Por do sol em Penedo

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sábado, 2 de setembro de 2017

Há cem anos a história andou


Este texto discute o que eu ouvi, vi e li sobre a Revolução Russa de 1917. Não é um ensaio. Talvez seja um testemunho - ou um testamento.

1 –

Eu morava no Edifício dos Bancários, um prédio imenso, bonito, sólido, excelentes apartamentos, construído pelo IAPB, antigo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários. O Edifício tinha duas portarias, ambas grandiosas e iguais: Rua Marques de Abrantes, 157 e Rua Senador Vergueiro, 200, Rio de Janeiro.

As duas portarias eram ligadas por duas passagens: uma externa, com lojas, usada pelo público em geral; outra interna, com piso e paredes de mármore, exclusiva de moradores e visitantes. O Edifício dos Bancários tinha nove elevadores, cinco sociais e quatro de serviço.

Nos Bancários e adjacências moravam muitos comunas, intelectuais e artistas, entre os quais Agildo Barata, o filho Agildo Ribeiro, a psiquiatra Nise da Silveira, as jornalistas Ana Arruda (que viria a ser esposa de Antônio Callado) e Leda Barreto (autora de um livro sobre Francisco Julião), a atriz Luiza Barreto Leite, o produtor José Sanz, a cantora (da Rádio Nacional) Heleninha Costa, o compositor Alcir Pires Vermelho, o disc-jóquei Big Boy, que na época era apenas o Nilton Gordo, asmático e pirado, vítima de nossas maldades.

Ainda da Rádio Nacional, eram vizinhos dos Bancários (Rua Marques de Abrantes) a radioatriz Isis de Oliveira (Ivete Savelli), o locutor e contrarregra Jairo Argileu e o produtor e compositor Almeida Rego. Quem andava pelos Bancários, onde tinha uma namorada, era o comediante Paulo Silvino, muito magro e engraçadíssimo, que usava o pseudônimo de Brigitte Bijou nos livros de humor e sacanagem que escrevia em cadernos escolares. Denis Menezes, repórter esportivo, aparecia às vezes na minha casa, onde filava a minha máquina de escrever Remington. Elisete Cardoso, a Divina, morava numa ruazinha sem movimento, atrás da igreja Santíssima Trindade (Rua Senador Vergueiro), a uns duzentos metros dos Bancários. Manoel Maurício de Albuquerque, historiador, maior vocação de professor que conheci na vida, residia próximo. Uma tia de Ruy Castro, D. Naíde, tinha uma loja no corredor externo dos Bancários. Ruy Castro, tal como José Ramos Tinhorão, morava também na Marques de Abrantes.

Eu tinha um amigo, cujo pai era da direção regional do PCB. Ainda menino, eu conversava muito com ele (pai), que contava histórias sobre Graciliano Ramos e outras figuras do partidão. Foi nos Bancários, em três de abril de 1964, que os capangas do secretário de Segurança da Guanabara, coronel-aviador Gustavo Borges, prenderam, espancaram, torturaram e roubaram os nove chineses, membros de uma delegação oficial do governo da República Popular da China (V. a respeito: “O caso dos nove chineses”, de Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo).

Meus pais falavam dos comunistas – e sempre se referiam às perseguições que sofriam: prisões, torturas, longos períodos em que eles eram obrigados a viver longe de suas famílias, na clandestinidade. Ser comunista no Brasil, antes e durante a ditadura militar, era uma barra – uma vida de muitos sacrifícios e um sonho (acalentado durante décadas) que nunca se efetivou.

2 -

Em 1956 (eu tinha treze anos), o Relatório Krushev, apresentado durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, explodiu sobre os partidos comunistas do mundo.

Nele, os crimes cometidos por Stalin (já denunciados por dissidentes) eram contados em detalhes. O Relatório, segundo meu pai, que o leu no Estadão, narrava barbaridades, como os campos de concentração na Sibéria, o desaparecimento de pessoas, os assassinatos, os expurgos, os “gulacs”, os julgamentos forjados, o culto a Stalin, tido como o “pai dos povos”. Meu pai não era comunista, mas tinha amigos que eram.

Agildo Barata conta, em “Vida de um revolucionário”, que as revelações do Relatório produziram nele tal choque, que teve “um intenso derramamento de bílis”, que o fez ser hospitalizado. Algum tempo depois, Agildo viria a sofrer um AVC, que paralisou o seu lado esquerdo e, depois, o levaria à morte.

