sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O STF é uma vergonha


Os membros da Suprema Corte dos Estados Unidos mantêm, até por tradição e história, um distanciamento formal das questões políticas. Ao contrário do que acontece no Brasil, eles não legislam através de decisões jurídicas, eles não se expõem diante de auditórios, não dão entrevistas, não questionam decisões do executivo e do legislativa. Não lutam por aumentos de salários: afinal, não são sindicalistas da causa própria. Ninguém ouve falar dos membros da Suprema Corte dos EUA, que mantêm discrição e recato. Fazem apenas o que a Constituição pede e exige. A Constituição dos Estados Unidos é curta, possui apenas sete artigos, cada um deles divididos em Seções. Não é como a Constituição brasileira, que regulamenta, inclusive, a doação de sangue.
No Brasil, grande parte dos ministros do STF sofrem de compulsão expositiva: diante de um microfone sentem-se no direito de falar e emitir juízos sobre todos os assuntos, indo além de suas atribuições e intrometendo-se, inclusive nas esferas de atuação dos demais poderes. Sentem-se como reizinhos e, como tal, desprezam o povo.
Agora mesmo, o ministro Lewandowski vê-se no centro de um arranca-rabo com o advogado Cristiano Caiado Acioli, cujo crime foi o de, num voo entre São Paulo e Brasília, falar o que todos sabemos: “o STF é uma vergonha”. O advogado dirigiu-se educadamente ao ministro, que, por sua vez deu-lhe voz de prisão. Lewandowski justificou sua injustificável atitude da seguinte forma: “Presenciei uma injúria ao Supremo, e, como membro da Corte, entendi que tinha o dever de proteger a instituição e contatar a autoridade policial, para que, se ocorreu algum descumprimento da lei, haja responsabilização”.
Pois é. Um ministro que solta o José Dirceu, que autoriza que um preso comum, Lula, dê uma entrevista política, que desobedece a constituição e permite que Dilma mantenha seus direitos políticos, que vota sempre em favor da organização criminosa que assaltou o poder e transformou o Estado numa espécie de charco, um ministro que tem o descaro de abonar a corrupção, sente-se injuriado quando um cidadão lhe diz que “o STF é uma vergonha”.
Diante disso, uma organização desmoralizada como a Ordem dos Advogados do Brasil se omite diante da truculência de Lewandowski. Um punhado de advogados, entre os quais os que manejam as leis em defesa dos criminosos da Lava Jato, lançam uma carta aprovando o ato de força do ministro. O Velhote do Penedo é de um tempo em que, na aplicação das leis, pontificavam Vitor Nunes Leal, Evandro Lins e Silva, Sobral Pinto, entre tantos outros, e, não, os morubixabas que saracoteiam nos tribunais, sempre em defesa do que há de pior na nossa sociedade e na vida política brasileira. Nunes Leal, Lins e Silva e Sobral viam nas leis um fim em si mesmo; o tartamudos, por outro lado, só pensam naquilo, no tilintar as trinta moedas.
O Supremo Tribunal Federal sofre uma poderosa crise de credibilidade. Poucos amigos meus falam do STF com respeito: o descrédito da instituição é um pesadelo num país onde roubar é uma virtude. Claro, há sempre as exceções, mas estas pouco podem fazer.
O advogado Cristiano Caiado Acioli falou pelo povo brasileiro: o STF é uma vergonha.  

sábado, 1 de dezembro de 2018

Das malas de um ditador


Um país como o nosso não merece um Supremo Tribunal Federal como esse que nós temos. Estou ouvindo agora o voto do decano, uma figura que a todo voto que proclama, destila o chamado falso saber, repleto de citações, no melhor estilo Marques de Maricá e Conselheiro Acácio. E a Weber? E o Lev? E o Totó? E o Gigi? E o Marquinho? O Brasil me exaure. Não preciso dizer mais nada. É preciso mudar de assunto, pois o STF é contaminante.
No dia 14 de setembro de 2018, em meio à campanha eleitoral no Brasil, esteve entre nós Teodorin Obiang, filho do ditador Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial. Em princípio, nada demais: o Brasil mantém relações diplomáticas e comerciais com o país africano - e Teodorin Obiang, além de laços de parentesco com o ditador, é também vice-presidente da Guiné Equatorial e será sucessor do pai. Durante os governos petistas, a Guiné foi país muito próximo ao Brasil, ao ponto de o presidente Lula ter servido de ponte entre empresas brasileiras e o ditador Obiang, do qual resultaram obras públicas, superfaturamentos e propinas. Mas isto é outra história.
