O Velhote do Penedo

O Velhote do Penedo
O Velho Professor do Penedo em plena labuta! Vida difícil, esta!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Picaretagem e golpismo


Nunca pensei em começar um texto afirmando que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um sujeito que costuma perder o senso de oportunidade em face de situações em que dele se espera, no mínimo, equilíbrio, serenidade prudência. Diante de fatos novos e tensos, FHC age como um perfeito picareta.

Vou lembrar uma história. Quando Sarney era presidente, em 1986, FHC ocupou por um tempo a liderança do governo no Senado. O país estava paralisado, a inflação estava no topo, nada dava certo – e eis que FHC, no dia 27 de fevereiro de 1986, rompe subitamente com o governo e, por meio de uma entrevista coletiva, lasca a ripa no presidente, “um sujeito indeciso, incapaz de reagir à crise”, disse. FHC foi impiedoso: “O presidente é um homem sem grandeza”. Dito isto, presumo que FHC e golpismo foi dormir com a alma lavada, certo de que os louros iriam premiar sua atitude destemida, embora insensata.

No dia seguinte, 28 de fevereiro de 1986, o presidente Sarney surpreendeu o Brasil, o mundo e o ex-líder do seu governo no Senado: lançou o Plano Cruzado, congelou os preços, convocou o povo (“meus fiscais”) – tudo isso sob a batuta do ministro Dilson Funaro, da Fazenda. Ou seja, a coisa foi planejada e ocorreu sem que o líder FHC soubesse do que estava sendo bolado por Funaro. Sarney calou a boca de FHC, da mesma forma que Mário Covas, anos depois, iria se opor a FHC, que estava disposto a aderir ao governo Collor. Covas sabia que a adesão do PSDB ao Collor era uma fria sem tamanho, enquanto FHC, tangido por presunção de esperteza, estava disposto a consumar a aliança implausível. Covas evitou que o PSDB entrasse numa fria.

Agora, FHC dá uma entrevista – e, lembrando José Américo de Almeida na reunião ministerial que fez Getúlio decidir pelo suicídio, falou que Temer devia praticar um “gesto de grandeza”, renunciando ao mandato. O que FHC não pensou é que, caso renunciasse, Temer estaria fazendo uma confissão de culpa. FHC é como o velho samba de Noel: não sabe o que diz.

Dito isto sobre o FHC, vamos ao que interessa: a denúncia do procurador Janot, cume de uma manobra golpista e execrável contra Temer e, consequentemente, contra as reformas e a Lavajato. Não digo isto por achar que Temer é uma maravilha. Não é. Mas não é também esse sujeito abominável que Janot, a Rede Globo e os oportunistas de plantão, muitos dos quais pendurados nas redes sociais, sugerem.

O que me espanta é a maneira torpe como Janot alicerça a denúncia contra o presidente da República no depoimento de um delinquente. Joesly confessou ter cometido mais de 200 crimes, subornado mais de 1800 pessoas – além de ampliar sua riqueza com dinheiro público, que ele afanou. Obteve um baita empréstimo do BNDES e o investiu nos EUA, o que é ilegal. Janot, no afã de atingir Temer, deu a Joesly um indulto raro, livrando-o das penas dos crimes que cometeu. Isto tudo me intriga: uma das condições da delação premiada é garantir o retorno aos cofres públicos da grana roubada pelo delator. Janot, contudo, fez um acordo que beneficia o delator, não o obrigando a ressarcir devidamente os cofres públicos. O que me pergunto: pode um procurador geral fazer isto?

Papel importante na trampa está sendo desempenhado pela Rede Globo – e sua tropa de jornalistas delinquentes. Em alguns casos, o comportamento de alguns deles é simplesmente miserável e canalha; noutros casos, o noticiário mergulha no besteirol e na desonestidade simples. Bom, mas isto é uma questão de biografia: cada um que cuide da sua.

