Por do sol em Penedo

Por do sol em Penedo

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Quanta desilusão!


Lembro, sigo lembrando:

Ainda no primeiro governo Lula, uma querida amiga, petista histórica, conversou comigo sobre a sua desilusão partidária. “O PT vai se autodevorar, vai se autodestruir”, disse-me ela, com amargura. Em termos emocionais, eu pouco podia fazer por ela: nunca tive ilusões em relação ao PT e, principalmente, em relação ao Lula, a quem sempre considerei, como político e pessoa, vulgar e enganador.

Eu fui, durante anos, filiado ao PDT, convicto de que poderíamos retomar o discurso trabalhista e os planos reformistas de Jango (com as devidas adaptações), tendo como mira, no longo prazo, a formulação de um projeto de cunho democrático e socialista para o Brasil. Hoje considero que PT e PDT se equivalem e se merecem. São duas porcarias.

Esta querida amiga, que eu conhecera na valorosa Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), tinha, porém, uma esperança: se o PT se desviara do “caminho justo” (expressão que usávamos muito no nosso tempo de estudante), a saída seria através dos movimentos sociais, que, na sua opinião, não se deixariam encantar pelo poder – “e reagiriam”, frisou. Ouvi seus argumentos em silêncio, mas, dentro de mim, bailavam dois sentimentos: o de crença na autonomia política dos movimentos sociais e o de descrença na suposta capacidade de os movimentos sociais não sucumbirem ao poder – e, sobretudo, ao poder do dinheiro. Poder e dinheiro são um coquetel mortal.

A verdade é que o governo petista, mediante copiosas verbas, cooptou vergonhosamente os movimentos sociais. A própria militância do PT, segundo disse o próprio Lula recentemente, só se permite ir para as ruas mediante pagamento. Às vezes me pego pensando: de que vivem as lideranças dos movimentos sociais? Onde trabalham? Quem paga os seus deslocamentos pelo país? Alguém sabe? Outro dia, no Aeroporto, vi um dos tais líderes dos movimentos sociais, um dos mais estridentes. Parecia um lorde, na roupa e na pose.

O PT não só desmoralizou a esquerda, como vilipendiou os movimentos sociais. São essas, mais a corrupção sistêmica e a crise econômica, as heranças malditas que os governos petistas legaram ao país, ao povo brasileiro. Depois, reclamam do avanço da direita no Brasil.

Em tempo (1):

O governador Fernando Pimentel (PT), de Minas Gerais, nomeou a esposa, Carolina, secretária de estado do Trabalho e Desenvolvimento Social. Antigamente, isto se chamava nepotismo, mas o objetivo da nomeação vai além: garantir foro privilegiado à Carolina, que, com o maridão, é alvo de investigação da Polícia Federal, na chamada Operação Acrônimo, que apura esquema de lavagem de dinheiro e irregularidades em campanha eleitoral.

Em tempo (2):

Vi uma triste reportagem sobre o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. Quem é mesmo o ministro da Educação?

Em tempo (3):

E a ciclovia do Paes, heim? Se ela tem que ter um nome, que tal cancelar a homenagem ao Tim Maia e batizá-la com o nome de: “Ciclovia Pedro Paulo, o Espancador”.

Em tempo (4):

Desculpem, mas vou tratar de um assunto pessoal: três pessoas diferentes informaram que, a partir de outubro, vai faltar grana para pagar a aposentadoria do Velhote do Penedo. Depois não culpem o Temer.

Em tempo (5):

Cheguei à conclusão que sou um idiota.

Lutei contra a ditadura, fui derrotado. Não recorri à Comissão de Anistia, reivindicando compensação financeira, nem Aposentadoria de Anistiado, por ter sido impedido de trabalhar durante anos, com duas filhas menores. Fui socorrido por amigos. Não recorri à Comissão de Anistia, nem vou nunca recorrer. Por uma questão de princípio: eu lutei e fui derrotado.

Agora, corre no Facebook um extrato de pagamento referente à aposentadoria de anistiado do Lula. E lá está: Lula recebe, sem descontos (!), a bagatela de R$ 8.352,45.

Notem: sem descontos, embora o pagamento seja feito pela Previdência. Eu, por lei levada ao Congresso e sancionada pelo presidente Lula, pago uma cota à Previdência, apesar de estar aposentado – e de ter me aposentado antes da aprovação desta lei. Vejam: Lula fez uma mudança na lei de aposentadoria que o próprio FHC não fez.

