O Velhote do Penedo

O Velhote do Penedo
O Velho Professor do Penedo em plena labuta! Vida difícil, esta!

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Brasília não terá eleições. Felizmente.

Aqui na capital, eleições só realizam a cada quatro anos. Mas tenho lido e visto os acontecimentos eleitorais no país, especialmente nas grandes capitais. Afora os atentados, mortes, tiros e outros tantos crimes, como caixa dois, bandalhas variadas nos programas sociais, a baixaria – muitas vezes acobertadas por ideologias confusas e linhas políticas as mais diversas – parece estar sendo a tônica. Amigos do facebook postaram discursos de alguns políticos, de modo que é possível prever o Brasil que vai irromper das próximas eleições: algo entre a porcaria e a desgraça.

Em 1964, Jango Goulart propôs um programa generoso e essencial: as reformas de base, que incluíam a agrária, a urbana, a política, a bancária, a da educação, entre outras. Na mensagem que enviou ao Congresso nos primeiros dias de março de 1964, a fundamentação de cada reforma era explicada – com um detalhe: elas eram justificadas com os olhos voltados para o futuro. Getúlio Vargas e Jango foram os grandes presidentes brasileiros.

Na época, por exemplo, mais da metade da população brasileira, vivia no campo, a maior parte dela nas mais sórdidas condições de trabalho. A ideia da reforma agrária era não só melhorar a vida de milhões de pessoas, como criar um mercado interno e fixar o trabalhador rural no campo. Com o golpe militar, tais propostas viraram fumaça: não se melhorou a condição de vida da população, não se criou um pujante mercado interno e, sobretudo, não se fixou os trabalhadores, que migraram para as cidades, multiplicando o número de favelas. Hoje, com 200 milhões de habitantes, apenas 13% da população vive e trabalha no campo. Não se fez a reforma agrária, mas, em contrapartida, potencializaram-se os problemas urbanos, que a meu ver se tornaram insolúveis.

A necessidade de reformas é tema recorrente no discurso dos políticos, mas como antes nenhuma delas caminha. Os interesses contrários às mudanças são fortes, embora ninguém no Brasil se declare explicitamente contra qualquer tipo de reforma. Todos os políticos são a favor das reformas, embora façam tudo para bloqueá-las.

O pouco que vi provou, mais uma vez, uma coisa: todos os candidatos adoram atacar, valorizar o seu próprio discurso, apresentar-se como defensor do povo. Nenhum deles, contudo, diz como irá fazer, onde encontrará recursos para levar adiante o que diz. Outro dia, vi um candidato a prefeito do Rio de Janeiro falar sobre a mobilidade urbana: enfiou o cacete na situação existente, falou das horas que os trabalhadores perdem dentro de ônibus superlotados, sujos, velhos. Comovente. Ao cabo, disse apenas que iria enfrentar e resolver de vez o problema. Só. Não disse como. E não disse por que não sabe.

Os candidatos a vereador, então, são de doer. A maioria - tenho certeza - não seria aprovada no ENEM. Seriam incapazes de escrever um texto de trinta linhas sobre a cidade onde concorrem. É triste, parece ser piada, mas é real.

O discurso ideológico de alguns candidatos, repletos de clichês, jargões, palavras de ordem, é constante. No fundo, são chavões vazios, que refletem à perfeição o vazio e a escassez de pensamento desses candidatos. Ruins da cabeça eles são, mas são espertos, pois o uso dos chavões permite que cada ouvinte entenda o que quiser. É um discurso oportunista, mas útil, pois, entre outras coisas, substitui termos como “democracia”, que é uma palavra que carrega em si um significado forte e definitivo por bobagens e máscaras como “estado democrático de direito”.

*****

Ontem, ganhei de uma querida amiga o livro “A espiã”, do Paulo Coelho, que conta a história da Mata Hari, a mulher mais desejada de sua época. Folheei – e achei interessante. Vou ler no fim de semana. Um sujeito que já vendeu mais de 210 milhões de livros em mais de 170 países deve ser lido. Uma coisa: não me venham com patrulhamentos.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O breu ideológico

Ontem, meninos e professores do curso médio paulista fizeram uma alegre passeata pela Av. Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo. Protestavam contra o quê? Contra a reforma do curso médio. Eu duvido que os meninos tenham lido o texto da reforma ou saibam do que estão reclamando. Os professores, então, nem se fala. Meninos e professores, cerca de umas 150 almas, estavam ali na doce suposição de estar defendendo uma postura ideológica que sequer conhecem. Como disse Marx, “a ignorância nunca foi útil a ninguém”.