Teodorin Obiang, ao desembarcar no Brasil, foi flagrado com duas malas altamente suspeitas: numa delas estavam guardados 1,4 milhões de dólares e na outra, vários relógios de luxo, cujo valor superavam os 500 mil dólares. As duas malas foram confiscadas – e Obiang permaneceu apenas dois dias no Brasil, pois tinha um compromisso em Singapura. Ninguém vai me convencer que o Rio de Janeiro era uma conexão entre Malabo (capital da Guiné) e Singapura. O ditador filho veio ao Brasil por algum motivo, certamente inconfessável.
A história toda, portanto, é bem estranha, suspeita e misteriosa, pois não se pode admitir que Obiang iria gastar aquele dinheirama todo em 48 horas. Como não se supõe que ele usaria tantos relógios em estada tão curta. Como ele viajava em avião particular não haveria razão para ele desembarcar com a dinheirama. Podia deixa-la no cofre da aeronave. Que dinheiro e relógios, enfim, eram aqueles?
Este será mais um mistério da história brasileira. Será? Li esta semana que o PT irá convocar seus militantes para cobrir os gastos de campanha de Haddad. Não sei a quanto atinge o buraco, mas como o candidato do PT deslocava-se pelo Brasil num jatinho alugado ele (o buraco) deve ser bem fundo.
Falei do ditador Obiang e suas misteriosas malas. Depois falei do rombo nas contas do PT. As duas histórias têm algo em comum?

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Amargas reflexões


Fazer política no Brasil é ter vocação suicida.
Sabemos que, ao longo do tempo, houve uma deterioração da vida política brasileira, ao ponto de Sarney ser definido como “inatacável” pelo Lula, que foi definido, em seguida, como “o grande líder da organização criminosa”, segundo as delações que correm por aí.
Artistas e intelectuais perderam a vergonha, e passaram a defender descaradamente bocas, boquinhas e grandes bocas – e a isto chamam de defesa de democracia e da cultura. Palavras como direita e esquerda não só perderam o sentido, como se mesclaram, produzindo um tipo de posicionamento político que aceita e convive com canalhices variadas. Impeachment de uma presidente incompetente, que nos conduziu a uma crise econômica de difícil solução, que desrespeitou a Constituição, ganha o nome de golpe, o que é, antes de tudo, uma leviandade sociológica e gramatical. Intelectuais e acadêmicos repetem a tolice como se estivessem recitando um dogma religioso.
Acadêmicos das áreas sociais, absolutamente estacionados no tempo, são incapazes de elaborar estudos que expliquem o Brasil. Gostam de repetir fórmulas superadas, conceitos inadaptados a um mundo tecnológico, no qual os meios eletrônicos de comunicação desempenham papéis nunca antes imaginado. Darcy Ribeiro nos deixou dois estudos importantes: “O povo brasileiro” e “O Brasil como problema”. Tais estudos, pioneiros e ousados, ficaram por aí: nenhum gênio brasileiro se interessou em aprofundá-los.  
Quando uma pobre adolescente é currada por um bando de desajustados e infelizes ou uma criança de três anos é violentada por seu padrasto, muitos se dão conta que a sociedade brasileira está enferma, muito enferma, pois já houve casos iguais, muitos, e tão escabrosos, em todo o território brasileiro. Claro, queremos que os delinquentes sejam punidos – e severamente. Quando digo severamente estou me candidatando ao bullying dos pretensos defensores dos recursos humanos – para quem criminosos, estupradores e assassinos são recuperáveis mediante bons conselhos.  
Mas os crimes, sejam os de colarinho branco, sejam os demais, continuarão a prosperar, pois ninguém, na verdade, se interessa em saber a origem de tudo isso. Somos um povo que adora o lugar comum, nunca a busca inteligente de explicações e saídas. Nenhuma universidade brasileira consta da lista das 200 melhores universidades do mundo. Pensamos pouco. É muito melhor repetir chavões e lugares comuns.
