisa ser reformado profundamente em vários sentidos e direções. A ministra Carmen Lúcia está preocupada – certo, mas ela toparia liderar, com a voz da sua autoridade, uma reforma profunda no sistema judiciário brasileiro, tornando-o mais célere, mais eficiente, mais justo, menos burocrático e paquidérmico? Toparia correr o risco de enfrentar os interesses encastelados nos diversos escaninhos da justiça brasileira? O Brasil precisa ser passado a limpo, dizia Darcy Ribeiro. Precisa ser lavado com soda cáustica, acrescentou um dia o Brizola. Darcy e Brizola acreditavam na força da educação. Não sei se é o bastante.

Disso tudo, emerge um fato animador: com os massacres em Manaus e Boa Vista, o Brasil tomou consciência de si mesmo. O que vemos nos dá nojo, mas é essencial, o quanto antes, que reformemos o país, de cima a baixo, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário e, sobretudo, no caráter do brasileiro.  

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Toma que o filho é teu


 
Está bem, todos concordamos que os políticos brasileiros são, em grande maioria, um bando de safados e incompetentes. Há exceções, claro, mas eles pouco aparecem, mas quando surgem nos fazem ainda acreditar na espécie humana.

Escrevi no título um verso de “Nêga maluca”, samba de Fernando Lobo e Evaldo Rui (carnaval de 1950), porque acabei de saber que o custo de manutenção do Parque Olímpica é da ordem de 17 milhões de reais, razão pela qual a prefeitura passou o trambolho para o governo federal. Que aceitou. Quando digo que desisti de entender o Brasil, amigos próximos me olham desconfiados. Acho.

A Copa e as Olimpíadas foram duas loucuras da era petista-peemedebista. Foram construídos estádios (hoje, chamam de arenas, mas eu me recuso) em lugares onde não há futebol. Brasília, por exemplo. O público médio em partidas de futebol entre os clubes da capital é inferior a 1.500 espectadores – possivelmente depressivos em fuga, pois o futebol daqui é pior do que nós, meninos, jogávamos no colégio.

O estádio brasiliense, que custou um bilhão e meio, custa, em manutenção mensal, algo em torno de um milhão de reais aos combalidos cofres do governo. Imagino quanto custam os estádios de Salvador, Cuiabá, Manaus, entre outros. O Maracanã, o velho Maraca dos geraldinos e arquibaldos, perdeu o charme, a graça e a luz própria que possuía. Pobres e negros deixaram de ir ao Maracanã.

Agora, ponhamos a mão na consciência – e pensemos. O povo brasileiro, em especial o carioca, tem lá sua parcela de culpa. Bem, em termos, afinal o povo não tinha como saber o que os estádios, as construções olímpicas, as facilidades de crédito, que permitiram compras de carros, eletrodomésticos e o escambau, tinham por trás. Certo, os indícios eram quase palpáveis – e o que veio depois nós estamos sentindo na pele, no estômago e na cuca. A fila de funcionários e aposentados em busca de uma providencial cesta básica me fez pensar no fim do mundo. Pensei que estivéssemos num país africano, daqueles em que a Cruz Vermelha distribui comida aos nativos.

O que mais me incomoda é a insensibilidade e a cegueira política do PT, PCdoB, entre outros grupamentos jurássicos, como CUT, MST, MTST. Esperar dessa gente uma autocrítica e o reconhecimento dos seus erros é inútil, pois isto o fazem lembrar dos processos de Moscou, nos quais a autocrítica e o reconhecimento de erros antecediam o assassinato – via tiro na nuca. Pelo menos deviam ficar calados, mas preferem fazer alaridos e escândalos.

Hoje, estamos pagando pela incompetência, roubalheira e loucura da era petista, que muita gente apoiou porque o marketing e as facilidades criadas (em nome de ficções econômicas) eram permanentes e convidativas. Muita gente se endividou. Estados se endividaram, municípios se endividaram.

Termos saída? Eu creio que sim, mas o brasileiro precisa reconhecer, afinal, quem é de fato – e não o que pensa que é. Seria um começo – ou um recomeço.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

"Direitização" ou fracasso da esquerda


O planeta caminha rumo à “direitização”? É possível que sim, mas a direitização do mundo é produto espúrio do fracasso da esquerda.

