Por do sol em Penedo

Por do sol em Penedo

sábado, 2 de setembro de 2017

Há cem anos a história andou


Este texto discute o que eu ouvi, vi e li sobre a Revolução Russa de 1917. Não é um ensaio. Talvez seja um testemunho - ou um testamento.

1 –

Eu morava no Edifício dos Bancários, um prédio imenso, bonito, sólido, excelentes apartamentos, construído pelo IAPB, antigo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários. O Edifício tinha duas portarias, ambas grandiosas e iguais: Rua Marques de Abrantes, 157 e Rua Senador Vergueiro, 200, Rio de Janeiro.

As duas portarias eram ligadas por duas passagens: uma externa, com lojas, usada pelo público em geral; outra interna, com piso e paredes de mármore, exclusiva de moradores e visitantes. O Edifício dos Bancários tinha nove elevadores, cinco sociais e quatro de serviço.

Nos Bancários e adjacências moravam muitos comunas, intelectuais e artistas, entre os quais Agildo Barata, o filho Agildo Ribeiro, a psiquiatra Nise da Silveira, as jornalistas Ana Arruda (que viria a ser esposa de Antônio Callado) e Leda Barreto (autora de um livro sobre Francisco Julião), a atriz Luiza Barreto Leite, o produtor José Sanz, a cantora (da Rádio Nacional) Heleninha Costa, o compositor Alcir Pires Vermelho, o disc-jóquei Big Boy, que na época era apenas o Nilton Gordo, asmático e pirado, vítima de nossas maldades.

Ainda da Rádio Nacional, eram vizinhos dos Bancários (Rua Marques de Abrantes) a radioatriz Isis de Oliveira (Ivete Savelli), o locutor e contrarregra Jairo Argileu e o produtor e compositor Almeida Rego. Quem andava pelos Bancários, onde tinha uma namorada, era o comediante Paulo Silvino, muito magro e engraçadíssimo, que usava o pseudônimo de Brigitte Bijou nos livros de humor e sacanagem que escrevia em cadernos escolares. Denis Menezes, repórter esportivo, aparecia às vezes na minha casa, onde filava a minha máquina de escrever Remington. Elisete Cardoso, a Divina, morava numa ruazinha sem movimento, atrás da igreja Santíssima Trindade (Rua Senador Vergueiro), a uns duzentos metros dos Bancários. Manoel Maurício de Albuquerque, historiador, maior vocação de professor que conheci na vida, residia próximo. Uma tia de Ruy Castro, D. Naíde, tinha uma loja no corredor externo dos Bancários. Ruy Castro, tal como José Ramos Tinhorão, morava também na Marques de Abrantes.

Eu tinha um amigo, cujo pai era da direção regional do PCB. Ainda menino, eu conversava muito com ele (pai), que contava histórias sobre Graciliano Ramos e outras figuras do partidão. Foi nos Bancários, em três de abril de 1964, que os capangas do secretário de Segurança da Guanabara, coronel-aviador Gustavo Borges, prenderam, espancaram, torturaram e roubaram os nove chineses, membros de uma delegação oficial do governo da República Popular da China (V. a respeito: “O caso dos nove chineses”, de Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo).

Meus pais falavam dos comunistas – e sempre se referiam às perseguições que sofriam: prisões, torturas, longos períodos em que eles eram obrigados a viver longe de suas famílias, na clandestinidade. Ser comunista no Brasil, antes e durante a ditadura militar, era uma barra – uma vida de muitos sacrifícios e um sonho (acalentado durante décadas) que nunca se efetivou.

2 -

Em 1956 (eu tinha treze anos), o Relatório Krushev, apresentado durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, explodiu sobre os partidos comunistas do mundo.

Nele, os crimes cometidos por Stalin (já denunciados por dissidentes) eram contados em detalhes. O Relatório, segundo meu pai, que o leu no Estadão, narrava barbaridades, como os campos de concentração na Sibéria, o desaparecimento de pessoas, os assassinatos, os expurgos, os “gulacs”, os julgamentos forjados, o culto a Stalin, tido como o “pai dos povos”. Meu pai não era comunista, mas tinha amigos que eram.

Agildo Barata conta, em “Vida de um revolucionário”, que as revelações do Relatório produziram nele tal choque, que teve “um intenso derramamento de bílis”, que o fez ser hospitalizado. Algum tempo depois, Agildo viria a sofrer um AVC, que paralisou o seu lado esquerdo e, depois, o levaria à morte.

O pai do meu amigo, chocado com tudo o que dizia o Relatório Krushev, sofreu um infarte, que quase o matou. Nunca mais foi o mesmo. Eu o vi uma ou duas vezes: em ambas, ele estava sentado numa cadeira de balanço, magro, calado, olhando para o nada através da janela. Não me atrevi a puxar conversa. Para ele, a vida perdera a graça.

Em “Luís Carlos Prestes – Um revolucionário entre dois mundos”, Daniel Aarão Reis conta que na reunião do Comitê Central do Partidão, que debateu o Relatório, “houve gente vomitando e chorando”. Anita Leocádia, na biografia que escreveu do pai - “Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro” -, deu nome aos bois: “Tanto Arruda quanto Carlos Marighella, João Amazonas e Maurício Grabois chegaram a chorar”. Comovente, claro, mas é no mínimo estranho supor que os citados, comunistões históricos, dirigentes do Partidão, não soubessem ou sequer desconfiassem do que se passava na terra-mãe do socialismo sob o tacão de Stalin, mas, enfim – cala-te, boca!

João Falcão, em “O partido comunista que eu conheci”, conta primeiro o choque que teve ao saber, em 1953, da morte de Stalin (“uma grande sensação de perda invadiu a minha alma. Ele era para todos os comunistas convictos um Pai e um Mestre”, destacou Falcão). Os comunistas acreditavam que Stalin era eterno.

Três anos depois, com o relatório, novo choque, que João Falcão definiu como de “desespero e pânico”. Falcão, que, na época, estava em Moscou, citou ainda alguns casos de deserções e suicídios, como foi o caso do escritor Alexandrovitch Fadeiev, autor de “A derrota”, em que trata da guerra civil de 1919. O presidente da Polônia, Boleslaw Bierut, embora fosse cúmplice de Stalin e soubesse certamente das atrocidades apontadas no Relatório Krushev, tendo-as praticado em seu próprio país contra seus compatriotas, sofreu um infarte fulminante.