A campanha contra Temer teve início logo que ele assumiu: primeiro, foi “acusado” de não ter experiência administrativa; depois, surgiram ilações canalhas sobre sua a mulher e filho. Ouviram-se críticas aos seus livros. Bem, a coisa foi crescendo numa sucessão absurda: seus principais ministros foram afastados, questionaram-se suas iniciativas, como a reforma do ensino médio, tendo a Rede Globo estimulado, através de reportagens mal intencionadas, a invasão das escolas e a destruição de bens públicos. Veio, enfim, a reforma – e o mundo não veio a baixo. Estabeleceu-se um teto de gastos – e mais ataques, alguns ridículos. A esquerda atrasada berrou: figuras grotescas, como o deputado Molon (um frango que pensa que é um galo), despontaram; o senadorzinho do Acre, Randolphe Rodrigues teve mais um dos seus habituais chiliques e achaques, não se sabendo até hoje o que ele pensa sobre a vida, as pessoas e as coisas. Gleisi, Lindenberg, Feghalli e Graziotin – o incrível quarteto que ainda adora Stalin e Enver Hoxha se pôs a recitar palavras de ordem típicas dos anos 1950. O controle de gastos, apesar de tudo, foi aprovado. Ano que vem – espero – esta tropa será repudiada pelos eleitores.

Na verdade, Temer foi atacado com uma voracidade espantosa. Houve o episódio da carne, que nos custou, ou quase, posições importantes no ranking das exportações mundiais do produto. Percebeu-se depois que o escândalo eclodira em razão de ações precipitadas e erradas da Polícia Federal. Mas o estrago já fora feito. Depois, falou-se que a ABIN, atendendo ordens diretas do presidente Temer, estava espionando o Janot e o Fachin, o que, apesar do ruído, não se confirmou. Acusaram-no de utilizar, em viagem familiar, o avião da JBS. Quilos de cocaína foram apreendidos, com acusações torpes ao ministro da Agricultura. A viagem de Temer à Rússia e à Noruega foi ridicularizada. Agora, a denúncia contra o presidente, baseada na delação de um notório escroque, que auferiu no acordo com Janot benesses e vantagens inacreditáveis.

Já chamei a atenção dos verdadeiros absurdos da denúncia de Joesley, a qual foi encampada por Janot e Rede Globo. A mais absurda é aquela que diz que os 500 mil da famosa mala fazia parte de um acordo, acertado entre Joesley e Temer, de pagamento semanal do primeiro ao segundo, durante os próximos vinte anos. Ora, o ano tem 52 semanas; logo, por ano, Temer receberia de Joesley, caso o acordo fosse verdadeiro, cerca de 26 milhões, perfazendo, em vinte anos, a bagatela de 520 milhões, ou seja, meio bilhão de reais. Desculpem, mas só idiotas podem acreditar nessa história. Temer tem pouco mais de um ano de governo: porque então pagar 500 mil por semana, durante 20 anos?

Mas a opinião pública, envenenada pelo jornalismo delinquente da Globonews, passou a repetir a tolice, repetindo nas redes sociais informações nitidamente mentirosas.


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Em tempo: por que a Polícia Federal suspendeu a emissão de passaportes no dia seguinte ao pronunciamento de Temer? Aviso que não acredito em coincidências e acasos. Algo há.

domingo, 25 de junho de 2017

Entre o errado e o certo, o Brasil, em geral, escolhe a primeira opção


Tudo parece estar errado no Brasil. Hoje, 25 de junho de 2017, todos os brasileiros sabem dessa singela e cruel verdade. Muitos a aprenderam na própria carne; outros, em exemplos narrados por conhecidos e amigos; a maioria, contudo, percebeu que o Brasil é não só um país tangido por erros e equívocos – como respira e vive dos seus erros e equívocos, e agora também de patranhas e desonestidades diversas, entre as quais a desonestidade intelectual.

Uma mulher, mãe de uma criança de três anos, matou o sujeito que estuprou sua filha. Foi condenada a 30 anos – vi a notícia, mas não li uma declaração pública das organizações e astros que se apresentam como defensores dos direitos humanos, dos direitos das crianças e dos direitos à vida. Certo, nós sabemos – embora poucos tenham coragem de verbalizar – que tais organizações, astros e estrelas e deputados são oportunistas, que agem e falam quando a ação e o discurso podem atender os seus interesses. Outro dia, a deputada Benedita da Silva brindou a todos nós com uma frase em que juntou três elementos, que nem sempre andam juntos: ação política, a Bíblia (que ela disse ser a “minha Bíblia”) e – pasmem! – “derramamento de sangue” (que ela afirmou ser instrumento da ação política). Se fosse o Bolsonaro que dissesse tal estupidez, certamente o senadorzinho Randolfe Rodrigues e os deputados Molon, Valente e Maria do Rosário, entrariam com requerimento a clamar a cassação do deputado por falta de “decoro parlamentar” e “incitação à violência”. Bem, eu, de minha parte, entraria com um pedido de exame psicoteste, pois a frase da Benedita da Silva é prova inequívoca de que ela sofre de grave crise ou estado de loucura.