Somos um país que vive de fantasias, muitas sobre nós mesmos, que custam caro e penalizam os mais pobres. Todos sabiam que a Copa do Mundo e as Olimpíadas, por exemplo, iriam nos custar o olho da cara, iriam permitir desvios e superfaturamentos e nos tornar donos de imensos “elefantes brancos”. Todos sabiam, mas todos acharam e acham “bacana” sermos anfitriões de jogos que nos custaram (e custam) um mundo de grana. Os milhões de desempregados, os infectados por mosquitos vagabundos, os analfabetos absolutos ou funcionais não entraram nas nossas cogitações.
Somos todos culpados, sobretudo aqueles que se sentem portadores de verdades históricas irremovíveis, próprias do século XIX. Enquanto alguns ficam gritando contra o suposto “golpe” que apeou do poder um governo apodrecido e inepto, 12 milhões de brasileiros estão desempregados, 60 milhões são inadimplentes, milhares estão fora da escola, pois as escolas são ficções educacionais, ruins e superadas, os hospitais públicos assemelham-se a pardieiros ou a campos de concentração, onde pessoas morrem nos corredores ou na fila de espera. 44% da população do Brasil não lê; 30% nunca comprou na vida um livro sequer; 74% não adquiriu um livro nos últimos três meses. Livrarias estão fechando, mas poucos são os que se incomodam com isso: preferem shoppings. Enquanto isso, a filha de Luiza Trajano, dona da rede de lojas Magazine Luzia, recebeu meio milhão, via Lei Rouanet, para fazer um livro de receita. Maria Betânia recebeu um milhão e meio para fazer um espetáculo em que recitava poemas. O projeto “Shows de Cláudio Leite” papou 5,8 milhões e a “Turnê de Luan Santana”, 4,1 milhões. Até casamentos receberam recursos da lei. Quando o novo governo diz que vai rever os mecanismos da Lei Rouanet, pilantras saem a campo afirmando que a cultura está ameaçada. Alguma coisa realmente está errada no país do futuro, que atolou no presente – e dele não quer sair.
Somos um povo que convivemos com a miséria, a estupidez, a ignorância e a violência, achando que temos só direitos, nenhuma obrigação ou dever ou responsabilidade. Herdamos e cultivamos ódios, ressentimentos, ressaibos, lutas sem sentido, preconceitos e adoramos repetir trivialidades. Somos um povo generalizadamente desinformado, mas gostamos de palpitar sobre tudo. Li, há tempos, um artigo de José Sarney na Folha de S. Paulo, em que ele, do alto de sua sabedoria, condenava – vejam! - a corrupção. Certa vez, vi, na TV, uma jogadora de basquete palpitando sobre tráfego aéreo. Não desejamos qualidade, mas quantidade. Não acreditamos no mérito, mas no jeitinho. Não gostamos de cumprir papéis, mas de ver gente fazendo o que deveríamos estar fazendo. Não desejamos o saber nem o conhecimento, mas o lugar comum, o clichê. Não amamos virtudes – e, sim, o nepotismo, o fisiologismo e a canalhice, inclusive o nepotismo, o fisiologismo e a canalhice disfarçados.
A maioria do povo brasileiro não vive, mas, como disse Cláudio Abramo, sobrenada.
Com estas amargas reflexões, encerro por hoje. A vida brasileira é repetitiva, mas como escreveu Dias Gomes numa peça famosa, “no passado, pelo menos éramos campeões do mundo!” Hoje, estamos condenados ao 7 x 1 do Felipão e às prédicas tolas do Tite.

sábado, 3 de novembro de 2018

Bobageira não é sinônimo de oposição


Não vou aceitar que o PT – nem ninguém - paute a minha oposição ao governo Bolsonaro.
É essencial que as esquerdas reconstruam um consistente projeto, sem as taras que o PT plantou no cenário político do país. O PT provou nos seus 13 anos de governo que não é um partido de esquerda, muito menos capacitado a administrar o país. É um partido retórico, arrogante, incapaz de levar vida democrática e aceitar que outros pensem de modo diverso. O PT é um partido autoritário. O seu grande líder, o comissário Lula, está preso devido bandalheiras que patrocinou e usufruiu. Vai cumprir 12 anos - e alguns outros mais, que a justiça logo definirá ao julgar seus outros processos.
A escolha do juiz Moro causou certo reboliço nas hostes petistas – e com razão. Moro, na ministério da Justiça, aprofundará a luta contra a corrupção e irá fundo na luta contra o crime organizado. Isto é intolerável para o PT e asseclas, que desejam viver num mundo de impunidades. Esta é a origem da ânsia petista pela soltura do Lula. Impunidade: seu nome é Lula livre.