O pai do meu amigo, chocado com tudo o que dizia o Relatório Krushev, sofreu um infarte, que quase o matou. Nunca mais foi o mesmo. Eu o vi uma ou duas vezes: em ambas, ele estava sentado numa cadeira de balanço, magro, calado, olhando para o nada através da janela. Não me atrevi a puxar conversa. Para ele, a vida perdera a graça.

Em “Luís Carlos Prestes – Um revolucionário entre dois mundos”, Daniel Aarão Reis conta que na reunião do Comitê Central do Partidão, que debateu o Relatório, “houve gente vomitando e chorando”. Anita Leocádia, na biografia que escreveu do pai - “Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro” -, deu nome aos bois: “Tanto Arruda quanto Carlos Marighella, João Amazonas e Maurício Grabois chegaram a chorar”. Comovente, claro, mas é no mínimo estranho supor que os citados, comunistões históricos, dirigentes do Partidão, não soubessem ou sequer desconfiassem do que se passava na terra-mãe do socialismo sob o tacão de Stalin, mas, enfim – cala-te, boca!

João Falcão, em “O partido comunista que eu conheci”, conta primeiro o choque que teve ao saber, em 1953, da morte de Stalin (“uma grande sensação de perda invadiu a minha alma. Ele era para todos os comunistas convictos um Pai e um Mestre”, destacou Falcão). Os comunistas acreditavam que Stalin era eterno.

Três anos depois, com o relatório, novo choque, que João Falcão definiu como de “desespero e pânico”. Falcão, que, na época, estava em Moscou, citou ainda alguns casos de deserções e suicídios, como foi o caso do escritor Alexandrovitch Fadeiev, autor de “A derrota”, em que trata da guerra civil de 1919. O presidente da Polônia, Boleslaw Bierut, embora fosse cúmplice de Stalin e soubesse certamente das atrocidades apontadas no Relatório Krushev, tendo-as praticado em seu próprio país contra seus compatriotas, sofreu um infarte fulminante.

O depoimento mais contundente e importante da época, contudo, foi dado por Osvaldo Peralva, em “O retrato”, livro que conta a história das decepções do autor com a organização política a que dedicara, segundo ele, os melhores anos de sua vida. Peralva era do Comitê Central do PCB e vivia na época em Bucareste, onde trabalhava para o Kominform, um comitê de informação que unificava a ação dos partidos comunistas (sob o esquadro de Moscou, claro). O padecimento de Peralva é contado em detalhes no livro. Ele não conseguia dormir, chorar, falar, raciocinar, chegando a supor que ia enlouquecer – sim, enlouquecer. O sofrimento de Peralva foi indescritível.

Sei de muitos outros casos semelhantes, como sei de gente que sofreu e morreu (não aguentaram o tranco) quando ocorreu em 1991 o colapso da URSS; afinal, foram 74 anos de um sonho que virou escombro – ou melhor, pó. Na época, fui visitar um velho comunistão, meu ex-professor, que ao abrir a porta me abraçou e, agarrado a mim, chorou como uma criança. “Que será de mim? Que será do mundo?” – dizia e repetia em voz alta, enquanto eu, morto de vergonha, temia que a cena estivesse sendo observada à sorrelfa por vizinhos do inconsolável “tovaritch”.

3 -

Não é possível, porém, discutir a derrocada da URSS sem reconhecer também os seus grandes feitos, marcados pelo heroísmo, coragem e patriotismo, dos quais o povo soviético deu inequívocas provas, desde 1917.

Em 1920, após anos de guerra mundial, guerra civil e intervenção estrangeira, a indústria russa (um pequeno enclave em Petrogrado) estava em ruínas, os estoques esgotados, a sociedade totalmente desarticulada e exaurida. Milhões de russos eram obrigados a queimar móveis nas ruas para se aquecer – com o agravante de que a fome atingia parcela expressiva da população. A migração do campo para as cidades era intensa, o que agravava os problemas de abastecimento – em absoluto colapso. Como disse Ernest Mandel, “economicamente a sociedade russa regrediu mais de meio século”.

Foi em tais circunstâncias que a URSS, o primeiro Estado socialista, começou a se erguer e a se construir, sofrendo boicotes e bloqueios de países europeus mais desenvolvidos. É fácil imaginar o esforço humano cobrado nessa primeira fase. Havia ainda as disputas políticas internas, as divergências quanto aos rumos da economia – disputas e divergências que viriam a culminar na ascensão da burocracia stalinista. Stalin, o líder supremo, eliminou os divergentes e dissidentes, inclusive a velha guarda bolchevista, como Bukharin, Kamenev, Zinoviev, Rykov, Preobrajenski, Smirnov, Antonov-Ovseenko, entre muitos outros – e enfrentou a ferro e fogo as dificuldades econômicas da época.