Agora, tomamos conhecimento de que o médico Roger Abdelmassih, condenado a 181 anos de prisão por abusar sexualmente de pacientes em sua clínica de reprodução humana, e Anna Carolina Jatobá Nardoni, condenada a 26 anos e oito meses de prisão por ter jogado a menina Isabella, com apenas cinco anos de idade, do 6º andar do apartamento onde passava os fins de semana com a madrasta e o pai, Alexandre Nardoni, também condenado a 31 anos e um mês de reclusão, estão em vias de obter progressão ao regime semiaberto. Há quem defenda a inocência dos três, mas não é esta a discussão. O que se discute é a facilitação de transformar cadeia fechada em uso de tornozeleira no bem-bom de suas casas. Não esquecer, também, das facilitações obtidas pelas esposas de Sérgio Cabral e do marqueteiro do PT, que confessaram os crimes de que são acusadas.

Outro absurdo ocorreu recentemente: a ampla delação (premiada) dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Ora, é certo que o Procurador-Geral Janot tem a prerrogativa de negociar e fechar os termos da delação. Mas os prêmios obtidos pelos Batistas foi um maná, embora os “cujos” tenham feito uma delação infame, que, levada em conta, dariam a eles uma pena entre 250 e 1200 anos de reclusão. Afinal, os sujeitos confessaram cerca de 300 crimes, um dos quais envolvendo o presidente da República e a sinistra informação de que corrompeu mais de mil e oitocentas pessoas. Os Batistas chegaram a afirmar que os 500 mil pilhados numa mala eram parte de um contrato de 20 anos (vinte anos!) de pagamento semanal ao presidente Temer. Bolas! – como diria o meu avô, uma “semanada” de 500 mil chegaria, no final, a uma soma inacreditável de 520 bilhões! Bolas! – 520 bilhões (quando o que resta de mandato ao Temer, a partir de hoje, é de apenas, um ano e três meses). É uma acusação falsa, instrumentalizada e mentirosa, como foi a gravação do papo entre Joesley e Temer. Acusação e gravação que o Globonews, mediante um jornalismo delinquente, que não visa a informar corretamente, mas atender interesses golpistas evidentes.

O Brasil é um país temerário, desigual, onde o povo é tratado como animal de carga – e parte da intelectualidade, do jornalismo, dos políticos se sente reconfortado exercendo papéis de canalhas e de covardes.

Em tempo: semana passada, intelectuais e jornalistas investiram contra o prefeito Crivela, do Rio de Janeiro, vetou um aumento de 50% das verbas das escolas de samba concedido pelo prefeito Eduardo Paes nos estertores da sua administração. Eu faria o mesmo – já que o prefeito preferiu usar os recursos em creches de alunos pobres. Muitos artistas também protestaram, mas isso era esperado: fazem parte daquela firmação de “destaques”, que, a cada ano, faturam ao dar relevo “à lídima manifestação da cultura carioca”. Certo, mas façam isso de graça!

sábado, 17 de junho de 2017

A palavra de um canalha


Ainda não li, mas vou ler a entrevista de Joesley Batista à Época. Quero dizer, de início, que considero os irmãos Batista dois refinados canalhas, que estão se aproveitando dos holofotes que Dr. Janot lançou sobre eles para faturar bilhões e jogar lama no ventilador. Época pertence ao conglomerado Globo, que vem se dedicando, nas últimas semanas, à missão de levar Temer à renúncia, mesmo que isso venha a contribuir para o completo atolamento do Brasil.

A política brasileira tornou-se, hoje, um caldo grosso de patifarias, vilanias, mentiras, deduragem e delinquência. Um canalha diz uma coisa, mesmo que absurda, e cabe ao acusado provar que o que foi dito a seu respeito não é verdade. Joesley e Wesley Batista vão ao pináculo da canalhice cúmplice, pois confessam crimes e são anistiados, reconhecem que corromperam e são tratados como dignos patriotas, cospem no rosto da nação e são tratados como vítimas. Os viventes e as gerações futuras estão diante de uma farsa estúpida, de um golpe miserável, orquestrado por uma parte da mídia delinquente e irresponsável.