Vi o ex-deputado José Eduardo Cardoso, aquele pífio e medíocre advogado da ex-presidente Dilma, dizer que a ida de Moro para um cargo executivo é inédita e depõe contra a justiça. Muitos petistas repetiram a bobagem, o que demonstra um desconhecimento compacto e generalizado da história brasileira. Nelson Jobim foi ministro do STF e, depois, ministro da Defesa. Célio Borja foi do STF e, em seguida, ministro da Justiça. No Império, Eusébio de Queiróz foi juiz e, depois, ministro da Justiça, autor da lei que reprimia o tráfico de escravos. O exemplo mais emblemático foi o de José Francisco Rezek, que pediu exoneração em 1990 (tinha sido nomeado em 1989) do cargo de ministro do STF e foi ser ministro das Relações Exteriores, onde permaneceu até 1992. Muitos ministros se transformaram em juízes, inclusive da suprema corte. Mudanças de lado a lado é comum no Brasil.
Até agora, confesso docemente constrangido, os nomes indicados por Bolsonaro me agradaram. E tem mais: queiramos ou não, Bolsonaro foi eleito e pode escolher quem ele quiser para compor o seu ministro.
Sou favorável à fusão dos ministérios da Educação e Cultura. Não há constrangimento alguma nessa providência: leiam os livros “Tempos de Capanema” (Simon Schwartzman, e outros, Paz e Terra) e “Gustavo Capanema” (Murilo Badaró, Nova Fronteira). Gustavo Capanema foi um dos grandes ministros da Educação e da Cultura. Seu chefe de gabinete era Carlos Drummond de Andrade. Criou o Serviço Nacional do Teatro e o Instituto Nacional do Livro, entre muitos outros órgãos ligados às duas áreas. Digo isto porque desejo reafirmar que não há incompatibilidade entre educação e cultura, que podem formar um único ministério.
Não votei no Bolsonaro e nem no Haddad. Aliás, nem fui lá: fiquei em casa lendo “A ilha de Sacalina: notas de viagem” (Anton Tchékhon, Todavia). Mas eu sabia que Bolsonaro seria eleito. Não perdi, nem vou perder o sono por isso. Nem acho que a democracia corre perigo.
Por fim, oposição não é baderna nem besteirol, muito menos essa tolice a que chamam de “resistência”. É preciso que ela tenha conteúdo e objetivos consistentes, sendo um deles, sem dúvida, a montagem de um projeto de esquerda, pluripartidário, democrático, que permita a convivência dos contrários e a liberte das taras e da corrupção. Concluo: não vou ser pautado pelo PT e muito menos por gente como a Gleisi, o Lindenberg, Boulos et caterva.
Meu único consultor é o Velhote do Penedo. Mesmo assim, ele às vezes me enche o saco.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Oposição - e agora?


Bolsonaro é o novo presidente da República. 58 milhões de brasileiros o escolheram. Não vou discutir nem especular sobre o futuro governo. É cedo. Como a campanha é coisa passada, é hora de esfriar a cabeça. De uma coisa estou certo: a democracia não corre nenhum perigo, mas os problemas acumulados do país continuam presentes.
Creio que, agora, é importante começar a discutir a futura oposição ao governo Bolsonaro. Conversei com um amigo petista, que foi peremptório: “vamos invadir terras, prédios, bater muito no Congresso, vamos fazer manifestações, ocupações, vamos pôr o povo na rua”. E concluiu: “temos que aguçar a luta de classes”. Gleisi e Boulos falaram a mesma coisa.
Meu amigo, Gleisi e Boulos não têm poderes para decidir nada, embora os dois últimos sejam dirigentes do PT e do Psol. Todos têm uma visão equivocada de luta de classes e não compreendem que a oposição a Bolsonaro tem que ser, no mínimo, inteligente (e não raivosa ou estúpida), inclusive porque muito mais que oposição a um governo, a tarefa essencial e imediata é a reconstrução da esquerda brasileira. Afinal, quem perdeu as eleições não foi Haddad nem o PT ou o Psol: quem perdeu foi a esquerda, ou seja, todos - partidos e indivíduos - que ainda creem no ideal socialista. A derrota da esquerda não foi apenas eleitoral: foi uma derrota teórica, tática e estratégica. Uma derrota profunda. Uma derrota quase mortal.