O depoimento mais contundente e importante da época, contudo, foi dado por Osvaldo Peralva, em “O retrato”, livro que conta a história das decepções do autor com a organização política a que dedicara, segundo ele, os melhores anos de sua vida. Peralva era do Comitê Central do PCB e vivia na época em Bucareste, onde trabalhava para o Kominform, um comitê de informação que unificava a ação dos partidos comunistas (sob o esquadro de Moscou, claro). O padecimento de Peralva é contado em detalhes no livro. Ele não conseguia dormir, chorar, falar, raciocinar, chegando a supor que ia enlouquecer – sim, enlouquecer. O sofrimento de Peralva foi indescritível.

Sei de muitos outros casos semelhantes, como sei de gente que sofreu e morreu (não aguentaram o tranco) quando ocorreu em 1991 o colapso da URSS; afinal, foram 74 anos de um sonho que virou escombro – ou melhor, pó. Na época, fui visitar um velho comunistão, meu ex-professor, que ao abrir a porta me abraçou e, agarrado a mim, chorou como uma criança. “Que será de mim? Que será do mundo?” – dizia e repetia em voz alta, enquanto eu, morto de vergonha, temia que a cena estivesse sendo observada à sorrelfa por vizinhos do inconsolável “tovaritch”.

3 -

Não é possível, porém, discutir a derrocada da URSS sem reconhecer também os seus grandes feitos, marcados pelo heroísmo, coragem e patriotismo, dos quais o povo soviético deu inequívocas provas, desde 1917.

Em 1920, após anos de guerra mundial, guerra civil e intervenção estrangeira, a indústria russa (um pequeno enclave em Petrogrado) estava em ruínas, os estoques esgotados, a sociedade totalmente desarticulada e exaurida. Milhões de russos eram obrigados a queimar móveis nas ruas para se aquecer – com o agravante de que a fome atingia parcela expressiva da população. A migração do campo para as cidades era intensa, o que agravava os problemas de abastecimento – em absoluto colapso. Como disse Ernest Mandel, “economicamente a sociedade russa regrediu mais de meio século”.

Foi em tais circunstâncias que a URSS, o primeiro Estado socialista, começou a se erguer e a se construir, sofrendo boicotes e bloqueios de países europeus mais desenvolvidos. É fácil imaginar o esforço humano cobrado nessa primeira fase. Havia ainda as disputas políticas internas, as divergências quanto aos rumos da economia – disputas e divergências que viriam a culminar na ascensão da burocracia stalinista. Stalin, o líder supremo, eliminou os divergentes e dissidentes, inclusive a velha guarda bolchevista, como Bukharin, Kamenev, Zinoviev, Rykov, Preobrajenski, Smirnov, Antonov-Ovseenko, entre muitos outros – e enfrentou a ferro e fogo as dificuldades econômicas da época.

Importante é destacar que o socialismo na URSS foi construído sobre as carências e a pobreza do subdesenvolvimento, ou, como diria o próprio Marx, sobre o desenvolvimento insuficiente das forças produtivas do capitalismo russo. Marx jamais supôs que o socialismo se erguesse em países pobres e atrasados – e foi justamente isto o que aconteceu na URSS, o que deu origem às deformações do socialismo soviético. A revolução soviética foi, portanto, uma revolução historicamente antecipada, desengatada da história – isto na melhor concepção marxista. Conforme ensina o materialismo histórico, tinha tudo para dar errado. E deu – apesar dos seus ganhos.

O esforço social do povo soviético foi gigantesco, em sofrimento e grandeza, mas, de certa maneira, exitoso e heroico, apesar de o “salto do reino da necessidade para o reino liberdade”, sonho do pensamento socialista clássico, não ter nem de longe se realizado. A construção do socialismo na URSS, com todas as suas deformações, foi realizada sob a cruel ditadura stalinista, que impôs ao país um processo de acumulação primitiva a ferro e fogo e um sistema totalitário de grandeza inimaginável. Poderia ser de outra forma? O próprio Isaac Deutscher, historiador trotsquista, admitiu que, provavelmente, sem Stalin os avanços, apesar de penosos, não seriam possíveis. A ditadura stalinista, que envenenou a sociedade soviética e se propagou no tempo e no espaço, foi o resultado mais palpável da tentativa de erguer o socialismo em países atrasados. Isto, contudo, não justifica nem absolve a ditadura stalinista. Mas explica, em parte, as agruras mundiais do socialismo.

Trotski e Lênin tinham estudado Marx e, no início, desconfiaram da inviabilidade do socialismo na Rússia caso dependesse unicamente de suas forças. Apostaram, então, suas fichas e argumentos na Alemanha, que vivia uma fase pré-revolucionária. Mas a revolução alemã morreu na praia – e os bolchevistas concentraram-se no que tinham – uma Rússia exaurida, sem recursos, paupérrima, dividida, tudo aquilo que Marx julgava ser a antítese de uma revolução socialista bem sucedida.

4 -

Marx, como Lênin e Trotski, sabia que a miséria não é necessariamente um estopim revolucionário. A miséria quase sempre é alienante e contrarrevolucionária – e transforma o povão em massa amorfa, submetida às manobras de populistas, tanto de direita como de esquerda. A miséria pode produzir delinquência e explosões localizadas, guiadas quase sempre por combustão espontânea: não tem rumo político nem ideológico, a não ser em casos excepcionais. Na Rússia, o que salvou a revolução foi o extremo profissionalismo revolucionário dos bolchevistas, que lideraram o movimento e souberam orientar e guiar a tradição rebelde do povo russo no sentido que desejavam.

A assinatura do acordo Molotov-Ribbentrop (ler a respeito o magnífico “Hitler/Stalin: o pacto maldito”, de Joel Silveira e Geneton Moraes Neto), em 1939, provocou perplexidade no mundo inteiro. O acordo não era apenas um compromisso de não agressão entre os dois países, mas uma partilha secreta que garantia à URSS parte da Polônia (que nos dias seguintes seria invadida pelos nazistas), a totalidade das chamadas Repúblicas Bálticas – Lituânia, Estônia e Letônia – e o “direito” de atacar e dominar a Finlândia, historicamente ambicionada pelos russos. A verdade é que a aliança entre nazistas e comunistas provocou um clima de confusão, frustração e amargura. A partir daquele pacto, a esquerda nunca mais seria a mesma no mundo inteiro. O impacto do acordo assinado por Molotov e Ribbentrop em Moscou, na sorridente presença de Stalin, que pacholamente fumava seu cachimbo, foi quase semelhante ao que viria ser causado, anos mais tarde, pelo Relatório Krushev.

No Brasil, especialmente nas fileiras do PCB, o acordo Molotov-Ribbentrop provocou efeitos nefastos, embora alguns dirigentes, militantes e historiadores o tenham visto como inevitável. “A União Soviética, nas circunstâncias de 1939, não tinha alternativa”, justificou Jacob Gorender. Antonio Callado, que não pertencia ao PCB, escreveu na época um artigo em que declarou “estar chocadíssimo e decepcionado com a União Soviética”. Moacir Werneck de Castro, ligado ao PCB, afirmou ter ficado desorientado: “Passei um período de total perplexidade, trocando impressões nervosas e amarguradas com amigos que pensavam como eu”.