Importante é destacar que o socialismo na URSS foi construído sobre as carências e a pobreza do subdesenvolvimento, ou, como diria o próprio Marx, sobre o desenvolvimento insuficiente das forças produtivas do capitalismo russo. Marx jamais supôs que o socialismo se erguesse em países pobres e atrasados – e foi justamente isto o que aconteceu na URSS, o que deu origem às deformações do socialismo soviético. A revolução soviética foi, portanto, uma revolução historicamente antecipada, desengatada da história – isto na melhor concepção marxista. Conforme ensina o materialismo histórico, tinha tudo para dar errado. E deu – apesar dos seus ganhos.

O esforço social do povo soviético foi gigantesco, em sofrimento e grandeza, mas, de certa maneira, exitoso e heroico, apesar de o “salto do reino da necessidade para o reino liberdade”, sonho do pensamento socialista clássico, não ter nem de longe se realizado. A construção do socialismo na URSS, com todas as suas deformações, foi realizada sob a cruel ditadura stalinista, que impôs ao país um processo de acumulação primitiva a ferro e fogo e um sistema totalitário de grandeza inimaginável. Poderia ser de outra forma? O próprio Isaac Deutscher, historiador trotsquista, admitiu que, provavelmente, sem Stalin os avanços, apesar de penosos, não seriam possíveis. A ditadura stalinista, que envenenou a sociedade soviética e se propagou no tempo e no espaço, foi o resultado mais palpável da tentativa de erguer o socialismo em países atrasados. Isto, contudo, não justifica nem absolve a ditadura stalinista. Mas explica, em parte, as agruras mundiais do socialismo.

Trotski e Lênin tinham estudado Marx e, no início, desconfiaram da inviabilidade do socialismo na Rússia caso dependesse unicamente de suas forças. Apostaram, então, suas fichas e argumentos na Alemanha, que vivia uma fase pré-revolucionária. Mas a revolução alemã morreu na praia – e os bolchevistas concentraram-se no que tinham – uma Rússia exaurida, sem recursos, paupérrima, dividida, tudo aquilo que Marx julgava ser a antítese de uma revolução socialista bem sucedida.

4 -

Marx, como Lênin e Trotski, sabia que a miséria não é necessariamente um estopim revolucionário. A miséria quase sempre é alienante e contrarrevolucionária – e transforma o povão em massa amorfa, submetida às manobras de populistas, tanto de direita como de esquerda. A miséria pode produzir delinquência e explosões localizadas, guiadas quase sempre por combustão espontânea: não tem rumo político nem ideológico, a não ser em casos excepcionais. Na Rússia, o que salvou a revolução foi o extremo profissionalismo revolucionário dos bolchevistas, que lideraram o movimento e souberam orientar e guiar a tradição rebelde do povo russo no sentido que desejavam.

A assinatura do acordo Molotov-Ribbentrop (ler a respeito o magnífico “Hitler/Stalin: o pacto maldito”, de Joel Silveira e Geneton Moraes Neto), em 1939, provocou perplexidade no mundo inteiro. O acordo não era apenas um compromisso de não agressão entre os dois países, mas uma partilha secreta que garantia à URSS parte da Polônia (que nos dias seguintes seria invadida pelos nazistas), a totalidade das chamadas Repúblicas Bálticas – Lituânia, Estônia e Letônia – e o “direito” de atacar e dominar a Finlândia, historicamente ambicionada pelos russos. A verdade é que a aliança entre nazistas e comunistas provocou um clima de confusão, frustração e amargura. A partir daquele pacto, a esquerda nunca mais seria a mesma no mundo inteiro. O impacto do acordo assinado por Molotov e Ribbentrop em Moscou, na sorridente presença de Stalin, que pacholamente fumava seu cachimbo, foi quase semelhante ao que viria ser causado, anos mais tarde, pelo Relatório Krushev.

No Brasil, especialmente nas fileiras do PCB, o acordo Molotov-Ribbentrop provocou efeitos nefastos, embora alguns dirigentes, militantes e historiadores o tenham visto como inevitável. “A União Soviética, nas circunstâncias de 1939, não tinha alternativa”, justificou Jacob Gorender. Antonio Callado, que não pertencia ao PCB, escreveu na época um artigo em que declarou “estar chocadíssimo e decepcionado com a União Soviética”. Moacir Werneck de Castro, ligado ao PCB, afirmou ter ficado desorientado: “Passei um período de total perplexidade, trocando impressões nervosas e amarguradas com amigos que pensavam como eu”.