Lula aposentou-se, nos termos aqui comentados, com 43 anos de idade.

Em tempo (6):

Lembrei-me hoje de uma grande amiga, fundadora do PT, já falecida: Isabel Picaluga. Certa vez, eu já morava em Brasília, fiquei na casa dela, em Jacarepaguá.

Uma noite, ela recebeu em casa um grupo de militantes do PT – e permaneceu a noite toda preparando cartazes, volantes e muitos outros materiais que seriam usados pelo partido. Lembro-me dela, muito sorridente, dizendo que o PT se construía através da sua militância.

Como disse acima, minha amiga já se foi, mas imagino a tristeza que ela teria, hoje, ao ver muitos dirigentes do PT ricos, gordos e debochados. Imagino o que ela pensaria ao ver o Lula transformado num dos homens mais ricos desse país, além dos que já estão em cana, como Dirceu. Tenho muitas saudades da Isabel.

domingo, 24 de abril de 2016

O Brasil é isso: precisa reclamar?


Vimos o Brasil na Câmara dos Deputados

 

Assisti partes da sessão da Câmara que aprovou a admissibilidade do processo de impeachment da Dilma. Tenho lido críticas, chiações, resmungos e textos escritos aos gritos de ódio. Também, o que desejavam? O Brasil é um país politicamente troncho - uma espécie de reinado do fisiologismo. O brasileiro adora o fisiologismo, como venera o jeitinho, a manobra, o trambique, maior ou menor. O brasileiro não aceita regras, leis, normas civilizadas de convivência. O Congresso é, sem dúvida, um retrato do Brasil – e os congressistas, dos brasileiros. Reparem, por exemplo, que em todos os parlamentos, as Excelências permanecem em seus lugares e respeitam quem está na tribuna. No Brasil, os parlamentares transformam as sessões numa zorra total, num bloco carnavalesco.

Em “Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, um burguesão (Werneck) quer comprar um marido para sua filha caçula, que foi currada. Já comprou outro, de nome Peixoto, para a filha mais velha. O novo candidato, Edgar, reluta em vender-se e arranca de si um comentário desesperado: “Não sou Peixoto!” O burguesão ri alto: “Engano, meu caro. No Brasil todo mundo é Peixoto”. Na plateia, o silencio é constrangedor.

Noutro momento, o mesmo burguesão, ante a insistente e angustiante recusa de Edgar, entrega a ele um cheque de cinco milhões de cruzeiros (a peça é de 1962) e desafia: “É teu o dinheiro. Se você tem caráter, rasga o cheque. Tão simples! Você tem ou não tem caráter? Então rasga e depois atira na minha cara o papel picado.” Edgar, vencido, choroso, não rasgou o cheque.

O Velhote do Penedo, que já era leitor de Nelson Rodrigues, assistiu ao espetáculo, duas semanas depois da sua estreia na Maison de France, Rio de Janeiro. O Velhote saiu de lá acabrunhado, encucado, cheio de dúvidas. Dia seguinte foi ver o pai de um amigo, que era dirigente do Partido Comunista Brasileiro. Explicou suas angústias. Boris (vamos chamá-lo assim) me garantiu que Nelson Rodrigues era reacionário, tinha uma visão equivocada do mundo e do Brasil. Ousou um palavrão: um escroto! Pronto, o problema estava resolvido: Nelson Rodrigues era um escroto – e ponto! Hoje talvez ele dissesse: Nelson Rodrigues é um coxinha.

O tempo passou – vieram as vicissitudes, os sofrimentos, as angústias, as alegrias, os amores, as venturas e desventuras, as derrotas da vida. Hoje, 54 anos passados, o Velhote releu a peça do Nelson Rodrigues – e mais uma vez ficou angustiado. Com uma diferença: a vida ensinou ao Velhote que a peça de Nelson Rodrigues (e as cenas citadas) vale bem mais que centenas de estudos sociológicos, políticos e antropológicos que circulam por nossas bandas, cheios de empáfia e incapacidade de explicar o Brasil e os brasileiros. Ao contrário do que me dissera o Boris, Nelson não era um escroto! Era um arguto observador do caráter do brasileiro.