Não houve, por parte da URSS e dos partidos comunistas, uma explicação plausível sobre o acordo firmado com a Alemanha nazista. É possível que Stalin estivesse ganhando tempo, pois havia uma certeza no mundo: que o ódio de Hitler aos comunistas o faria, cedo ou tarde, atacar a URSS. Ante a perplexidade interna e externa, a burocracia divulgou declarações exigindo disciplina e aceitação dos termos do pacto.

5 -

Assinado em 23 de agosto de 1939, o pacto Molotov-Ribbentrop tinha um prazo: dez anos. Ocorre que, em 22 de junho de 1941, para surpresa de Stalin, os nazistas – mais de três milhões de soldados alemães, croatas, finlandeses, romenos, húngaros, italianos e até espanhóis, invadiram a União Soviética, segundo estimativa de Simon Sebag Montefiore, em “Stalin: a corte do czar vermelho”. Foi a chamada operação Barbarossa. A opção das tropas soviéticas, de imediato, foi recuar para o interior do país, como as tropas czaristas fizeram em face da invasão napoleônica, em 1812. Em meio a tudo isso, Stalin ordenou a prisão e a execução de inúmeros comandantes militares, acusando-os de traição, covardia e “ações conspiratórias”.

O recuo das tropas soviéticas tinha uma estratégia: a destruição simultânea das fábricas, das áreas plantadas, dos rebanhos, das pequenas e médias cidades, de forma a impedir que as tropas invasoras nazistas tivessem como se reabastecer e alimentar. Represas, pontes e estradas foram dinamitadas, silos foram incendiados, máquinas agrícolas foram danificadas – ou seja, tudo o que fora construído entre 1917 e 1941 foi posto abaixo, inclusive a usina hidrelétrica de Dniepropetrovski, uma das maiores do mundo.  O esforço de guerra da URSS lhe valeu a perda de incalculável patrimônio social e econômico - e algo em torno de 17,3% dos seus habitantes, dos quais mais de 18 milhões eram civis. 46% do território da URSS foram ocupados pelos nazistas e seus aliados.

O símbolo da tenacidade russa foi a Batalha de Stalingrado, que mereceu de Carlos Drummond de Andrade um poema de qualidade duvidosa, no melhor estilo do realismo socialista (“Stalingrado, quantas esperanças!/Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!/Que felicidade brota de tuas casas!/.../Ó minha louca Stalingrado”).

Em toda a área de Stalingrado, o Exército Vermelho sofreu um total de um milhão e duzentas mil vítimas, dos quais cerca de 500 mil mortos. Foi a maior e mais sangrenta batalha da Segunda Guerra Mundial – e tema de filmes e livros, entre os quais “Stalingrado: o cerco fatal – 1942-1943”, de Antony Beevor, “Barbarossa: a invasão da URSS pela Alemanha nazista”, de Will Fowler, e “Stalingrado: a resistência heroica que destruiu o sonho de Hitler dominar o mundo”, de Rupert Mathews.

6 –

Vale a pena destacar: nenhum outro país, durante a guerra, sofreu perdas tão dramáticas como a URSS. Afora as perdas humanas, algo em torno de 30 milhões de habitantes, a URSS viu desmoronar, segundo cálculos confiáveis, mais de 70% da riqueza nacional que construíra entre 1917 e 1941. Em contraste, os Estados Unidos tiveram 417 mil mortos, sem batalhas dentro de suas fronteiras.

Com o fim da guerra, portanto, a URSS, destroçada e com um imenso déficit humano, teve que se reconstruir – e mais sacrifícios foram exigidos de sua população, que saíra profundamente atingida do conflito mundial. Sacrifícios superiores aos exigidos anteriormente, pois o fim da II Guerra Mundial marcou o início da Guerra Fria – e a URSS assumiu responsabilidades sobre a vida dos países do Leste europeu, que também estavam em escombros.

Mais uma vez o povo soviético foi chamado a pagar a conta: escaldada pelo que acontecera durante a II Guerra, a URSS desenvolveu, a partir daí, uma baita indústria armamentista, período em que se tornou grande potência no ramo aeroespacial, na atividade nuclear e no plano da qualificação cultural e científica. Não havia, porém, o que consumir – sapatos e roupas eram de péssima qualidade, a crise de moradia era gravíssima (três, quatro famílias dividiam um apartamento de dois quartos), a escassez de alimentos era a rotina, o mercado negro e a corrupção dominavam todos os escaninhos do Estado e da economia soviética. Um retrato vivo dessa realidade pode ser encontrado no livro “Parque Gorky”, de Cruz Smith. Com ação passada em Moscou, “Parque Gorky” oferece um retrato vibrante e convincente sobre os motivos, a ideologia, o estilo de vida e a disseminada corrupção das camadas médias da burocracia soviética.

O processo de desestalinização, que se seguiu às denúncias do Relatório Krushev, pouco modificou, de fato, a estrutura de poder de dominação da burocracia, que dera sustentação ao stalinismo. A verdade é que o poder burocrático estendia-se a todas as instâncias da vida soviética: ela, afinal, não só era responsável pela administração do aparelho de Estado, como, também, pelo controle do enorme aparelho produtivo e social da URSS, o que incluía fábricas, minas, fazendas coletivas, redes de comunicação, de ensino e saúde, escritórios e serviços em geral.

A burocracia confundia-se com o partido único e os órgãos repressivos, que, por sua vez, eram os mecanismos através dos quais ela dominava o Estado e exercia o poder. A ditadura do proletariado, que seria a dominação de classe, tornou-se, na realidade, a ditadura da burocracia - sob a liderança de Stalin, o pai de todos os comunistas do mundo.

Bem verdade que os epígonos do stalinismo, através do Relatório Krushev, livraram o povo soviético do terror absoluto, mas foram incapazes de inspirar-lhe esperança e, como antes, não permitiram que ele expressasse pensamentos críticos. Na verdade, tudo ficou como antes, mas sem o terror e os expurgos stalinistas. Mas, havia uma explicação: os líderes da desestalinização eram oriundos da burocracia e do poder que diziam combater.

7 –

A desestalinização não fez o PCUS – nem o Estado soviético - livrar-se da sua natureza totalitária e opressora, pois as contradições históricas do país continuavam vivas. Meses após as denúncias sobre os crimes de Stalin, tropas soviéticas invadiram a Hungria, depondo um governo que pretendia estruturar um governo democrático e socialista no país (V. a respeito: “Hungria, 1956”, de Ladislao Pedro Szabo, organizador). Mas não foi só.