No Brasil, a esquerda vem batendo cabeça há anos. Há uma diferença essencial entre o esfarelamento do Partido dos Trabalhadores e a crise da esquerda. O PT foi vítima da sua inépcia e incapacidade de governar o país e da gula excessiva dos seus principais quadros, que viram no governo uma espécie de caixa rápida, onde bastava apertar o botão e recolher a grana. Em treze anos de governo, o PT transformou-se num caso de polícia. E arrastou, com ele, a ideia de esquerda, que passou a ser vista pelos brasileiros como sinônimo de bandalheira e caos administrativo. Os equívocos dos governos petistas produziram 13 milhões de desempregados e quase faliu a Petrobrás.
O ideal socialista foi aprisionado, no Brasil, por gente sem escrúpulos, que repete, há anos, um discurso velho, caquético, inatual. Bem verdade que temos gente como Ruy Fausto que através de artigos, ensaios e, especialmente, do livro “Caminhos da esquerda: elementos para uma reconstrução” (Companhia da Letras, 2017) procura estimular debates com todos aqueles que buscam uma saída para a esquerda. Fausto sabe o que falar e sabe a quem se dirigir. Tanto que alertou na abertura do livro para dois pontos essenciais: primeiro, o projeto de esquerda misturou-se aos mais descarados populismos; é essencial que a esquerda se dissocie da sua sombra vulgar, representado pelo discurso petista. Segundo, a reconstrução da esquerda deve começar pelo reconhecimento de que o atual projeto de esquerda brasileiro nada tem a ver com o que ele representou na origem – daí a necessidade de sua reestruturação.
O primeiro ponto atinge diretamente o PT, que não é partido de esquerda, mas desde sua fundação assumiu essa (falsa) identidade. O PT precisa ser alijado de um eventual projeto de esquerda, inclusive devido aos danos que causa e causou ao tempo em que esteve no governo. Não se nega que haja no PT bons quadros, que defendem posições corretas. Mas estes são minoria – e não apitam diante dos flibusteiros que dominam a máquina partidária.
O segundo ponto defende uma ampla e profunda revisão dos meios e modos que a esquerda adotou nos últimos tempos – e dos quais não soube, não quis e, parece, não quer se livrar. A esquerda viveu enormes vicissitudes, que marcaram a ferro e fogo a sua trajetória mundial. No Brasil, o projeto de esquerda foi sempre conduzido por partidos burocratizados e totalitários.
É preciso, portanto, esfriar a cabeça. Não se trata de aceitar o governo Bolsonaro como fato consumado. Trata-se de responder a pergunta: e agora?
O que eu vejo e leio aqui no Facebook me produz depressão. Vi, inclusive, um amigo meu, professor universitário, marxista-leninista, falar em Satanás, demônio e outras tolices em relação ao futuro presidente. Se a oposição ao Bolsonaro for assim, eu desisto. Vou criar galinhas.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Somos todos democratas


François Villon é um dos grandes poetas franceses da Idade Média. Era um marginal: ladrão, boêmio, beberrão. Por uma rivalidade amorosa, feriu mortalmente um sacerdote e foi obrigado fugir de Paris. Escrevia em francês arcaico e cometia erros de ortografia que eram atribuídos aos seus parcos estudos.
Quem me apresentou ao poeta Villon foi Otto Maria Carpeaux, em artigo que escreveu para mim, que o publiquei numa precária revistinha universitária. Um dos poemas de Villon (“Ballade”) me parece ser uma definição bem precisa do PT. Cito, tal como ele escreveu: “Je congnois tout, fors que moy mesmes” (“Conheço tudo, exceto a mim próprio”).
É verdade. O PT não se conhece, mas tem uma visão generosa de si mesmo. Brizola, que não conhecia Villon, dizia que o PT e Lula eram arrogantes, cuja ideia que tinham de si mesmos impediam que eles vissem corretamente a realidade.
Mas não só sobre isso que eu quero falar. Na minha (longa) vida nunca vi tanto democrata como vejo hoje. Folgo em saber que somos uma pátria que cativa o mais importante bem humano: a liberdade. A turma da Globonews, por exemplo, é toda ela democrata. Democracia é informação correta; por outro lado, informação dúbia, truncada ou propositalmente errada não é democracia: é ditadura midiática. Só que a turma da Globonews não acha isso. É uma turma que prefere a dubiedade à clareza, a truncagem à correção, o erro ao acerto. Mas são todos democratas.