Comecei falando da sessão da Câmara e do escândalo que causou, segundo pude ler na mídia e no facebook. O Velhote, claro, considerou o espetáculo um misto de filme de Buñuel e uma assembleia de farofeiros, embora, em alguns instantes, a coisa tenha se tornado uma espécie de entrudo. O deputado Bolsonaro, por exemplo, dedicou o seu voto a um torturador assassino; Jean Wyllys afirmou que a sessão não passava de uma “farsa sexista”; não satisfeito, aproximou-se de Bolsonaro, que o chamara de boiola, deu-lhe uma cusparada e saiu em desabalada carreira, creio que temendo o revide.

Houve vivas aos pais, aos netos, aos irmãos, ao povo brasileiro, a Marighela, a Deus, ao bairro em que mora, à cidade em que nasceu, ao dentista que tratou do seu canino, aos netos. De tudo isso, o Velhote só não gostou foi da cusparada (por nojo) e do elogio ao torturador (por ódio). Ofensa se responde com porrada. O elogio ao torturador é crime e deve ser punido, no mínimo, com a cassação do mandato. O Velhote já escreveu sobre isso.

Misturei a sessão da Câmara com Nelson Rodrigues para dizer que nos faltam estudos sérios sobre o brasileiro, sobre o que Norbert Elias chamou “habitus”. O brasileiro, ao longo da história, acumulou saberes, culturas e modos de agir nada civilizados. O brasileiro não é um coitadinho.

Temos carência de estudos e análises que nos expliquem porque o brasileiro (estou falando em tese) adora praticar pequenos delitos, como furar fila, dar jeitinhos, subornar o guarda de trânsito, obter vantagens pessoais, mas condena e quer a cabeça dos “outros” que trambicaram. O brasileiro gosta de dizer que não suporta política, confessa (feliz) que é despolitizado e alienado, que não se preocupa com o problema dos outros. É verdade. Mas não percebe que, ao se afastar da política, abre espaço para muita gente ordinária, da esquerda à direita. Ideologia não cura a safadeza.

Pouco antes de falecer, Antonio Callado acentuou, em entrevista, a diferença entre o brasileiro e o vietnamita, entre um povo acomodado, folgado, sempre propenso à bonança e à aceitação (o brasileiro) e um povo raquítico, pequenino, mas que lutou e derrotou o exército francês e, depois, o exército mais armado do mundo, o americano (o vietnamita).

Nelson Rodrigues foi fundo ao desenhar em suas peças e confissões o que ele julgava ser o brasileiro, a alma do brasileiro. Vou voltar ao assunto.

 

Em tempo (1):

Alguém (não lembro o nome) escreveu que o Rio de Janeiro é uma cidade politizada. Ora, o deputado federal mais votado no Rio foi o Jair Bolsonaro, que recebeu 465 mil votos; Eduardo Campos recebeu 232 votos; 162 mil eleitores votaram no Pedro Paulo, o Espancador. Há políticos propondo eleições gerais, que, segundo pesquisas, poderão eleger o Lula. Não é uma coisa espantosa? O Rio elegeu o Pezão, como muitos anos atrás, elegeu Moreira Franco, derrotando o Darcy Ribeiro.

Em tempo (2):

Há uma delação premiada que promete informar ao distinto público (nós!) nomes de jornalistas e blogueiros que recebem grana para defender o governo. Como dizia o grande Stanislaw Ponte Preta, vai sair fumacinha.

Em tempo (3):

A cena dos banhistas, batendo bola, indiferentes aos dois cadáveres mortos devido à incompetência da Prefeitura do Rio ao construir uma simples ciclovia, é autoexplicativa. Dolorosamente autoexplicativa.

Em tempo (4):

Lembrei-me de outra cena do Nelson Rodrigues. Velório de um sujeito. A mulher, em prantos, agarrava-se ao caixão e pedia: “Quero ir junto! Quero ir junto! Quero morrer! Quero morrer com o meu amor!” Uma tia gorda e patusca aproximou-se dela com um copo d’água: “Beba, minha filha, beba, que faz bem”. A viúva parou de chorar, olhou o copo d’água e perguntou: “É filtrada?”

Em tempo (5):

O ator José de Abreu cuspiu num casal – e vangloriou-se: “cuspi no marido e na mulher, pois é assim que os fascistas devem ser tratados”. É impressionante a capacidade que algumas pessoas têm de ofender as pessoas, rotulando-as de fascistas, coxinhas e direitistas pelo simples fato de não pensarem como ele, embora eu não creia que Abreu saiba pensar.