Em agosto de 1968, tanques do Pacto de Varsóvia, liderados por tanques soviéticos, esmagaram a “Primavera de Praga”, que pretendia democratizar o país sob o comando do líder reformista Alexander Dubcek.

Os dois episódios tiveram efeitos perversos sobre a crença no ideal socialista.

8 -

O stalinismo causou marcas tão penetrantes na sociedade soviética que a simples desestalinização – e o modo como foi conduzida - foi incapaz de apagá-las, a não ser que ela evoluísse na direção de um amplo, profundo e ativo movimento de regeneração do poder. A expectativa que se tinha, conforme notou Ernest Mandel, é que as lentas e rasas mudanças que se processavam na URSS tomassem, ao longo do tempo, a forma de uma reação politicamente consciente das bases da sociedade. Não foi o que aconteceu.

O aparecimento no cenário político da União Soviética do grupo liderado por Mikhail Gorbachev implicou numa tentativa de seguir um caminho inverso ao que era seguido – e, mais importante, num esforço consciente de aprofundar reformas políticas e econômicas. Com o intuito de promover a glasnost e a perestroika, Gorbachev procurou o apoio do povo soviético, como forma de se opor aos setores mais conservadores da burocracia, que ainda estavam presentes e atuantes no cenário político da URSS.

O “despertar” do povo soviético, contudo, não se deu no sentido esperado por Gorbachev: ao invés de buscar a assepsia da estrutura de poder, o povo soviético convergiu para a negativa do socialismo. As propostas de restauração do capitalismo, que a maioria não sabia o que era ou como funcionava, ganharam força na sociedade. O irônico é que a transição foi realizada pelos que combatiam as propostas de Gorbachev, ou seja, a liderança de remanescentes convertidos da própria burocracia e da máquina repressiva do Estado, entre as quais a KGB. A rigor, essa nova elite russa percebeu que o socialismo soviético tornara-se impossível de ser sustentado - tantas e tão profundas eram as contradições que acumulara ao longo de sete décadas. Putin, Medvedev e Sergey Lavrov, que comandam hoje o poder russo, são egressos da KGB, são hábeis no uso do garrote. O mesmo se pode dizer sobre os bilionários e chefes da Máfia russos.

Ironicamente, a glasnost e a perestroika eram ferramentas que visavam reformar a estrutura do poder, que, em última análise, se mostrou frágil – e que só se manteve em pé durante 74 anos devido ao terror, a falta de liberdade e o medo. Enfim, “o salto do reino da necessidade para o reino da liberdade”, a experiência socialista da URSS chegava, de forma melancólica e surpreendente, ao seu fim.

9 -

Acabei de ler um livro que vai fundo no sofrimento dos velhos comunistas russos pós-derrocada da URSS. Trata-se de “O fim do homem soviético”, de Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de literatura (2015). A experiência socialista durou 74 anos – e é perfeitamente exato afirmar que milhões de “homens soviéticos” nasceram, viveram e morreram sob um regime que iria desmoronar como um castelo de cartas.

“A democracia era para nós um animal desconhecido”, comentou um “homo sovieticus”, que ainda afirmou não saber o que é democracia, capitalismo e liberdade. Um velho russo, que lutou na Segunda Guerra, época em que perdeu a mulher e dois filhos, assassinados por soldados nazistas, disse à Svetlana Aleksiévitch: “Ninguém nos ensinou o que era liberdade. Só nos ensinaram a morrer pela liberdade”. Morrer pela liberdade, para milhões de soviéticos, era morrer pela ditadura stalinista, que parte considerável do povo soviético simplesmente venerava.

“De onde vieram esses russos milionários?” - indagou revoltada uma russa à Aleksiévitch. Ela vivera na miséria durante o socialismo - e ainda hoje, em pleno capitalismo russo, permanece paupérrima: vive de esmolas recolhidas na rua. Ela não aceitava o argumento de que os russos milionários eram descendentes dos que usufruíram as benesses do “socialismo real”. Os russos milionários teriam vindo de fora – era o que repetia. O socialismo não podia ter criado os milionários russos de hoje, afirmava ela.

Outro “homo sovieticus” entrevistado por Svetlana observou que “os contrabandistas e os cambistas tomaram o poder. E, ao inverso do que disse Marx, depois do socialismo estamos construindo o capitalismo”. Sobre a URSS, o entrevistado disse, com ar melancólico: “nunca vou esquecer o ar de liberdade daqueles dias...” Ao visitar um casal de amigos, Svetlana ouviu o seguinte desabafo: “O socialismo fazia as pessoas viverem na história. Fazer parte de algo grandioso”. Outro comentário: “Nós não tivemos democracia, é bem verdade. E nós aqui hoje somos lá democratas?”

Ielena Iúrievna e Anna Ilínitchna abriram um debate com Svetlana com a seguinte observação: “faz tempo que eu quero que alguém me explique o que está acontecendo conosco?” O comentário demonstra um sentimento típico do “homo sovieticus”: a incompreensão das causas da derrocada da URSS e da atual situação do país.

Os soviéticos alimentavam a certeza de que a URSS era sólida – afinal, era o produto histórico de uma revolução dolorosa, de um processo de construção do socialismo marcado pelo sofrimento, de uma guerra que destruiu o que fora construído, que matou milhões de soviéticos, de uma reconstrução ainda mais difícil e sofrida. Tudo isto, porém, desmoronara com uma rapidez impensável. Ielena e Anna não compreendiam o sentido e o ritmo daquele processo social, pois, afinal, “o socialismo não é só campo de trabalho forçado, não é só delação e cortina de ferro; é também um mundo justo e limpo: dividir com todos, ter pena dos mais velhos, ter compaixão e não juntar tudo para si”.

Um dos mais emocionantes depoimentos colhidos por Svetlana:

“Eu cresci em uma época totalmente soviética. A mais soviética de todas. Sou cria da URSS. Mas a nova Rússia... eu ainda não consigo entendê-la. Não consigo dizer o que é pior: o que temos agora ou a história do PCUS [Partido Comunista da União Soviética]. A minha cabeça tem uma forma soviética, tem essa matriz, passei metade da minha vida no socialismo. Isso ficou em mim. Não tem como tirar. E não sei se quero me livrar disso. Naquela época, a vida era ruim, mas agora a vida é terrível”.