Não votei no Temer, não votaria no Temer – e não sei se as reformas propostas por Temer vão ou não salvar o Brasil ou se elas servem à sociedade brasileira. Já disse aqui: o Velhote do Penedo defende reformas e o que está em jogo é precisamente isto: há interesses claros contra as reformas e, mais ainda, contra a Lavajato. Como ninguém vai assumir papel contrário às reformas e à operação Lavajato, pelo menos de forma clara, tumultua-se a vida política brasileira para ver que bicho vai dar.

Repito: não defendo o Temer – e reconheço seus pecados e insuficiências. Contudo, como leitor de livros policiais, acho no mínimo estranho que a cada semana surja um burburinho envolvendo o presidente – e poucos se perguntem se isto é, no mínimo, estranho ou suspeito. A cada semana, uma acusação. Semana retrasada, a gravação da conversa entre Temer e Wesley; semana passada, a história da ABIN; agora, a entrevista de Joesley. Em “Doze homens e uma sentença” (12 angry men), de Sidney Lumet, o personagem Davis (vivido por Henry Fonda) desconfia dos argumentos da promotoria, que acusava um rapaz de ter assassinado o próprio pai, e diz: “Tudo certo, tudo muito certo e encaixado. Nada é tão certo assim”. O filme é uma obra-prima. Quem não o viu, veja - ou não vai para o céu.

Não vi uma prova concreta do que afirmam os irmãos trombadinhas – e quando ela apareceu, veio na forma de uma gravação truncada, manipulada, inaudível.  Eu soube apenas das falcatruas que permitiram que eles pulassem, em tempo recorde, de pobretões (em Anápolis) a biliardários (em Nova York).

Não sei como gente honesta e inteligente, que o Velhote respeita, aceitou tão passivamente e de pronto o que os Batista falaram. Mesmo que Temer fosse o bandido que os Batista descrevem – eu não aceitaria, por princípio, uma delação do Fernandinho Beira Mar contra o Marcola. E muito menos anistiaria o primeiro por isso.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A verdadeira desgraça da política brasileira


A cada dia que passa, é patente que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sofre de certa confusão mental que o leva a dizer uma coisa pela manhã, outra à tarde, que modifica à noite. Três palpites por dia, uma diferente da outra, sobre o mesmo assunto. Inegavelmente, FHC é um sujeito equipado intelectualmente, com grande tarimba política – não só resultado da sua experiência vivida como do que pôde assimilar, ao longo dos anos, ao conviver com gente da estirpe política de Tancredo Neves, Franco Montoro, Ulisses Guimarães, por aí.

Bem verdade que o PSDB parece barata tonta diante dos episódios da política brasileira – não sabe se é ou não, se fica ou não, se vai ou não, se apoia ou não. Em minha opinião, cada vez que FHC fala ou escreve o transtorno político do PSDB se amplia. É um partido-pião – gira, gira, gira e não sai do lugar.

Esta é a verdadeira desgraça da política brasileira. Temos carência de políticos capazes de compreender o momento - e, dele, retirar soluções em meio ao nevoeiro da crise. Um país, mormente um país como o Brasil, não sobrevive em meio a uma crise política que se alimenta, a cada dia, de palpites, boatos, oportunismos, informações deliberadamente tortas, intolerância, covardias, ódios recíprocos. Aparentemente, ninguém está preocupado com os 14 milhões de desempregados, 10 milhões de subempregados, dos jovens que perderam a esperança e investem sua vida na criminalidade, nos 52% da população sem infraestrutura sanitária, nos hospitais aos pandarecos, na educação falida. Nada disso parece preocupar políticos, imprensa, redes sociais. Todos estão interessados em dar exibições explícitas de ódio sob o disfarce de luta político-ideológica. Estamos afundando em meio a uma tempestade – e muitos supõem que estamos voando em céu de brigadeiro. A inconsciência e a alienação são apanágios do brasileiro.

Não sei se as reformas propostas por Temer são essenciais, mas acredito que sem reformas (política, judiciária, da previdência, trabalhista, urbana, entre outras) o Brasil não deslancha. Percebam que não estou defendendo as reformas de Temer – e, sim, reformas. O Brasil vestiu uma espécie de armadura de ferro – mas ela, hoje, impede o crescimento. O Brasil não pode viver eternamente como uma sardinha na lata. Precisa de espaço, de ar, de novas ideias e propostas.