E convenhamos: usar o cuspe para provar que é machão e de esquerda é de uma pobreza sem nome. Virou moda agora? Ser de esquerda é sair por aí cuspindo nas pessoas? Eu nunca cuspi em ninguém. Aliás, todos sabem que os torturadores da ditadura tanto batiam, supliciavam e davam choques como cuspiam e urinavam nos presos políticos como forma de desmoralizar a vítima.

Em tempo (6):

Em 1958, quando o escrete brasileiro foi disputar a Copa do Mundo da Suécia, os jornais locais preveniram: “Cuidado, não fiquem muito perto dos brasileiros. Eles têm o hábito de cuspir”. Essa história foi contada pelo maior cronista esportivo do Brasil, Mário Filho, irmão do Nelson Rodrigues.

Em tempo (7):

Quando o deputado Tiririca (mais de um milhão de votos em São Paulo!) votou a favor do impeachment da Dilma, Lula imprecou: “Ele? Mas ele esteve aqui e nós acertamos que ele ia votar contra!” Interessante. Acertaram o quê, como, de que maneira? Só no papo?

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Plantou e colheu


O impeachment de Dilma

 

Dilma plantou e colheu. Arrogante, autossuficiente, certa de que ela podia governar sozinha, decidir tudo (sobre qualquer assunto) e tocar a vida aos berros e xingos. Deu-se mal. Era inevitável.

Há meses, participando de uma reunião plenária organizada pelo senador Cristovam Buarque, eu disse que a saída da crise estava num grande debate, orientado por Dilma, de forma à formulação de um projeto para o país. O projeto deveria englobar um conjunto de reformas políticas e o desenho de uma saída econômica. Mas – acentuei – esse debate só teria eficácia se liderado pela própria presidente da República. Mas – acrescentei - a autossuficiência dela, o temperamento dela, o perfil dela, impediria Dilma de fazer o que devia fazer. Falta, sempre faltou à presidente, vocação política e o reconhecimento de que o diálogo é essencial. Tancredo dizia que política “agente faz com os adversários e inimigos; com os amigos basta uma boa conversa e tudo se acerta”. Dilma só queria fazer “política” com os submissos.

A presidente não procurou quem devia procurar. Sentou-se no colo do Lula e acreditou que ele faria o milagre que reverter a situação. Mas era tarde. Lula não tem habilidade ou estatura para levar adiante uma costura desse tamanho e importância. Lula, por exemplo, foi constituinte, mas sua passagem pelo parlamento foi pífia; quem se destacou, na época, foi o Genoino. A articulação política do Lula foi um tremendo fracasso.

Em face das nuvens negras que se aproximavam, Dilma e Lula resolveram, então, radicalizar o discurso. Enquanto, entre quatro paredes, procuravam convencer – via Diário Oficial - deputados dos diversos partidos, partiram para o discurso agressivo: Dilma transformou o salão do Planalto em palanque; Lula foi para as ruas, seu habitat, ameaçando e ofendendo indiscriminadamente a todos. A contradição era clara: discursos ofensivos e conversa ao pé do ouvido não se combinam.

Dilma plantou e colheu.

Não sei se o impeachment é a melhor solução para a grave crise brasileira. Talvez não seja, mas é preciso considerar que Dilma levou o Brasil ao buraco – e ela, hoje, não teria mais condições de governar. Temer terá? Não sei, mas Temer é um sujeito habilidoso, saberá se cercar de gente competente e buscar apoio na Câmara e no Senado.

Dilma plantou e colheu.

O governo, afora o processo de impeachment, sofreu uma derrota mais que fragorosa: recebeu 26,8% dos votos da Câmara, o que significa que Dilma não tem, nem terá ou teria, condições de governar, caso a coisa mude no Senado.

Hoje, segunda, 17 de abril, Dilma prometeu fazer um pronunciamento à nação: seria melhor não fazer, pois o panelaço será inevitável.

sábado, 9 de abril de 2016

Circo de horrores, vírgula, Brasil


A cara do Brasil

 

1 - Liguei a televisão. Na Band, “flashes” da reunião da Comissão do Impeachment.