“O fim do homem soviético”, de Svetlana Aleksiévitch, é um livro dramático e, em última análise, triste, muito triste: ele descreve nada mais que os escombros de um sonho que não deu certo.


domingo, 27 de agosto de 2017

Vamos mirar o alvo certo


Quando trabalhei no governo Cristovam Buarque, fiz, um dia, análise do orçamento do DF. Descobri, então, que 60% dos gastos giravam em torno da praga chamada automóvel, caminhões, ônibus, por aí. O cálculo foi simples: somei quanto custava o DETRAN, a Secretaria de Transportes, os serviços e obras de construção, manutenção e recuperação de ruas, estacionamentos públicos, de semáforos (incluí cortes e poda de árvores que atrapalham a visão), pardais. Afora isto, admiti um percentual dos gastos em segurança (guardas de trânsito). E fui por aí – juntando gastos e despesas.

Todos nós reclamamos dos serviços públicos: a educação pública é ruim, escolas caem aos pedaços; a saúde pública é precária, os hospitais são carentes. A segurança é péssima, os transportes coletivos são uma vergonha. Eu, por exemplo, moro em Brasília, na Asa Norte, e padeço dois dias semanais de racionamento d'água, afora os eventuais apagões. Mas o Governo do Distrito Federal está fazendo, no final da Asa Norte, uma obra enorme, que envolve ponte, viadutos, abertura de pistas, obra que se destina a facilitar o escoamento do tráfico no sentido Lago Norte, Sobradinho e Granja do Torto. Ninguém reclama do racionamento, mas li elogios à obra, apesar dos transtornos e dos custos.

A verdade é que temos uma visão distorcida da relação cidadania/prioridades/gastos públicos. Não levamos em conta que as receitas são limitadas, mas achamos que são infinitas quando estão relacionadas com as nossas prioridades. Prioridades “nossas”, ou seja, de classe, pois queremos ruas e estradas “europeias”, que facilitem no “nosso” deslocamento. E isto custa - como constatei - 60% dos gastos do Distrito Federal. O que sobra é destinada às prioridades “gerais”. Não sei se fui claro.

Hoje, todos culpam a corrupção pelas nossas desgraças, mas os nossos males possuem outros componentes piores: a citada relação cidadania/prioridades/gastos públicos é um deles. A corrupção é erva daninha, deve ser combatida, os larápios devem ser presos. Mas a corrupção sozinha não explica o que somos.

Apesar do racionamento d'água (minha casa: dois dias/semana), vejo por aí os lavajatos funcionando a todo vapor: a população do DF é da ordem de três milhões de habitantes; a frota de automóveis é superior a 1,5 milhão, o que dá um carro/duas pessoas. Contudo, um estudo local revelou que a média de veículos por família é de 4,2 carros. Isto significa que a frota de carros de Brasília pertence a menos de 15% da população. Vejam: uma obra faraônica está sendo feita, a lavagem de carros é absurda, o gasto de água incalculável – mas disso ninguém  reclama. É uma das faces cruéis da relação cidadania/prioridades/gastos públicos. Pior ainda: 60% das despesas orçamentárias do DF beneficiam 15% da população.

A verdade é que não percebemos privilégios como esse. E como não percebemos, convivemos com eles. Às vezes somos induzidos a desviar nossa atenção para outras questões, que, a rigor, são menos graves que aquelas que não percebemos. Dou um exemplo: li, no facebook e na mídia, imprecações contra os 3,6 bilhões que seriam destinados aos partidos políticos. O Velhote do Penedo também é contra, embora aquela quantia represente menos de 0,09% do orçamento federal – e menos de 1% dos 458 bilhões de desonerações concedidos por Dilma desde 2011.

Eu ia escrever hoje sobre as perdas que sofremos com a redução da hora-aula de 60 para 50 minutos. Prometi a alguns amigos, a quem peço desculpas. Escreverei na terça.

Penedense não vota no Lula!

domingo, 20 de agosto de 2017

De dez em dez minutos, ampliamos o déficit cultural


No passado, a criança ia para colégio aos sete anos. Dos sete aos onze, ela cursava o primário (quatro anos) e o admissão (um ano) – espécie de curso preparatório para o ginásio (outros quatro anos). O jovem, portanto, concluía o ginásio com quinze anos. Aí tinha que fazer uma opção: ou ia para o clássico ou para o científico. Eram três anos – de modo que o jovem concluía o ciclo com 18 anos. Estava apto para entrar na faculdade. O Velhote fez o curso clássico porque queria estudar sociologia, humanas. Se ele quisesse estudar física, faria o curso científico. A Reforma Passarinho bagunçou tudo isso. Mas o Passarinho - e sua turma de tecnocratas - não entendia nada de educação. Tinham apenas a força para impor sua reforma.

Fiz o curso primário no Colégio Santo Antônio Maria Zaccaria, escola privada dos padres barnabitas. O ginásio e as duas primeiras séries do clássico, no Colégio Sousa Aguiar, escola pública. O último ano do clássico fiz no Pedro II. No Sousa Aguiar, tive excelentes professores: Paulo Ronái (ensaísta, tradutor, introdutor de Balzac no Brasil, pai da jornalista Cora Ronái); Orlando Valverde (geógrafo, conferencista, autor de livros sobre a Amazônia); Bella Josef (especialista em literatura latino-americana, com livros publicados em diversos países do nosso continente); Almir Câmara de Matos Peixoto (um sábio: com quem, nas aulas de redação, aprendi a escrever); Ernesto Faria (latinista, autor do melhor dicionário de latim, hoje só encontrável em sebos); Leodegário Amarante de Azevedo Filho (da Academia Brasileira de Filologia, organizador da obra de Cecília Meirelles, autor de um belo livro sobre Camões); Edmundo Moniz (autor de “A guerra social de Canudos”, “D. João e o surrealismo” e “O espírito das épocas”, editorialista do “Correio da Manhã”); Silvio Edmundo Elia (latinista). No Pedro II, fui aluno de uma das maiores autoridades em literatura, o acadêmico Álvaro Lins (autor de um excelente estudo sobre Roquette-Pinto e da série “Jornal da crítica”, sete volumes). Hoje, duvido que possamos encontrar na escola pública professores tão qualificados como os que foram citados – afora os que ficaram fora da minha lista, como Antônio José Chediak, Fernando Parga e Sylvio Guadagny.

Naquele tempo, só para dar um exemplo, tínhamos seis horas semanais de português e outros seis de matemática. A hora/aula tinha 60 minutos e, não, 50 minutos, como é hoje. Essa redução foi – como direi - uma “conquista” discutível do movimento sindical dos professores.

Agora, entendam: em nome de não sei quê direito, ao invés das 360 horas/aula de português e de matemática semanais, passou-se a ter 300 horas/aula de cada disciplina. Dito de outra forma: com a incorporação da “conquista”, do “direito” dos professores, todos os estudantes perderam, por semana, uma hora de aula em cada disciplina.