Não houve, por parte da URSS e dos partidos comunistas, uma explicação plausível sobre o acordo firmado com a Alemanha nazista. É possível que Stalin estivesse ganhando tempo, pois havia uma certeza no mundo: que o ódio de Hitler aos comunistas o faria, cedo ou tarde, atacar a URSS. Ante a perplexidade interna e externa, a burocracia divulgou declarações exigindo disciplina e aceitação dos termos do pacto.

5 -

Assinado em 23 de agosto de 1939, o pacto Molotov-Ribbentrop tinha um prazo: dez anos. Ocorre que, em 22 de junho de 1941, para surpresa de Stalin, os nazistas – mais de três milhões de soldados alemães, croatas, finlandeses, romenos, húngaros, italianos e até espanhóis, invadiram a União Soviética, segundo estimativa de Simon Sebag Montefiore, em “Stalin: a corte do czar vermelho”. Foi a chamada operação Barbarossa. A opção das tropas soviéticas, de imediato, foi recuar para o interior do país, como as tropas czaristas fizeram em face da invasão napoleônica, em 1812. Em meio a tudo isso, Stalin ordenou a prisão e a execução de inúmeros comandantes militares, acusando-os de traição, covardia e “ações conspiratórias”.

O recuo das tropas soviéticas tinha uma estratégia: a destruição simultânea das fábricas, das áreas plantadas, dos rebanhos, das pequenas e médias cidades, de forma a impedir que as tropas invasoras nazistas tivessem como se reabastecer e alimentar. Represas, pontes e estradas foram dinamitadas, silos foram incendiados, máquinas agrícolas foram danificadas – ou seja, tudo o que fora construído entre 1917 e 1941 foi posto abaixo, inclusive a usina hidrelétrica de Dniepropetrovski, uma das maiores do mundo.  O esforço de guerra da URSS lhe valeu a perda de incalculável patrimônio social e econômico - e algo em torno de 17,3% dos seus habitantes, dos quais mais de 18 milhões eram civis. 46% do território da URSS foram ocupados pelos nazistas e seus aliados.

O símbolo da tenacidade russa foi a Batalha de Stalingrado, que mereceu de Carlos Drummond de Andrade um poema de qualidade duvidosa, no melhor estilo do realismo socialista (“Stalingrado, quantas esperanças!/Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!/Que felicidade brota de tuas casas!/.../Ó minha louca Stalingrado”).

Em toda a área de Stalingrado, o Exército Vermelho sofreu um total de um milhão e duzentas mil vítimas, dos quais cerca de 500 mil mortos. Foi a maior e mais sangrenta batalha da Segunda Guerra Mundial – e tema de filmes e livros, entre os quais “Stalingrado: o cerco fatal – 1942-1943”, de Antony Beevor, “Barbarossa: a invasão da URSS pela Alemanha nazista”, de Will Fowler, e “Stalingrado: a resistência heroica que destruiu o sonho de Hitler dominar o mundo”, de Rupert Mathews.

6 –

Vale a pena destacar: nenhum outro país, durante a guerra, sofreu perdas tão dramáticas como a URSS. Afora as perdas humanas, algo em torno de 30 milhões de habitantes, a URSS viu desmoronar, segundo cálculos confiáveis, mais de 70% da riqueza nacional que construíra entre 1917 e 1941. Em contraste, os Estados Unidos tiveram 417 mil mortos, sem batalhas dentro de suas fronteiras.

Com o fim da guerra, portanto, a URSS, destroçada e com um imenso déficit humano, teve que se reconstruir – e mais sacrifícios foram exigidos de sua população, que saíra profundamente atingida do conflito mundial. Sacrifícios superiores aos exigidos anteriormente, pois o fim da II Guerra Mundial marcou o início da Guerra Fria – e a URSS assumiu responsabilidades sobre a vida dos países do Leste europeu, que também estavam em escombros.