Um verdadeiro “circo de horrores”. Um deputado, por exemplo, fez uma distinção entre “crime de responsabilidade” e “crime de responsabilidade fiscal” – e quando foi desenvolver a ideia, que lhe parecia brilhante e definitiva, enrolou-se de tal maneira que engasgou: teve uma crise de tosse. Uma deputada dormia. Um deputado foi chamado para falar – e também estava dormindo: “uma baba elástica e bovina”, como diria Nelson Rodrigues, escorria-lhe pelo canto da boca. Inúmeros deputados mexiam freneticamente nos seus celulares. Outros liam jornais. Muitos conversavam entre si, tapando a boca com as mãos, de modo a evitar sinistras leituras labiais, que revelariam seus recônditos segredos. O tédio estava estampado na cara de alguns. Um deputado gaúcho, petista, fez um discurso tão nervoso e tenso, que achei um milagre ele não ter tido uma embolia ou um derrame. Outro deputado gastou o seu tempo defendendo a igreja da qual faz parte, que, segundo ele, tinha sido ofendida por outro parlamentar, um sujeito bronco e estúpido.

Segundo disse a repórter, a coisa varou a madrugada, no mesmo diapasão, ritmo e flagrantes. Segunda-feira tem mais, com a presença do inefável José Eduardo Cardozo, alçado por “tia” Dilma à condição de jurista, o que evidencia a enorme carência de quadros que a presidente dispõe para – valha-me Deus! – governar o país.

Certa altura, o presidente da Comissão informou que estavam servidos, na sala ao lado, sucos, cafezinhos e sanduíches de queijo. Houve, então, um avanço, que me lembrou o avanço de hienas sobre uma carcaça.

Um verdadeiro circo de horrores. Enquanto isso, as epidemias grassam, o ensino despenca em qualidade, a inflação come os salários, o desemprego avança, a violência aumenta, o comércio despenca, a indústria entre em colapso, os serviços públicos se deterioram, o Brasil se esfacela.

2 – Despontou nos céus do Brasil um novo escândalo! O Tribunal de Contas da União (TCU), ao analisar o Programa Nacional de Colonização e Reforma Agrária descobriu um rombo de 2,83 bilhões de reais! E pior: o programa existe para atender produtores rurais (sem terra) que recebem até três salários mínimos; mas foram beneficiados 37 mil pessoas mortas, 62 mil empresários, 144 mil servidores públicos, 847 vereadores, 96 deputados estaduais, 69 vice-prefeitos, quatro prefeitos e um senador!

Cadê o MST para protestar? Aliás, cadê a UNE para protestar contra o corte de verbas da educação?

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Quem dá mais? Quem dá mais?


A história, às vezes, desnuda a canalhice dos dias atuais.

 

Aqui, em Brasília, é voz corrente que as parcas finanças públicas estão sendo torradas na mais descarada prática do “toma lá, dá cá”. Corre, por exemplo, que um voto contra o impeachment anda valendo um milhão de reais; ausência no dia da votação, contudo, vale entre 400 e 500 mil. Afora isso, negociam-se e transacionam-se cargos, valendo o que for preciso, menos a qualidade ou mérito dos futuros ocupantes dos escaninhos do poder. Dilma, com a cumplicidade de aliados e reboques, está loteando e vilipendiando o Estado brasileiro. É aquela história: “Depois de mim, o dilúvio”.

Mas, como o Velhote disse acima, a história às vezes nos mostra exemplos de dignidade, que raramente são seguidos – seja por desconhecimento, seja por ausência completa de escrúpulos.

É possível que os amigos do facebook jamais tenham ouvido falar em Carlos de Laet (1847-1927) e em Francisco Inácio de Carvalho Moreira (1815-1906). Ambos tinham várias coisas em comum: eram conservadores e monarquistas. Mas eram também políticos e intelectuais brilhantes. E duas pessoas de caráter, íntegros, raras.

Quando a República foi proclamada, Laet e Moreira afastaram-se dos cargos que ocupavam e recolheram-se às suas residências, dedicando-se a tarefas intelectuais e ao silêncio. Afastaram-se da política, apesar dos inúmeros convites que tiveram dos seguidos governos republicanos. Agiram em desacordo com Joaquim Nabuco, que, mesmo sendo um monarquista, deixou-se encantar por cargos que lhe foram oferecidos pelos republicanos.

Laet e Moreira morreram esquecidos, embora tenham se destacado nas atividades que se envolveram. Um dia, falo sobre eles aqui neste espaço.

Tenho certeza que o mercado de cargos patrocinado, nos dias atuais, por Dilma e asseclas provocaria náuseas em Laet e Moreira, como causa nojo à maioria dos brasileiros de hoje.