Imaginem o déficit de conhecimento que isso acarretou. Quantos milhões, bilhões, trilhões de minutos de aula, de transmissão de conhecimento, se esfumaram ao longo do tempo, e vão continuar a se esfumar – em nome de um “direito”, uma “conquista” no fundo bizarra de uma corporação?

Reconheço que, como professor, desfrutei do “direito”, sem nunca me ter dado conta de que ele era, no mínimo, extravagante. Considero esse “direito” uma aberração, um privilégio. Fiquei velho.

O que eu quero dizer, em resumo, é o seguinte: dez minutos a mais de aula não mata ninguém - professor ou aluno. Mas se a hora/aula voltasse a ser de 60 minutos, a relação ensino-aprendizagem seria substancialmente acrescida. O tempo de aprendizagem se ampliaria.

Não sei se hoje com computadores, celulares, redes sociais, facebook, internet, o ensino melhorou. Eu suponho que não, pois no passado os estudantes tinham que fazer um esforço enorme para estudar e investigar - e isso o obrigava a ler, a ir a bibliotecas, a fazer consultas, a escrever, a desenvolver capacidades de análise, a refletir, a trabalhar em grupo. Nos dias atuais, basta consultar o Google. E imprimir. Solitariamente. Depois reclamam do número crescente e assustador de analfabetos funcionais no país. Afora, a quantidade absurda de feriados que atravancam o ensino no Brasil.

(Aproveito para contar um episódio: certa vez mandei meus alunos lerem um livro da literatura brasileira. Eram 40 alunos. Distribui quarenta títulos, um para cada aluno. Eles teriam que escrever uma resenha. Um aluno, que sentava no fundo da sala, entregou-me a resenha – que claramente não era dele. Procurei no Google – e bingo! Em sala, elogiei o trabalho dele, mas pedi que me desse o significado de cinco palavras que ele “usara” no texto. Claro, ele não sabia. Dei-lhe zero, inclusive porque não lera o livro. Hoje, esse menino, que desistiu de ser jornalista, é baterista de uma banda heavy metall. Houve outros casos de cópia, mas basta o exemplo).

Enfim, acho que as corporações adoram falar em direitos, em conquistas, sem perceber que muitos são, a rigor, privilégios corporativos. Mas isto é outra história, outra discussão.

 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Picaretagem e golpismo


Nunca pensei em começar um texto afirmando que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um sujeito que costuma perder o senso de oportunidade em face de situações em que dele se espera, no mínimo, equilíbrio, serenidade prudência. Diante de fatos novos e tensos, FHC age como um perfeito picareta.

Vou lembrar uma história. Quando Sarney era presidente, em 1986, FHC ocupou por um tempo a liderança do governo no Senado. O país estava paralisado, a inflação estava no topo, nada dava certo – e eis que FHC, no dia 27 de fevereiro de 1986, rompe subitamente com o governo e, por meio de uma entrevista coletiva, lasca a ripa no presidente, “um sujeito indeciso, incapaz de reagir à crise”, disse. FHC foi impiedoso: “O presidente é um homem sem grandeza”. Dito isto, presumo que FHC e golpismo foi dormir com a alma lavada, certo de que os louros iriam premiar sua atitude destemida, embora insensata.

No dia seguinte, 28 de fevereiro de 1986, o presidente Sarney surpreendeu o Brasil, o mundo e o ex-líder do seu governo no Senado: lançou o Plano Cruzado, congelou os preços, convocou o povo (“meus fiscais”) – tudo isso sob a batuta do ministro Dilson Funaro, da Fazenda. Ou seja, a coisa foi planejada e ocorreu sem que o líder FHC soubesse do que estava sendo bolado por Funaro. Sarney calou a boca de FHC, da mesma forma que Mário Covas, anos depois, iria se opor a FHC, que estava disposto a aderir ao governo Collor. Covas sabia que a adesão do PSDB ao Collor era uma fria sem tamanho, enquanto FHC, tangido por presunção de esperteza, estava disposto a consumar a aliança implausível. Covas evitou que o PSDB entrasse numa fria.

Agora, FHC dá uma entrevista – e, lembrando José Américo de Almeida na reunião ministerial que fez Getúlio decidir pelo suicídio, falou que Temer devia praticar um “gesto de grandeza”, renunciando ao mandato. O que FHC não pensou é que, caso renunciasse, Temer estaria fazendo uma confissão de culpa. FHC é como o velho samba de Noel: não sabe o que diz.

Dito isto sobre o FHC, vamos ao que interessa: a denúncia do procurador Janot, cume de uma manobra golpista e execrável contra Temer e, consequentemente, contra as reformas e a Lavajato. Não digo isto por achar que Temer é uma maravilha. Não é. Mas não é também esse sujeito abominável que Janot, a Rede Globo e os oportunistas de plantão, muitos dos quais pendurados nas redes sociais, sugerem.

O que me espanta é a maneira torpe como Janot alicerça a denúncia contra o presidente da República no depoimento de um delinquente. Joesly confessou ter cometido mais de 200 crimes, subornado mais de 1800 pessoas – além de ampliar sua riqueza com dinheiro público, que ele afanou. Obteve um baita empréstimo do BNDES e o investiu nos EUA, o que é ilegal. Janot, no afã de atingir Temer, deu a Joesly um indulto raro, livrando-o das penas dos crimes que cometeu. Isto tudo me intriga: uma das condições da delação premiada é garantir o retorno aos cofres públicos da grana roubada pelo delator. Janot, contudo, fez um acordo que beneficia o delator, não o obrigando a ressarcir devidamente os cofres públicos. O que me pergunto: pode um procurador geral fazer isto?

Papel importante na trampa está sendo desempenhado pela Rede Globo – e sua tropa de jornalistas delinquentes. Em alguns casos, o comportamento de alguns deles é simplesmente miserável e canalha; noutros casos, o noticiário mergulha no besteirol e na desonestidade simples. Bom, mas isto é uma questão de biografia: cada um que cuide da sua.

A campanha contra Temer teve início logo que ele assumiu: primeiro, foi “acusado” de não ter experiência administrativa; depois, surgiram ilações canalhas sobre sua a mulher e filho. Ouviram-se críticas aos seus livros. Bem, a coisa foi crescendo numa sucessão absurda: seus principais ministros foram afastados, questionaram-se suas iniciativas, como a reforma do ensino médio, tendo a Rede Globo estimulado, através de reportagens mal intencionadas, a invasão das escolas e a destruição de bens públicos. Veio, enfim, a reforma – e o mundo não veio a baixo. Estabeleceu-se um teto de gastos – e mais ataques, alguns ridículos. A esquerda atrasada berrou: figuras grotescas, como o deputado Molon (um frango que pensa que é um galo), despontaram; o senadorzinho do Acre, Randolphe Rodrigues teve mais um dos seus habituais chiliques e achaques, não se sabendo até hoje o que ele pensa sobre a vida, as pessoas e as coisas. Gleisi, Lindenberg, Feghalli e Graziotin – o incrível quarteto que ainda adora Stalin e Enver Hoxha se pôs a recitar palavras de ordem típicas dos anos 1950. O controle de gastos, apesar de tudo, foi aprovado. Ano que vem – espero – esta tropa será repudiada pelos eleitores.