Esta me parece ser o mais importante: o fracasso da esquerda – e este fracasso decorre de vários fatores: o envelhecimento do discurso de esquerda; inadaptação a um mundo complexo, dominado pela tecnologia, pela internet e pelas redes sociais; incapacidade de levar à prática suas propostas de justiça social e, não menos importante, a corrupção, que em certos casos e alguns países, como o Brasil, tornou-se endêmica e sistêmica. O pior é que a esquerda nada faz para se passar a limpo. Fica repetindo a mesma cantilena.

Cá no Brasil, a esquerda não percebeu que os 54 milhões de votos da sua candidata foram direcionados ao seu discurso eleitoral, que fechadas as urnas, mostrou-se ser um baita estelionato. Tudo o que ela atribuia ao seu adversário, foi assumido por ela no dia seguinte às eleições. Na maior cara de pau. Se a candidata do PT recebeu 54 milhões de votos, em 2014, o PT só obteve 6,8 milhões, em 2016. O PT perdeu mais de 85% dos votos que obtivera dois anos antes. Talvez seja caso único no mundo.

Em 2014, não só a militância, os simpatizantes e a classe operária votou em Dilma, mas a classe média e setores da elite. Em 2016, o PT só recebeu votos da militância e dos simpatizantes. Danou-se.

A verdade é que o PT criou um problema sério, talvez intransponível, para a esquerda brasileira, para o pensamento de esquerda no Brasil. Hoje, a sociedade brasileira – e não vamos acusá-la de ser intrinsicamente de direita – vota em candidatos que a esquerda acusa de ser de direita. Bem, alguns são, mas não todos, mas a esquerda é incapaz de perceber nuances: a esquerda só trabalha com juízos extremos, tipo direita e esquerda, preto ou branco. E, por isso, está perdendo (se é que não já perdeu) o bonde da história. A esquerda precisa modernizar-se, atualizar seu discurso, estudar o Brasil, o mundo. Tenho escrito muito a esse respeito.
Se nos anos 1950, alguém perguntasse ao Velhote do Penedo como seria o Brasil em 2016, certamente ele seria bem diferente do que é hoje. Naquele tempo, o Velhote era movido pela esperança.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Dilma, Cabral, Pezão: destruiram o Brasil e o Rio


Estava sozinho em Paris tomando meu café da manhã quando veio falar comigo um sujeito, brasileiro, pernambucano, baixo, magro, cabeçudo, uns 55 anos. Estava com a sua “senhôra”. Sem que eu os convidasse, sentaram-me comigo - e ele pôs-se a falar: estava entusiasmadíssimo com o pré-sal – e repetiu o discurso ufano-mentiroso do Lula a respeito da nossa redenção pelo petróleo. Ouvi, falei pouco, mas alertei, com enfado: “Não será exatamente assim”. Despedi-me – e me mandei.

A dupla Cabral-Pezão também acreditou no discurso petista – e se deu mal. Se deu mal porque, como Dilma, a dupla fez uma péssima gestão, irresponsável em todos os aspectos. Contando o ovo no fiofó da galinha, como dizia minha avó, além do inchaço da máquina (a companheirada se fartou!), distribuíram desonerações adoidado, foram perdulários, corruptos, transformaram o Rio numa verdadeira zona de quinta categoria. O mesmo – exatamente o mesmo - que a Dilma fez com o Brasil.

Pezão, na TV, parece uma donzela que, de repente, acordou e percebeu que perdera a virgindade: comenta a crise do Rio como se ele (e o Cabral) nada tivesse a ver com ela, como se tivesse sido enganado por um sedutor insidioso, cujo nome se recusa a dizer. Propõe, como solução da sua própria incompetência e irresponsabilidade, um pacote de medidas indecente, imoral, estúpido, nojento, sórdido, salafrário, pouco se lixando para os servidores do estado, os aposentados e os pensionistas do estado. Só falta dizer: eu quero resolver os problemas, mas a malta não permite.

Vários estados estão na mesma situação do Rio – e todos eles assim estão porque seguiram o breviário petista de governança: o estado tudo pode, inclusive gastar acima do que arrecada, pois, como dizia o velho samba, “se o Brás é o tesoureiro/a gente acerta no final”.