O último IDEB mostrou a triste situação do nosso ensino médio. Há oito milhões de meninos matriculados no ensino médio – e estes obtiveram, em conjunto, nota média de 3,7, quando havia a perspectiva de que ela ficasse entre 4,5 e 5,0, o que, de qualquer modo, seria ainda uma média chinfrim. Não esquecer que há outros três milhões de meninos, com idade de cursar o ensino médio, que estão fora das escolas. É triste, mas aqueles meninos e professores que caminhavam pela Av. Brigadeiro Luiz Antônio estavam, no fundo, defendendo a vergonhosa situação do nosso ensino médio.

Não tenho ilusões sobre o Brasil, inclusive porque estou convicto de que gente como os meninos e professores da Av. Brigadeiro Luiz Antonio desejam que o país permaneça atolado no atraso. Os meninos e os professores sabem que a reforma do ensino média iria exigir muito deles - estudar (os meninos) e se reciclarem (os professores). Eles não querem isso: querem protestar, mas protestar sem direção alguma, sem objetivo nenhum, mas apoiado numa ideologia que desconhecem e em partidos e entidades que se especializaram na mentira e no roubo do dinheiro público.

O Brasil jamais sairá do atoleiro porque lhe faltam forças vitais, compromissos com o bem comum e com o futuro e, principalmente, vontade política e projeto nacional. As chamadas esquerdas – velhas, ultrapassadas, viciadas – recusam-se a pensar o Brasil e o mundo com novos referenciais. As esquerdas limitam-se a repetir clichês dos anos 1940 e 1950 – e a passeata da Av. Luiz Antônio é o exemplo mais recente disso.

Repito: não tenho ilusões sobre o Brasil. Estamos cerca de quarenta anos atrás da Coreia do Sul em matéria de educação. É um hiato que não irá ser superado mediante palavras de ordem, clichês e jargões, sejam eles justos ou não. Temos que ter em mente o seguinte: a cada ano o hiato que nos separa da Coreia do Sul aumenta – o que dá a dimensão exata da urgência que precisamos encarar. Os meninos e professores da Av. Brigadeiro Luiz Antonio melhor fariam se construíssem ideias, propostas e participassem seriamente das discussões a respeito. Mas preferem manter-se na inconsequência, no atraso, no breu ideológico.

Falo e escrevo essas palavras raspando com as unhas o que me restou de crença no Brasil. Fiz muita política na minha vida (não vou detalhá-la), fiz duas graduações (sociologia e geografia), mestrado e doutorado. Dei aulas, escrevi doze livros, capítulos de livro, prefácios e ensaios. Política e estudo, leitura e conhecimento, em minha opinião, não se excluem: se complementam. Outro dia, vi um professor do curso de engenharia afirmar que o primeiro ano do curso é gasto ensinando ao aluno regra de três, que o jovem não aprendeu no curso médio. Absurdo? Não, é a realidade brasileira.

domingo, 25 de setembro de 2016

Temos futuro?


O grande escritor e compositor Nei Lopes, no samba “Dicionário”, de sua autoria e Everson Pessoa, canta uma frase que resume tudo o que eu pretendo escrever: “É preciso cuidado com o que a gente fala/a boca mais sábia é aquela que cala”. Não estou – aviso logo – defendendo a censura, a autocensura ou a paz e o silêncio dos pântanos. Estou defendendo a ponderação, a capacidade de pensar, refletir sobre o objetivo antes de proferir um julgamento, uma avaliação. Pensar é um prazer, alertou Theodore Dalrymple, médico psiquiatra e ensaísta, que, embora seja conservador (não tenho medo de lê-lo e recomendá-lo), discute questões importantes do nosso tempo com originalidade e pertinência.