O PT é, hoje, o partido mais democrata do Brasil. Não apoia governos criminosos como os de Maduro, do Ortega e as variadas autocracias e bárbaras ditaduras africanas. O PT é o partido mais interessado em descobrir quem são os assassinos do Celso Daniel, do Toninho do PT, do Roberto do PT (ex-prefeito de Ourolândia, Bahia, que havia feito um pacto de delação sobre um desvio de 7 milhões de reais dos cofres da Petrobrás, repassado ao PT) e quem pagou pelo atentado que quase matou Bolsonaro (a dona da pensão e um hóspede morreram misteriosamente). O PT nada tem a ver com as invasões de terras e com as invasões de imóveis urbanos. O PT é, hoje, o partido mais democrata do Brasil.
Haddad é inteligente, fala 150 línguas, foi o maior prefeito de São Paulo e, se eleito, será o segundo melhor presidente brasileiro, abaixo é claro do seu líder Lula, que se encontra, hoje, encarcerado por ter se apropriado de milhões que não lhe pertenciam. Haddad investiu pesadamente em ciclovias e fez discursos maravilhosos, originais, cheios de verve. Um homem bem-humorado. Sim, Haddad gosta muito de rir. Um dia, o patrão dele, o preso Lula, discursou numa cerimônia de estudantes de primeiro e segundo graus. Em meio ao discurso às crianças, Lula disse que não lia, que não gostava de ler, que ler era chato. Os aspones do PT, sentados ao fundo, riram muito do comentário do capo. Não é mesmo muito divertido um presidente que não lê – e conta isso como uma vantagem? Os aspones riram, mas quem mais riu, claro, foi o Haddad, na época ministro da educação. Ler pra quê, deve ter pensado o homem responsável na ocasião pelo ensino? Melhor que ler autores chatos como Guimarães Rosa, Drummond, Machado, que nada têm a ensinar, é ouvir as sábias prédicas da Gleisi, da Dilma, do Lindenberg. Haddad é um democrata com senso de humor, mas como disse Villon, conhece tudo, exceto a si próprio.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A democracia não corre risco


Ninguém me viu aqui lançar ofensas contra Haddad. Ninguém me viu tratar Marina com desabono. Ninguém me viu aqui injuriar o Bolsonaro, o Ciro, o Alckmin, o Dias e os demais candidatos. Não ataquei nem ironizei ninguém por apoiar esse ou aquele candidato. Meus amigos têm o direito de defender e acreditar no que quiser. Não vou entrar na sua página para agredi-lo ou ofendê-lo, mas muitas pessoas me agridem e ofendem pelo que escrevi. Aristóteles diz, na “Ética a Nicômano” diz que “pessoas obstinadas podem ser divididas em três categorias: os dogmáticos, os ignorantes e os mal-educados”. Quem são os obstinados que me visitam?
Quando escrevi sobre os candidatos procurei ser analítico – e os tratei como candidatos à presidência da República. Sou de um tempo em que eu me levantava quando o professor entrava em sala. Meu pai jamais admitiu que um filho se sentasse na mesa sem camisa. Algumas coisas, transformadas, marcaram e marcam minha conduta – e delas não me envergonho. Sempre tratei meu pai de senhor, minha mãe de senhora, assim como pessoas de idade. Outro dia, numa banca de jornais, uma dama de uns vinte, vinte e poucos anos, virou-se para mim – e sapecou: “Jovem, vai levar a Piauí?” Olhei em torno: é, ela falava comigo.
Sou contra a censura e contra a ditadura, inclusive aquelas invisíveis, opacas, solertes. Fui um dos poucos que defendeu aqui no Facebook o escritor Paulo Cesar de Araújo quando seu livro “Roberto Carlos, em detalhes” foi censurado, proibido, teve os exemplares recolhidos e queimados, com o apoio dos democratas Chico César, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Erasmo Carlos, entre outros. Por isso, não levo a sério os manifestos que estes democratas escrevem.