Na verdade, Temer foi atacado com uma voracidade espantosa. Houve o episódio da carne, que nos custou, ou quase, posições importantes no ranking das exportações mundiais do produto. Percebeu-se depois que o escândalo eclodira em razão de ações precipitadas e erradas da Polícia Federal. Mas o estrago já fora feito. Depois, falou-se que a ABIN, atendendo ordens diretas do presidente Temer, estava espionando o Janot e o Fachin, o que, apesar do ruído, não se confirmou. Acusaram-no de utilizar, em viagem familiar, o avião da JBS. Quilos de cocaína foram apreendidos, com acusações torpes ao ministro da Agricultura. A viagem de Temer à Rússia e à Noruega foi ridicularizada. Agora, a denúncia contra o presidente, baseada na delação de um notório escroque, que auferiu no acordo com Janot benesses e vantagens inacreditáveis.

Já chamei a atenção dos verdadeiros absurdos da denúncia de Joesley, a qual foi encampada por Janot e Rede Globo. A mais absurda é aquela que diz que os 500 mil da famosa mala fazia parte de um acordo, acertado entre Joesley e Temer, de pagamento semanal do primeiro ao segundo, durante os próximos vinte anos. Ora, o ano tem 52 semanas; logo, por ano, Temer receberia de Joesley, caso o acordo fosse verdadeiro, cerca de 26 milhões, perfazendo, em vinte anos, a bagatela de 520 milhões, ou seja, meio bilhão de reais. Desculpem, mas só idiotas podem acreditar nessa história. Temer tem pouco mais de um ano de governo: porque então pagar 500 mil por semana, durante 20 anos?

Mas a opinião pública, envenenada pelo jornalismo delinquente da Globonews, passou a repetir a tolice, repetindo nas redes sociais informações nitidamente mentirosas.


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Em tempo: por que a Polícia Federal suspendeu a emissão de passaportes no dia seguinte ao pronunciamento de Temer? Aviso que não acredito em coincidências e acasos. Algo há.

domingo, 25 de junho de 2017

Entre o errado e o certo, o Brasil, em geral, escolhe a primeira opção


Tudo parece estar errado no Brasil. Hoje, 25 de junho de 2017, todos os brasileiros sabem dessa singela e cruel verdade. Muitos a aprenderam na própria carne; outros, em exemplos narrados por conhecidos e amigos; a maioria, contudo, percebeu que o Brasil é não só um país tangido por erros e equívocos – como respira e vive dos seus erros e equívocos, e agora também de patranhas e desonestidades diversas, entre as quais a desonestidade intelectual.

Uma mulher, mãe de uma criança de três anos, matou o sujeito que estuprou sua filha. Foi condenada a 30 anos – vi a notícia, mas não li uma declaração pública das organizações e astros que se apresentam como defensores dos direitos humanos, dos direitos das crianças e dos direitos à vida. Certo, nós sabemos – embora poucos tenham coragem de verbalizar – que tais organizações, astros e estrelas e deputados são oportunistas, que agem e falam quando a ação e o discurso podem atender os seus interesses. Outro dia, a deputada Benedita da Silva brindou a todos nós com uma frase em que juntou três elementos, que nem sempre andam juntos: ação política, a Bíblia (que ela disse ser a “minha Bíblia”) e – pasmem! – “derramamento de sangue” (que ela afirmou ser instrumento da ação política). Se fosse o Bolsonaro que dissesse tal estupidez, certamente o senadorzinho Randolfe Rodrigues e os deputados Molon, Valente e Maria do Rosário, entrariam com requerimento a clamar a cassação do deputado por falta de “decoro parlamentar” e “incitação à violência”. Bem, eu, de minha parte, entraria com um pedido de exame psicoteste, pois a frase da Benedita da Silva é prova inequívoca de que ela sofre de grave crise ou estado de loucura.

Agora, tomamos conhecimento de que o médico Roger Abdelmassih, condenado a 181 anos de prisão por abusar sexualmente de pacientes em sua clínica de reprodução humana, e Anna Carolina Jatobá Nardoni, condenada a 26 anos e oito meses de prisão por ter jogado a menina Isabella, com apenas cinco anos de idade, do 6º andar do apartamento onde passava os fins de semana com a madrasta e o pai, Alexandre Nardoni, também condenado a 31 anos e um mês de reclusão, estão em vias de obter progressão ao regime semiaberto. Há quem defenda a inocência dos três, mas não é esta a discussão. O que se discute é a facilitação de transformar cadeia fechada em uso de tornozeleira no bem-bom de suas casas. Não esquecer, também, das facilitações obtidas pelas esposas de Sérgio Cabral e do marqueteiro do PT, que confessaram os crimes de que são acusadas.

Outro absurdo ocorreu recentemente: a ampla delação (premiada) dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Ora, é certo que o Procurador-Geral Janot tem a prerrogativa de negociar e fechar os termos da delação. Mas os prêmios obtidos pelos Batistas foi um maná, embora os “cujos” tenham feito uma delação infame, que, levada em conta, dariam a eles uma pena entre 250 e 1200 anos de reclusão. Afinal, os sujeitos confessaram cerca de 300 crimes, um dos quais envolvendo o presidente da República e a sinistra informação de que corrompeu mais de mil e oitocentas pessoas. Os Batistas chegaram a afirmar que os 500 mil pilhados numa mala eram parte de um contrato de 20 anos (vinte anos!) de pagamento semanal ao presidente Temer. Bolas! – como diria o meu avô, uma “semanada” de 500 mil chegaria, no final, a uma soma inacreditável de 520 bilhões! Bolas! – 520 bilhões (quando o que resta de mandato ao Temer, a partir de hoje, é de apenas, um ano e três meses). É uma acusação falsa, instrumentalizada e mentirosa, como foi a gravação do papo entre Joesley e Temer. Acusação e gravação que o Globonews, mediante um jornalismo delinquente, que não visa a informar corretamente, mas atender interesses golpistas evidentes.

O Brasil é um país temerário, desigual, onde o povo é tratado como animal de carga – e parte da intelectualidade, do jornalismo, dos políticos se sente reconfortado exercendo papéis de canalhas e de covardes.