Volto, para concluir, ao ex-presidente FHC. Penso que ele poderia dar enorme contribuição ao apaziguamento da crise brasileira, mas a verdade é que me parece que ele se recusa a fazer isso. Prefere dar entrevistas e escrever artigos que mais confundem os parvos (entre os quais me incluo). Afinal, de que lado está FHC? Do lado do agravamento (ou, vá lá, da perenização) da crise ou da cura da inflamação, que nos impede sair do buraco?

O Velhote do Penedo não é um esperançoso, mas acredita que os políticos e os intelectuais deviam ter vergonha na cara – e pensar naquela metade da população brasileira que está fora dos benefícios da civilização.

sábado, 3 de junho de 2017

Delação premiada, tortura y otras cositas más!


Vou escrever hoje sobre a delação premiada.

De início, devo dizer que toda delação é premiada. Quem delata sempre visa a ganhar alguma coisa. A expressão “delação premiada” é redundância. E mais: delação é delação – ou seja, é dedurismo, como dizíamos na ditadura. Na Bíblia, Judas foi um dedo-duro, tal como foram, na história brasileira, Calabar e Joaquim Silvério dos Reis. Na minha adolescência, quando estudava no Colégio Sousa Aguiar, peguei três dias de suspensão, dada pelo vice-diretor, Sylvio Guadagny, porque não entreguei os dois colegas que tinham desenhado uma mulher de pernas abertas na parede do banheiro da escola. Como eu me recusei a denunciar, fui punido. Se eu denunciasse, não seria suspenso: era o meu prêmio.

Reitero delação é caguetagem (como se dizia nos anos 1950) – e toda caguetagem é premiada. Quando a mãe, com o chinelo na mão, pergunta a um dos filhos quem fez a travessura, o menino, ao apontar o irmão (“Foi ele!”), está fazendo uma delação premiada, pois ao delatar o irmão, o menino receberá da mãe um prêmio: não levará nenhuma chinelada, todas reservadas ao delatado. O Velhote do Penedo prefere morrer a denunciar alguém. Mas o Velhote é do passado, pois hoje a delação é valorizada.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, acredita piamente nas delações e no princípio aético de que “os fins justificam os meios”. Ou seja: no princípio usado pela mãe que pede ao filho que denuncie o irmão – o que livrará o dedo-duro das chineladas.

No acordo de delação premiada negociado com Joesley e Wesley Batista, Janot inovou, ou seja, foi muito além: deu aos delatores bônus, vantagens e prêmios enormes. Se Janot fosse a mamãe do exemplo acima, ela depois de “chinelar” o denunciado, daria sorvete, bolo e refrigerante ao denunciante. Janot tem um senso de justiça, no mínimo, estranho.

Em artigo publicado no UOL, o procurador-geral, o estranho Janot, justifica o acordo com os Batistas ao afirmar que o fez porque tinha “certeza de que o sistema de justiça criminal jamais chegaria a todos esses fatos pelos caminhos convencionais de investigação”. O que serão “caminhos convencionais de investigação”? O que serão, por outro lado, “caminhos não convencionais de investigação” – caminhos aparentemente seguidos por Janot? Tortura seria um método não convencional de investigação?

Tudo leva a crer que, para Janot, vale tudo - desde que os objetivos colimados sejam atingidos. Janot confessou ser partidário do emprego de meios não convencionais no sistema de justiça criminal. Trata-se de uma convicção que nos faz lembrar o general Nilton Cruz.

Não sei, mas ao ler o artigo do Janot lembrei-me de uma frase torpe do ditador Geisel a respeito da tortura: “Acho que a tortura em certos casos torna-se necessária para obter confissões”. Inacreditável, não? Geisel declarou tal monstruosidade no livro-depoimento organizado por Maria Celina D’Araújo e Celso Castro. Tortura é, segundo a pedra filosofal de Janot, “um caminho não convencional de investigação”?

Peço agora aos meus amigos que releiam o que foi escrito até aqui. E façam um paralelo entre a mamãe (do meu exemplo), o Janot (e seu estranho senso de justiça) e o comentário do ditador Geisel sobre a tortura. Algo une os fatos: a ideia funesta de que os fins justificam os meios.

Termino essa postagem dizendo três coisas:

1 – Se alguém discorda do que eu escrevi, não perca tempo fazendo comentário. Não vou polemizar.

2 – Considero a delação premiada uma coisa útil, mas ela se confunde com a deduragem, muito em voga no tempo da deduragem. Bandidos estão se safando mediante delações premiadas, muitas das quais não passam de lama jogada no ventilador.