Hoje, no Brasil, todos falam sobre tudo, tenham ou não conhecimento do assunto. Pior: nos dias atuais, em meio a uma crise provocada pela inépcia petista, em meio a comprovações de corrupção, que envolve partidos políticos (principalmente o PT), empresários, servidores públicos, todos se julgam no direito de dizer o que bem queiram a respeito. Lembro-me que quando o José Dirceu houve uma onda imensa, falou-se em perseguição; hoje, ninguém fala mais no Dirceu – mas, no Lula, que enriqueceu no poder e na rede de montada para servi-lo.

Da universidade brasileira, mantida com dinheiro de um povo espoliado e, em geral, ignorante, vêm as piores avaliações sobre a crise do país, pois eivada de jargões (dos anos 1950), analogias históricas despropositadas, comparações esdrúxulas, comentários sem consistência, abaixo-assinados que ofendem a nossa inteligência. Comentei recentemente um ranking de 500 universidades no mundo, que mostra bem o ponto que as universidades brasileiras chegaram. Todos culpam o governo, os salários, mas raros são os que ferem uma questão essencial: o professorado, a maioria envelhecida, superada, que repetem hoje o que disseram ou ouviram há décadas, quando ainda eram estudantes.

Quando escrevi a “Pequena bibliografia crítica do pensamento social brasileiro”, frequentei muito a Biblioteca da UnB, além das do Senado e da Câmara. Nunca vi um só professor por lá, e, naqueles anos, não havia ainda internet. Sou um leitor voraz – e às vezes ao conversar com professores que encontro, falo de um ou outro autor, do qual o “mestre” jamais ouviu falar. Quando eu estava a escrever “O rebelde esquecido – tempo, vida e obra de Manoel Bomfim”, conversei com dois ilustres mestres (Renato Janine Ribeiro e Leôncio Martins Rodrigues), que sequer sabiam da existência do meu biografado. Vi, outro dia, uma entrevista do ex-presidente (governo Dilma) do IPEA, Jessé de Souza, que me deu vontade de chorar lágrimas de esguicho, como dizia Nelson Rodrigues.

Repito: a maioria dos professores universitários perdeu o bonde – e limita-se a repetir jargões, cacoetes ideológicos, que são de arrepiar. Mais uma vez: as esquerdas precisam se reciclar, repensar seus modelos de interpretação, modernizar-se, não tem sentido ficar repetindo hoje o que se dizia na Albânia, URSS, na Alemanha Oriental, nos anos 1950, como se fossem verdades eternas.

Li, hoje, uma entrevista do mestre Laymert Garcia dos Santos, da Unicamp, que não teve o menor pudor de dizer que “já vivemos um Estado de Exceção semelhante ao nazismo”. Agora vejam: ele deve dizer isto em sala de aula, muitos alunos vão sair por aí repetindo o absurdo (“Foi o Laymert quem disse, sabia?”) e ele, ao se deitar, irá se sentir consciente de que transmitiu um inesquecível ensinamento. Talvez tenha sonhos povoados de anjos. Um inconsciente.

O “Estado de Exceção semelhante ao nazismo”, segundo o mestre, deve-se às ações da Procuradoria Federal e da Justiça, que estão prendendo e investigado ladrões de alto coturno, que o professor Laymert deve admirar, inclusive porque foram capazes de montar uma estrutura de roubalheira imensa, cheia de ramificações. Gente como esse professor deve ser daqueles que, imbuído do seu saber marxista (de galinheiro, como dizia Nelson Rodrigues), acham que o combate à corrupção é coisa de pequeno burguês, de direita.

Além, do Laymert, li um comentário do comentarista Juca Kfouri, que nada de novo tendo a dizer, afirmou: “Mantega não seria capaz de roubar um tostão”. Descobri, afinal, que São Francisco de Assis ressurgiu na pele do Mantega – nós que não aceitamos certas verdades que gente como o Juca está sempre de olho.

Laymert, Juca e Jessé. Meu Deus, temos futuro?

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sobrevivente


Tive sempre grande vontade de escrever romances. Quando eu tinha uns quinze anos, escrevi “O azul do céu”, uma história (tola) que intentava contar a guerra entre duas famílias numa cidadezinha do sertão nordestino. A história era boa, embora ela carecesse de originalidade. Ruim mesmo era o romance. Um dia, pulverizei os originais.