Quando escrevi “Divas da Rádio Nacional” sofri um processo de um cavalheiro, parente de uma das grandes cantoras brasileiras, que exigia de mim 500 mil reais e pedia à justiça o recolhimento do meu livro das livrarias. Minha reação foi taxativa: vou preso, mas não pago e vou vender o meu livro de bar em bar. No meu tempo de Souza Aguiar, o professor Sylvio Guadagny censurou um artigo meu que ia ser publicado no jornalzinho do colégio. Vivi parte da minha vida de traduções de livrinhos de bolso, desses vendidos em banca de jornal. Usei um pseudônimo do qual me envergonho até hoje.
Com a anistia, abriu-se uma oportunidade às vítimas da ditadura de receber uma indenização e/ou bolsa-ditadura. Eu me recusei a entrar com qualquer pedido nesse sentido. Se eu sofri durante a ditadura foi porque eu lutei contra ela – e disso não me arrependia nem me arrependo ainda hoje. Fiz o que me mandou a minha consciência. Fui derrotado – ponto. Por que vou exigir que os vencedores me indenizem? Eu não sei se os indenizaria se tivesse vencido.
Muita gente não me conhece, não sabe da minha trajetória política, não sabe o que a minha geração passou quando decidimos desafiar e enfrentar o regime militar. Ajudei a fundar o PDT, mas o PDT de Brizola, Darcy, Doutel, Brandão Monteiro – não o PDT de bucaneiros. Não sou melhor que ninguém. Minha vida, de forma direta ou indireta, está nos meus livros, principalmente em “Sobrevivente” (e-book, Amazon). Leiam e fartem-se.
As eleições são um bom exemplo. Elas estão contaminadas pela dicotomia ou radicalização que tomou conta da vida política brasileira. Ninguém escapa disso. Felizmente, algumas vozes, como a do Gabeira, Gianotti, Marco Aurélio Nogueira, Antônio Risério, perceberam que não há razão alguma de desespero – em razão da possível vitória do candidato Bolsonaro. Segundo eles – e o Velhote do Penedo concorda com isso – a democracia não está em risco. E não está em risco porque, hoje, a liderança militar, como os escalões intermediários das forças armadas, não está demonstrando nenhum interesse em partir para uma aventura, que já nos custou, a todos, muito caro. A ditadura marcou a sociedade até hoje – e é isto o que nos leva a temer e a esconjurar saídas ou caminhos políticos que neguem a democracia. Claro, uma das missões do próximo governo é o de procurar fortalecer as instituições, garantindo o equilíbrio entre os poderes. Se não fizer isso, o país explode.
A derrota das forças de esquerda deve ser aproveitada pela própria esquerda. Ao invés de partir para a vingança contra o governo eleito, é necessário que a esquerda, sem abdicar do ideal socialismo, aproveite a oportunidade para se reconstruir. Repensar sua estratégia, livrar-se da visão sectária da vida social, compreender que o mundo mudou, que a tecnologia está matando os empregos e que não se pode esperar apenas do Estado o enfrentamento dessa questão. Escrevi recentemente que o desafio brasileiro é proporcionar empregos, até 2030, a cerca de 150 milhões de cidadãos com idade de 15 e 65 anos. Notem que estamos a apenas 12 anos de 2030.
A esquerda (se assim podemos chamar) deve exercer a oposição ao governo que, parece, vem aí, mas sem ódio. O mesmo cabe ao futuro governo. Deve baixar a guarda e investir tempo e esforço no enfrentamento dos graves problemas brasileiros. O radicalismo – de que lado seja – é o maior inimigo do povo brasileiro.
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1 – O meio acadêmica tem demonstrado uma enorme incapacidade de explicar o que está ocorrendo na política brasileira. Sugerem abstrações como “onda conservadora”, “antipetismo”, “nazismo”. São abstrações que não explicam nada. Na verdade, o meio acadêmico brasileiro, tal como a esquerda, precisa se repensar e abandonar as fórmulas chapadas de explicação – que não explicam nada. Tanto na esquerda como no meio acadêmico ouço coisas que eu ouvia nos anos 1960, quando eu supunha que o mundo era explicável através do uso de duas ou três frases.
2 -Wagner Moura negou-se a desempenhar no cinema o papel do juiz Moro. E explicou: “Não interpreto papel de gente sem caráter”. Está certo, mas aceitou desempenhar o papel de Pablo Escobar.
3 – Vou reiterar: não voto no segundo turno. Não vou lá. Não sou obrigado a votar.