Mais uma vez o povo soviético foi chamado a pagar a conta: escaldada pelo que acontecera durante a II Guerra, a URSS desenvolveu, a partir daí, uma baita indústria armamentista, período em que se tornou grande potência no ramo aeroespacial, na atividade nuclear e no plano da qualificação cultural e científica. Não havia, porém, o que consumir – sapatos e roupas eram de péssima qualidade, a crise de moradia era gravíssima (três, quatro famílias dividiam um apartamento de dois quartos), a escassez de alimentos era a rotina, o mercado negro e a corrupção dominavam todos os escaninhos do Estado e da economia soviética. Um retrato vivo dessa realidade pode ser encontrado no livro “Parque Gorky”, de Cruz Smith. Com ação passada em Moscou, “Parque Gorky” oferece um retrato vibrante e convincente sobre os motivos, a ideologia, o estilo de vida e a disseminada corrupção das camadas médias da burocracia soviética.

O processo de desestalinização, que se seguiu às denúncias do Relatório Krushev, pouco modificou, de fato, a estrutura de poder de dominação da burocracia, que dera sustentação ao stalinismo. A verdade é que o poder burocrático estendia-se a todas as instâncias da vida soviética: ela, afinal, não só era responsável pela administração do aparelho de Estado, como, também, pelo controle do enorme aparelho produtivo e social da URSS, o que incluía fábricas, minas, fazendas coletivas, redes de comunicação, de ensino e saúde, escritórios e serviços em geral.

A burocracia confundia-se com o partido único e os órgãos repressivos, que, por sua vez, eram os mecanismos através dos quais ela dominava o Estado e exercia o poder. A ditadura do proletariado, que seria a dominação de classe, tornou-se, na realidade, a ditadura da burocracia - sob a liderança de Stalin, o pai de todos os comunistas do mundo.

Bem verdade que os epígonos do stalinismo, através do Relatório Krushev, livraram o povo soviético do terror absoluto, mas foram incapazes de inspirar-lhe esperança e, como antes, não permitiram que ele expressasse pensamentos críticos. Na verdade, tudo ficou como antes, mas sem o terror e os expurgos stalinistas. Mas, havia uma explicação: os líderes da desestalinização eram oriundos da burocracia e do poder que diziam combater.

7 –

A desestalinização não fez o PCUS – nem o Estado soviético - livrar-se da sua natureza totalitária e opressora, pois as contradições históricas do país continuavam vivas. Meses após as denúncias sobre os crimes de Stalin, tropas soviéticas invadiram a Hungria, depondo um governo que pretendia estruturar um governo democrático e socialista no país (V. a respeito: “Hungria, 1956”, de Ladislao Pedro Szabo, organizador). Mas não foi só.

Em agosto de 1968, tanques do Pacto de Varsóvia, liderados por tanques soviéticos, esmagaram a “Primavera de Praga”, que pretendia democratizar o país sob o comando do líder reformista Alexander Dubcek.

Os dois episódios tiveram efeitos perversos sobre a crença no ideal socialista.

8 -

O stalinismo causou marcas tão penetrantes na sociedade soviética que a simples desestalinização – e o modo como foi conduzida - foi incapaz de apagá-las, a não ser que ela evoluísse na direção de um amplo, profundo e ativo movimento de regeneração do poder. A expectativa que se tinha, conforme notou Ernest Mandel, é que as lentas e rasas mudanças que se processavam na URSS tomassem, ao longo do tempo, a forma de uma reação politicamente consciente das bases da sociedade. Não foi o que aconteceu.

O aparecimento no cenário político da União Soviética do grupo liderado por Mikhail Gorbachev implicou numa tentativa de seguir um caminho inverso ao que era seguido – e, mais importante, num esforço consciente de aprofundar reformas políticas e econômicas. Com o intuito de promover a glasnost e a perestroika, Gorbachev procurou o apoio do povo soviético, como forma de se opor aos setores mais conservadores da burocracia, que ainda estavam presentes e atuantes no cenário político da URSS.

O “despertar” do povo soviético, contudo, não se deu no sentido esperado por Gorbachev: ao invés de buscar a assepsia da estrutura de poder, o povo soviético convergiu para a negativa do socialismo. As propostas de restauração do capitalismo, que a maioria não sabia o que era ou como funcionava, ganharam força na sociedade. O irônico é que a transição foi realizada pelos que combatiam as propostas de Gorbachev, ou seja, a liderança de remanescentes convertidos da própria burocracia e da máquina repressiva do Estado, entre as quais a KGB. A rigor, essa nova elite russa percebeu que o socialismo soviético tornara-se impossível de ser sustentado - tantas e tão profundas eram as contradições que acumulara ao longo de sete décadas. Putin, Medvedev e Sergey Lavrov, que comandam hoje o poder russo, são egressos da KGB, são hábeis no uso do garrote. O mesmo se pode dizer sobre os bilionários e chefes da Máfia russos.