3 – Um dia, cruzei no Congresso com o Valdo Cruz e a Sadi, ambos da Globonews. Disse a eles apenas uma coisa: delatado não é réu. A Rede Globo tem o hábito, através da delinquência jornalística, de misturar tudo, de modo a não informar corretamente – ou informar de acordo com objetivos inconfessáveis.

domingo, 21 de maio de 2017

Não se brinca com fogo!


Suspeito, no mínimo, foi o acordo de delação premiada dos irmãos Joesley e Wesley Batista com a Procuradoria-Geral da República.

A JBS mamou do BNDES cerca de onze bilhões de reais em séries contínuas de operações, que os auditores do Tribunal de Contas da União definiram como prejudiciais ao banco estatal. O acordo firmado entre os Batistas e a PGR implicava no pagamento pela JBS de uma multa irrisória: 225 milhões de reais, única – única! – penalidade que os irmãos sofreram. Vejam bem: eles não foram presos, sequer passaram a usar tornozeleiras eletrônicas, podiam continuar residindo nos Estados Unidos, onde, por sinal, se encontram. “Um golpe de mestre”, disse um auditor do TCU segundo a repórter Consuelo Dieguez, da revista Piauí. A multa acordada pelos irmãos Batista com a PGR representa míseros 2% da grana que os manos tinham – como se dizia nos anos 1950 - abiscoitado em transações (suspeitas) com o BNDES.

Esta semana novos fatos surgiram envolvendo os irmãos Batista, mais especificamente o Joesley. Entre tais fatos, o pior de todos, foi a bomba que Joesley plantou no colo do presidente Temer. Joesley teria gravado um diálogo com Temer, no qual o presidente avalizava uma ação de obstrução da justiça, mediante a compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. Tal informação foi estampada no O Globo, na coluna do jornalista Lauro Jardim, e espalhou-se pela mídia e pelas redes sociais como fogo em capim seco. Falou-se em renúncia do presidente – ao mesmo tempo em que um deputado oportunista apresentou um pedido de impeachment do presidente. Interessante: o referido deputado já tinha o pedido pronto, como se já soubesse o que iria acontecer. Na revista Piauí, a advogada Janaína Paschoal informou que levou dias elaborando o pedido de impeachment da Dilma; o deputado Molon levou minutos. Um gênio?

Criado o furdúncio, com a Rede Globo martelando a cada instante o episódio, sugerindo, como se isso fosse o papel de jornalistas honestos, a renúncia do presidente, e especulando irresponsavelmente as consequências políticas de tudo aquilo – eis que a gravação da conversa entre Joesley e Temer surge, com o objetivo de, enfim, sacramentar o que todos diziam. Contudo, logo fica patente que a fita tinha mais de 50 falsificações e, pior, não mostrava nenhum comentário do presidente que sugerisse ou cheirasse à obstrução de justiça. A Rede Globo, nessa altura, não tinha (nem tem) como recuar: manteve o lero-lero, indiferente ao desmoronamento da tramoia. Os jornais O Estado de São Paulo e Folha de S. Paulo, bem a Rede Bandeirantes, caminharam no sentido oposto. O Jornal da Band, inclusive, chegou a fazer uma comparação com o que diziam os jornais da Rede Globo com os fatos reais.

As coisas, porém, não ficaram só nisso. O furdúncio ocorreu no dia 18/05 – o abalo político refletiu-se na bolsa, no valor do dólar e na saída de recursos do país. Fala-se que o prejuízo do país foi da ordem de 300 bilhões. O dólar teve uma subida recorde, a maior dos últimos 20 anos. Ocorre que, na véspera, o país em calma, o dólar baixo, a JBS comprou um montão de dólares, ganhando, pelo que se sabe até agora, cerca de um bilhão de reais com a alta do dia seguinte! Ou seja: três vezes o valor da multa que a JBS foi obrigada a pagar à PGR. Agora, fala-se que os órgãos públicos que cuidam desses assuntos irão investigar a operação. E isto, gente, sem que o STF e a PGR dissesse nada.