A esquerda pré-histórica brasileira não sabe o que dizer ou propor, apesar do fato de que grande parte dela é responsável pela situação do Brasil, do Rio e dos demais estados - que, mais cedo ou mais tarde, irão explodir. Estamos, todos nós, agarrados nas tábuas de um naufrágio causado por comandantes que, diante de um iceberg, resolveram encará-lo de frente. Alguns náufragos sugerem que as tábuas sejam agrupadas, um modo de salvar todo mundo, mas a esquerda pré-diluviana limita-se a repetir os slogans, os clichês – e promover a baderna de sempre.

Aqui, em Brasília, motoristas e cobradores entraram de greve contra a PEC dos gastos, a PEC do ensino médio e por um aumento de não sei quantos por cento. No Brasil, a CUT age assim, como os movimentos dos sem teto e dos sem terra. Essa turma apoiou Dilma e os governadores dos estados que hoje estão sufocados, à míngua. Defenderam a tragédia e a hecatombe como se fosse o melhor dos mundos – e hoje atuam como se não tivessem a menor responsabilidade pelo buraco em que estamos enfiados. A propósito: de que vivem Boulos e Stédile?

Falei da greve em Brasília – e aproveito para contar um fato pessoal: minha faxineira e minha fisioterapeuta (estou com dores na coluna) moram em Goiás, em municípios goianos que cercam Brasília. Dependem do transporte coletivo para chegar ao trabalho e voltar para casa. Estavam desesperadas. Não conheço em Brasília um só petista (todos de classe média) que não tenha carro próprio – e andem de ônibus. Mas todos eles estão aplaudindo a greve dos “companheiros motoristas e cobradores”.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Sem saida e mal pagos


Há alguns anos, fiz uma consultoria para o estado de Rondônia. O governador era o atual senador Valdir Raupp. Eu tinha que fazer um diagnóstico sobre a educação no estado – e propor medidas. Desde o primeiro dia, eu era procurado por gente da educação, que, percebi, não pretendia me auxiliar, mas assuntar o que eu pensava a respeito. Evitei antecipar qualquer conclusão, mas entrevistei muita gente, do secretário de educação a professores e estudantes, pais de alunos, diretores de escolas. Li muitos relatórios e examinei muitas estatísticas.

Conversei duas ou três vezes com o governador – e senti nele sincero interesse em equacionar os problemas da educação estadual. Ele me falou da admiração que sentia pelo Brizola – e por sua obsessão pela educação.

Em quatro meses, apresentei o meu relatório, que, entre outros pontos, sustentava dois pontos:

1 – Fazer os professores voltarem para as salas de aula. Os dados indicavam que mais de 45% dos professores de Rondônia, que estavam na folha da educação, estavam alocados nas diversas secretarias e estatais do estado. Quem leu a carta de Caminha sabe do que eu estou falando. As escolas tinham déficits de professores. O secretário queria fazer um concurso e contratar professores – o que era absolutamente desnecessário.

2 – Estabelecer um amplo plano de reforma das escolas, pois os índices internacionais mostravam que não havia necessidade de novas construções, a não ser em casos específicos. Muitas escolas estavam danificadas, mas também pudessem ser reformadas. Em suma: minha proposta era no sentido de que só se construíssem novas escolas em último caso.

Meus amigos: foi um escândalo. Fiz uma reunião com professores (num auditório, sem ar condicionado!) – e eles só faltaram me linchar. Retruquei duramente, mas os professores mantiveram-se irredutíveis. Um deles, um sujeito gordo e baixo, que se apresentou como cacique de uma tribo qualquer (não lembro), me disse que preferia morrer a voltar para sala de aula. A frase era uma besteira, mas o cacique foi aplaudido. Uma professora pediu a palavra e disse que o marido tinha uma construtora especializada em construir escolas: o que será do meu marido?

Hoje vi estudantes e professores nas galerias da Câmara berrando contra a PEC dos gastos. Em São Paulo, uma passeata (uns 250 sujeitos) gritava contra a PEC dos gastos e da reforma do ensino médio. Esses meninos estudam? Os professores ensinam? Mais importante: os meninos e professores leram as duas PECs, ou apenas seguem os “brilhantes” Molon, Maria do Rosário, Benedita, Feghalli.

Não vejo saída para o Brasil.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Mata Hari: espiã?