Ironicamente, a glasnost e a perestroika eram ferramentas que visavam reformar a estrutura do poder, que, em última análise, se mostrou frágil – e que só se manteve em pé durante 74 anos devido ao terror, a falta de liberdade e o medo. Enfim, “o salto do reino da necessidade para o reino da liberdade”, a experiência socialista da URSS chegava, de forma melancólica e surpreendente, ao seu fim.

9 -

Acabei de ler um livro que vai fundo no sofrimento dos velhos comunistas russos pós-derrocada da URSS. Trata-se de “O fim do homem soviético”, de Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de literatura (2015). A experiência socialista durou 74 anos – e é perfeitamente exato afirmar que milhões de “homens soviéticos” nasceram, viveram e morreram sob um regime que iria desmoronar como um castelo de cartas.

“A democracia era para nós um animal desconhecido”, comentou um “homo sovieticus”, que ainda afirmou não saber o que é democracia, capitalismo e liberdade. Um velho russo, que lutou na Segunda Guerra, época em que perdeu a mulher e dois filhos, assassinados por soldados nazistas, disse à Svetlana Aleksiévitch: “Ninguém nos ensinou o que era liberdade. Só nos ensinaram a morrer pela liberdade”. Morrer pela liberdade, para milhões de soviéticos, era morrer pela ditadura stalinista, que parte considerável do povo soviético simplesmente venerava.

“De onde vieram esses russos milionários?” - indagou revoltada uma russa à Aleksiévitch. Ela vivera na miséria durante o socialismo - e ainda hoje, em pleno capitalismo russo, permanece paupérrima: vive de esmolas recolhidas na rua. Ela não aceitava o argumento de que os russos milionários eram descendentes dos que usufruíram as benesses do “socialismo real”. Os russos milionários teriam vindo de fora – era o que repetia. O socialismo não podia ter criado os milionários russos de hoje, afirmava ela.

Outro “homo sovieticus” entrevistado por Svetlana observou que “os contrabandistas e os cambistas tomaram o poder. E, ao inverso do que disse Marx, depois do socialismo estamos construindo o capitalismo”. Sobre a URSS, o entrevistado disse, com ar melancólico: “nunca vou esquecer o ar de liberdade daqueles dias...” Ao visitar um casal de amigos, Svetlana ouviu o seguinte desabafo: “O socialismo fazia as pessoas viverem na história. Fazer parte de algo grandioso”. Outro comentário: “Nós não tivemos democracia, é bem verdade. E nós aqui hoje somos lá democratas?”

Ielena Iúrievna e Anna Ilínitchna abriram um debate com Svetlana com a seguinte observação: “faz tempo que eu quero que alguém me explique o que está acontecendo conosco?” O comentário demonstra um sentimento típico do “homo sovieticus”: a incompreensão das causas da derrocada da URSS e da atual situação do país.

Os soviéticos alimentavam a certeza de que a URSS era sólida – afinal, era o produto histórico de uma revolução dolorosa, de um processo de construção do socialismo marcado pelo sofrimento, de uma guerra que destruiu o que fora construído, que matou milhões de soviéticos, de uma reconstrução ainda mais difícil e sofrida. Tudo isto, porém, desmoronara com uma rapidez impensável. Ielena e Anna não compreendiam o sentido e o ritmo daquele processo social, pois, afinal, “o socialismo não é só campo de trabalho forçado, não é só delação e cortina de ferro; é também um mundo justo e limpo: dividir com todos, ter pena dos mais velhos, ter compaixão e não juntar tudo para si”.

Um dos mais emocionantes depoimentos colhidos por Svetlana:

“Eu cresci em uma época totalmente soviética. A mais soviética de todas. Sou cria da URSS. Mas a nova Rússia... eu ainda não consigo entendê-la. Não consigo dizer o que é pior: o que temos agora ou a história do PCUS [Partido Comunista da União Soviética]. A minha cabeça tem uma forma soviética, tem essa matriz, passei metade da minha vida no socialismo. Isso ficou em mim. Não tem como tirar. E não sei se quero me livrar disso. Naquela época, a vida era ruim, mas agora a vida é terrível”.

“O fim do homem soviético”, de Svetlana Aleksiévitch, é um livro dramático e, em última análise, triste, muito triste: ele descreve nada mais que os escombros de um sonho que não deu certo.