Em tempo: semana passada, intelectuais e jornalistas investiram contra o prefeito Crivela, do Rio de Janeiro, vetou um aumento de 50% das verbas das escolas de samba concedido pelo prefeito Eduardo Paes nos estertores da sua administração. Eu faria o mesmo – já que o prefeito preferiu usar os recursos em creches de alunos pobres. Muitos artistas também protestaram, mas isso era esperado: fazem parte daquela firmação de “destaques”, que, a cada ano, faturam ao dar relevo “à lídima manifestação da cultura carioca”. Certo, mas façam isso de graça!

sábado, 17 de junho de 2017

A palavra de um canalha


Ainda não li, mas vou ler a entrevista de Joesley Batista à Época. Quero dizer, de início, que considero os irmãos Batista dois refinados canalhas, que estão se aproveitando dos holofotes que Dr. Janot lançou sobre eles para faturar bilhões e jogar lama no ventilador. Época pertence ao conglomerado Globo, que vem se dedicando, nas últimas semanas, à missão de levar Temer à renúncia, mesmo que isso venha a contribuir para o completo atolamento do Brasil.

A política brasileira tornou-se, hoje, um caldo grosso de patifarias, vilanias, mentiras, deduragem e delinquência. Um canalha diz uma coisa, mesmo que absurda, e cabe ao acusado provar que o que foi dito a seu respeito não é verdade. Joesley e Wesley Batista vão ao pináculo da canalhice cúmplice, pois confessam crimes e são anistiados, reconhecem que corromperam e são tratados como dignos patriotas, cospem no rosto da nação e são tratados como vítimas. Os viventes e as gerações futuras estão diante de uma farsa estúpida, de um golpe miserável, orquestrado por uma parte da mídia delinquente e irresponsável.

Não votei no Temer, não votaria no Temer – e não sei se as reformas propostas por Temer vão ou não salvar o Brasil ou se elas servem à sociedade brasileira. Já disse aqui: o Velhote do Penedo defende reformas e o que está em jogo é precisamente isto: há interesses claros contra as reformas e, mais ainda, contra a Lavajato. Como ninguém vai assumir papel contrário às reformas e à operação Lavajato, pelo menos de forma clara, tumultua-se a vida política brasileira para ver que bicho vai dar.

Repito: não defendo o Temer – e reconheço seus pecados e insuficiências. Contudo, como leitor de livros policiais, acho no mínimo estranho que a cada semana surja um burburinho envolvendo o presidente – e poucos se perguntem se isto é, no mínimo, estranho ou suspeito. A cada semana, uma acusação. Semana retrasada, a gravação da conversa entre Temer e Wesley; semana passada, a história da ABIN; agora, a entrevista de Joesley. Em “Doze homens e uma sentença” (12 angry men), de Sidney Lumet, o personagem Davis (vivido por Henry Fonda) desconfia dos argumentos da promotoria, que acusava um rapaz de ter assassinado o próprio pai, e diz: “Tudo certo, tudo muito certo e encaixado. Nada é tão certo assim”. O filme é uma obra-prima. Quem não o viu, veja - ou não vai para o céu.

Não vi uma prova concreta do que afirmam os irmãos trombadinhas – e quando ela apareceu, veio na forma de uma gravação truncada, manipulada, inaudível.  Eu soube apenas das falcatruas que permitiram que eles pulassem, em tempo recorde, de pobretões (em Anápolis) a biliardários (em Nova York).

Não sei como gente honesta e inteligente, que o Velhote respeita, aceitou tão passivamente e de pronto o que os Batista falaram. Mesmo que Temer fosse o bandido que os Batista descrevem – eu não aceitaria, por princípio, uma delação do Fernandinho Beira Mar contra o Marcola. E muito menos anistiaria o primeiro por isso.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A verdadeira desgraça da política brasileira


A cada dia que passa, é patente que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sofre de certa confusão mental que o leva a dizer uma coisa pela manhã, outra à tarde, que modifica à noite. Três palpites por dia, uma diferente da outra, sobre o mesmo assunto. Inegavelmente, FHC é um sujeito equipado intelectualmente, com grande tarimba política – não só resultado da sua experiência vivida como do que pôde assimilar, ao longo dos anos, ao conviver com gente da estirpe política de Tancredo Neves, Franco Montoro, Ulisses Guimarães, por aí.

Bem verdade que o PSDB parece barata tonta diante dos episódios da política brasileira – não sabe se é ou não, se fica ou não, se vai ou não, se apoia ou não. Em minha opinião, cada vez que FHC fala ou escreve o transtorno político do PSDB se amplia. É um partido-pião – gira, gira, gira e não sai do lugar.

Esta é a verdadeira desgraça da política brasileira. Temos carência de políticos capazes de compreender o momento - e, dele, retirar soluções em meio ao nevoeiro da crise. Um país, mormente um país como o Brasil, não sobrevive em meio a uma crise política que se alimenta, a cada dia, de palpites, boatos, oportunismos, informações deliberadamente tortas, intolerância, covardias, ódios recíprocos. Aparentemente, ninguém está preocupado com os 14 milhões de desempregados, 10 milhões de subempregados, dos jovens que perderam a esperança e investem sua vida na criminalidade, nos 52% da população sem infraestrutura sanitária, nos hospitais aos pandarecos, na educação falida. Nada disso parece preocupar políticos, imprensa, redes sociais. Todos estão interessados em dar exibições explícitas de ódio sob o disfarce de luta político-ideológica. Estamos afundando em meio a uma tempestade – e muitos supõem que estamos voando em céu de brigadeiro. A inconsciência e a alienação são apanágios do brasileiro.

Não sei se as reformas propostas por Temer são essenciais, mas acredito que sem reformas (política, judiciária, da previdência, trabalhista, urbana, entre outras) o Brasil não deslancha. Percebam que não estou defendendo as reformas de Temer – e, sim, reformas. O Brasil vestiu uma espécie de armadura de ferro – mas ela, hoje, impede o crescimento. O Brasil não pode viver eternamente como uma sardinha na lata. Precisa de espaço, de ar, de novas ideias e propostas.

Volto, para concluir, ao ex-presidente FHC. Penso que ele poderia dar enorme contribuição ao apaziguamento da crise brasileira, mas a verdade é que me parece que ele se recusa a fazer isso. Prefere dar entrevistas e escrever artigos que mais confundem os parvos (entre os quais me incluo). Afinal, de que lado está FHC? Do lado do agravamento (ou, vá lá, da perenização) da crise ou da cura da inflamação, que nos impede sair do buraco?

O Velhote do Penedo não é um esperançoso, mas acredita que os políticos e os intelectuais deviam ter vergonha na cara – e pensar naquela metade da população brasileira que está fora dos benefícios da civilização.