Um motivo especial de orgulho: Francisco Inácio de Carvalho Moreira era natural de Penedo, Alagoas, terrinha sagrada do Velhote. Era o Barão de Penedo. Seria hoje chamado de “coxinha”, de direita (por ser conservador) e elitista (por ser monarquista). A imbecilidade tornou-se um patrimônio no feudo petista.

Em tempo:

Considero curioso o clamor de uma associação de feministas e de algumas militantes do PT e do governo contra a capa da ISTOÉ, que mostra Dilma em meio a uma explosão de ira. Interessante. Quando o secretário Pedro Paulo espancou a mulher, quebrando-lhe dois dentes, as feministas que hoje reclamam da capa de uma revista ficaram na moita. Afinal, Pedro Paulo (e seu mentor, o prefeito Eduardo Paes) é um aliado. E a aliados tudo é permitido: bater em mulher, roubar dinheiro público, entre outras tantas nobres façanhas.

sábado, 2 de abril de 2016

Se eu tenho um bordão, porque pensar?


 A chapa vai esquentar ainda mais

 

Quando começou a história de impeachment, Dilma rechaçava a ideia dizendo-se honesta. Ela nunca teria se envolvido na roubalheira – “sou uma mulher honesta, e ninguém, ninguém, vai encontrar um deslize na minha vida”. O bordão “não ao golpe” ainda não tinha entrado em cena.

Quando o pedido de impeachment foi aceito, e soube-se que não se acusava a presidente de ser ladra – e sim de ser inepta e incompetente, pois violara a Constituição, a Lei de Responsabilidade Fiscal, entre outras, Dilma passou a negar o que, de fato, fizera. Os primeiros ecos do bordão começaram a ecoar.

Dizia-se: se ela não burlara a Constituição e não desrespeitara a Lei de Responsabilidade Fiscal, o pedido de impeachment era injustificado, pois de nada se podia acusar a presidente. O bordão “não ao golpe” passou a ecoar pelo país, pois ninguém, nem mesmo os ditos intelectuais e acadêmicos, se deram ao trabalho de ler o pedido de impeachment e consultar a Constituição e a Lei de Responsabilidade.

As falas dos ditos intelectuais e acadêmicos são de uma pobreza sem tamanho – a eles basta apenas gritar o bordão, que, em si, ganhou valor absoluto. São péssimos intelectuais e acadêmicos, inclusive porque não entendem o que se passa no Brasil, não sabem explicar o Brasil, são incapazes de ir fundo nas suas análises, digo, palpites. Conseguiram a proeza de explicar o Brasil mediante o bordão “não ao golpe”. Mas de que golpe estão falando? Não importa. O importante é o bordão.

Agora, surge, como figura premiada, a professora de filosofia (ela se autoproclama “filósofa”) Marilena Chauí. Depois de informar que odeia a classe média (classe da qual ela e seus colegas de academia pertencem), descobriu que o juiz Sérgio Moro é agente da CIA, quer vender o Pré-Sal, entregar nossas riquezas aos americanos, fazer tráfico humano, de armas e de drogas e o escambau.

Não vou me estender, pois a “filósofa” não merece, tão estapafúrdios são seus palpites. Só colegas e alunos idiotizados pela cegueira pseudoideológica levam-na a sério. Chauí foi, anos atrás, acusada por José Guilherme Merquior de transcrever trechos – sem aspas – do livro “Cultura e democracia”, de Claude Lefort. Depois foi acusada de copiar palavra a palavra um texto do espanhol Julián Marías. Sobre o assunto escreveu Roberto Romano o artigo “O silencio palavroso de Marilena Chauí”. Leiam se puderem o artigo; é didático.

Ontem, quinta-feira, 31 de março, Dilma reconheceu, finalmente, que deu as tais pedaladas e fez tudo que consta do pedido de impeachment, mas que as acusações não configuram crime de responsabilidade – até porque, acrescentou, todos os presidentes fizeram isso. Dilma criou, portanto, uma jurisprudência: se todos foram criminosos, ela também pode ser.

Enquanto Dilma dizia isto no “showmício” do Planalto, o ministro Barbosa, no congresso, diante da comissão do impeachment, negava as pedaladas. Quem estava mentindo? Eles não fazem coincidir o discurso, mas repetem o bordão. Afinal, repetir bordões não exige raciocínio.

Em tempo: esta matéria já estava escrita quando desabou sobre o país mais uma etapa da operação Lava-Jato, que trouxe de volta o assassinato de Celso Daniel. Uma lambança.