Em 1917, em pleno conflito mundial, Mata Hari, bailarina especializada em danças exóticas, foi presa, julgada por um conselho de guerra, condenada à morte e dois meses e meio mais tarde, em 15 de outubro, fuzilada na cidade de Vincennes, na França. Mata Hari, ou seja, Margaretha Gertruida Zelle tinha 41 anos. Nascera em Leeuwarden, norte da Holanda, embora preferisse se declarar nativa das Índias Holandesas, filha de um rajá e de mãe indiana. Os pais de Mata Hari chamavam-se Adam Zelle, empresário, e Antje van der Meulen.

Como dançarina, Mata Hari obteve enorme sucesso nos teatros e music-halls europeus. Recebia cachês astronômicos, que pulverizava em jóias e roupas (renovava seu guarda-roupa com rapidez estonteante). Apaixonou-se muitas vezes e provocou paixões avassaladoras em homens poderosos e ricos. Talvez tenha sido a mulher mais desejada de sua época, o que a fez atrair rancores, ciúmes e ódios. Mulheres a odiavam; homens a veneravam.

Mata Hari viveu sobre o fio da navalha, mas nunca se deu conta disso – ou, se deu, fez que não sabia. Era uma mulher sem preconceitos, que ousou desafiar o moralismo e os costumes provincianos dos primeiros anos do século XX – e pagou muito caro por isso. Devido ao seu trânsito fácil pelos gabinetes, quartos e alcovas de figurões dos mais diferentes governos e das mais variadas estaturas econômicas (banqueiros, industriais), Mata Hari foi sondada por diversos países. Todos a desejavam como espiã, pois, os homens quando elogiados por seu desempenho na cama, tornam-se loquazes e manipuláveis.

A verdade é que nunca ficou provada a culpa de Mata Hari. Contra ela havia apenas um cabograma enviado à espionagem alemã (e interceptado pela contraespionagem francesa), cujo texto era curto e dúbio – e que afirmava que a agente H.21 (que seria o codinome de Mata Hari) “nada produziu de sério depois que a guerra começou”. A vida, peripécias e morte de Mata Hari – não se trata de uma biografia – foram contadas por Paulo Coelho em seu novo romance, “A espiã”.

Considero Paulo Coelho um fenômeno – e isso não é um elogio, mas uma contestação. Ele já vendeu mais de 210 milhões de livros em mais de 170 países e 81 idiomas. Não sei se há equivalente no mundo. No Brasil, ele é ignorado pela chamada inteligência, que o considera um escritor menor. Tudo bem: menor ou não, Paulo Coelho é um escritor: tem uma produção, vive do que escreve, nunca se envolveu em polêmicas inúteis e defende a liberdade de expressão. Jamais processou alguém pelos ataques que recebeu, e eles foram muitos. No episódio em que Roberto Carlos processou Paulo César de Araújo, autor de “Roberto Carlos, em detalhes”, Paulo Coelho não se omitiu: defendeu, em artigos, o direito do jornalista, condenando a censura – que, por sinal, era defendida por gente como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, entre outros “democratas”. O livro do Paulo César de Araújo foi recolhido das livrarias – e queimado por ordem de Roberto Carlos. Num país em que talento superlativo nem sempre anda a par com a grandeza moral, vulgo dignidade, o comportamento de Paulo Coelho no episódio deve ser destacado. A inteligência brasileira, a mesma que não reconhece Paulo Coelho, nada disse contra o arbítrio que vitimou Paulo César de Andrade, nem sobre a atitude do autor de “Brida”. (Sobre o episódio, sugiro a leitura de “O réu e o rei”, de Paulo César de Araújo, que narra os meandros do episódio).

“A espiã”, de Paulo Coelho, enfim, me agradou – não me pejo de afirmar. Claro, Paulo Coelho não é um escritor da dimensão de Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, José Lins do Rego, Rubem Fonseca, Graciliano Ramos e Machado de Assis, para citar os meus preferidos. Mas é competente, domina as técnicas da narrativa – e, sobretudo, não busca uma falsa sofisticação: escreve com clareza e suas frases têm sujeito, verbo e predicado. Não derrapa em silogismos e evita os conectivos. Seu texto lembra redação de estudante aplicado e estudioso: é claro e correto. É sóbrio. Não abusa de figuras de linguagem.

Um amigo meu me afirmou que “O alquimista” é uma droga. Não sei – não o li. Nem pretendo. Li “A espiã” movido pela curiosidade: eu nunca lera Paulo Coelho e nada sabia sobre a saga de Mata Hari. De qualquer forma, aconselhei o meu amigo a ler “A espiã”. Ele pediu o meu exemplar emprestado.