Os jornais de hoje (domingo, 21/05) mostram três notícias que merecem atenção. Um deles informa que o ministro Fachin irá pedir perícia da gravação da conversa entre Joesley e Temer. Agora, é? O que Fachin precisa explicar é como e porque ele aceitou a gravação de uma conversa do presidente da República que o STF não autorizou. Outro jornal nos diz que “peritos da Polícia Federal disseram que anexar áudio sem perícia é inaceitável”. Por fim, o esclarecimento de que a JBS (leia-se Joesley) teve “aula de delação 15 dias antes de gravar a conversa com presidente Temer”.

Estou certo de duas coisas: armou-se uma grande tramoia contra Temer (não uso a palavra golpe porque o PT e o PCdoB a desmoralizou); outras sujeiras vão aparecer nos próximos dias desnudando a tramoia.

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Em tempo:

Um amigo meu iniciou uma discussão comigo completamente fora do contexto. Ele atacou o presidente Temer, defendendo sua renúncia, por causa das reformas, sobretudo a previdenciária, que segundo ele não teve a devida transparência. Bem, eu não estou defendendo o Temer, nem defendendo suas reformas; estou denunciando a tramoia e os seus efeitos sobre a vida de 14 milhões de desempregados e 10 milhões de subempregados. Por outro lado, discordo que as discussões sobre as reformas não foram claras. A reforma da previdência encontra-se na Internet, o relatório aprovado pela comissão idem, houve várias audiências públicas, jornais e revistas publicaram matérias, os partidos políticos e as ONGs fizeram discussões. Há quem defenda a reforma, há quem não defenda. Repito: sou contra o golpe/tramoia – e sobre todas as incertezas que a sua consumação pode trazer ao país. A vida me ensinou que não se brinca com fogo.

sábado, 20 de maio de 2017

País de vermes


Assisti trechos da delação de mafioso Joesley. Não tive estômago para assistir até o fim. Desliguei a TV me perguntando: por que esse cara não está preso? Como um sujeito como esse Joesley, notório salafrário, fez a lambança e mandou-se para Nova York, onde deve estar dando gargalhadas – de todos nós, que vamos arder da fogueira que ele armou com a cumplicidade de muitos.

Não me venha falar em acordos, tratativas, leniência, delação premiada. O que há por trás de tudo isso é uma tremenda farsa, uma tramoia – e, sempre que há farsas e tramoias políticas, traições e covardias sob os mais variados modos e justificativas. Não vou tratar disso agora, mas traidor foi Roberto Freire, que largou deslealmente o seu chefe, pouco interessado em saber o que havia, de fato, acontecido. Na fatídica reunião ministerial da madrugada de 24 de agosto de 1954, muitos ministros abandonaram Getúlio Vargas, largando-o à própria sorte. Pois Roberto Freire, como tantos ministros daquela época, desnudou deslealdade, covardia e oportunismo. Espero que outros políticos do PPS, entre os quais o meu amigo Cristovam Buarque, não sigam os passos do desleal Roberto Freire.

Sabemos hoje que na maré do turbilhão, a JBS ganhou mais de um bilhão na venda dos dólares que comprara um dia antes. Sabemos, também, que a gravação do diálogo entre Temer e Joesley foi forjado, frases foram truncadas, ruídos foram acrescentados. Janot e Fachin estranhamente aceitaram de pronto a gravação, que, inclusive, não tinha sido autorizada pelo STF – logo seria ilegal e não poderia ser incorporada aos autos. Há quem diga que o presidente Temer não deveria ter recebido Joesley e não devia ter ouvido o que Joesley disse: mas será que Temer ouviu mesmo as frases ditas por Joesley? As frases são foram acrescentadas depois na gravação forjada? Li, não lembro onde, uma frase que diz mais ou menos o seguinte: não se pode obter nenhum benefício a partir da própria torpeza. Joesley foi torpe – e mereceu da justiça brasileira o benefício de sair do Brasil e se instalar num hotel de luxo em Nova York.

O que se pretende com todo esse turbilhão? Não parece haver dúvida que Joesley fez o que fez cumprindo ordens. Em troca ganhou alguns benefícios – em espécie e em vantagens jurisdicionais.

O Brasil parou, as reformas foram para o espaço e as possibilidades, mesmo remotas, de melhoria das condições de vida do povo brasileiro derreteram.

Quando disse que não renunciava, Temer mostrou uma coragem e uma firmeza raras na política brasileira. Muitos, no lugar dele, iriam embora cuidar da própria vida – e assistir de camarote o Brasil seguir a sua sina de atraso. Como disse certa vez o jornalista Cláudio Abramo: somos um país de vermes.