Muitos anos depois, escrevi um romance do qual gosto muito: “Mata do São Francisco”, uma cidade (município) fictícia localizada no baixo São Francisco, entre Penedo e Piaçabuçu. Enviei o romance para um concurso literário, do qual participaram mais de 2.300 trabalhos. Vinte textos foram selecionados, o meu entre eles. Não ganhei, mas fiquei em 8º lugar, segundo fui informado. Bom resultado, sem dúvida - mas não suficiente para o Velhote levar o que, de fato, lhe interessava: os 30 mil reais de prêmio.

Agora, acabo de lançar “Sobrevivente”, pela Verbena Editora, disponível exclusivamente em “e-book”. É o meu 12º livro. A ilustração, ao lado, informa onde se pode adquirir o livro.

“Sobrevivente” seria, tecnicamente, uma “quase autobiografia”, exceto nas partes em que a imaginação e o esquecimento do real dominaram a escrita. Entenderam? Confuso, mas é isto mesmo. É como um muro, onde os tijolos são colados um ao outro por uma argamassa de cimento.

O personagem Vitor – por coincidência, nome do meu neto – viveu intensamente. Quem me conhece saberá separar o que em “Sobrevivente” é memória ou ficção – ou um pouco de uma e outra. Os demais leitores certamente não ficarão indiferentes às peripécias vividas por Vitor.

O título – “Sobrevivente” - não é uma alegoria. Vitor é, de fato, um sobrevivente, um sujeito que enfrentou situações complicadas e difíceis, muitas das quais impostas a ele por circunstâncias históricas e pessoais. Vitor encarou tudo de frente. Valeu a pena?

Espero que os leitores gostem do livro. Foi escrito com emoção, dor e esperança.

sábado, 17 de setembro de 2016

Discurso de Lula foi um delírio


Lula, no seu memorável discurso da última semana, comparou-se a Jesus Cristo, Tiradentes, Getúlio, Jango e JK. Infelizmente, ele não se comparou ao seu – desculpem a palavra – símile na política brasileira: Jânio Quadros. Jânio, como Lula, era alcoólatra; Janio, como Lula, às vezes perdia as estribeiras: era quando os demônios interiores dominavam suas ações e palavras. O cronista Antônio Maria escreveu um dia que Jânio uivava em noites de lua cheia.

No seu discurso da semana, Lula valorizou os políticos corruptos e desqualificou os “concursados”. Claro, ao valorizar os políticos corruptos, Lula estava de olho em si próprio - e naquela gangue que o cercava. Ao desqualificar os concursados, Lula mostrava o seu desprezo pelas pessoas (jovens) que estudaram, gramaram, enfrentaram provas – e saíram vitoriosos. Brizola e Lula tinham algo em comum: vieram de famílias extremamente pobres. Brizola calçou sapato pela primeira vez aos 10 anos de idade. Mas Brizola, embora tenha sido engraxate, carregador de mala em rodoviário, ascensorista, jardineiro, estudou – e conseguiu formar-se. De olhos na sua experiência pessoal, Brizola investiu sua carreira política na valorização da educação. Lula, ao contrário, sempre achou o estudo, a leitura e a busca de conhecimento coisa de gente inútil e desocupada. Esta era a grande diferença entre Brizola e Lula.

Em seu discurso, Lula fez uma observação que devia envergonhar os ditos intelectuais e gente da cultura que o defendem. Disse ele que ninguém no Brasil criou tantas universidades e faculdades no país. Lula não sabe, por que é ignorante, que o que vale é a qualidade do ensino e não a existência de um prédio com a tabuleta de que ali era um estabelecimento de ensino. O que se esperar de uma Universidade Federal dos Cafundós do Judas, se lá não há professores qualificados, não tem biblioteca, laboratórios, auditórios - e os alunos, em geral, são oriundos de um ensino médio de péssima qualidade?

Levantamento recente, divulgado na última semana, mostrou que nenhuma universidade brasileira está na lista das cento e cinquenta melhores do mundo. Mostrou também que a Universidade de Brasília - grande sonho de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira - caiu mais de cem pontos no ranking de 500 universidades no mundo. Valorizar universidades criadas segundo interesses eleitorais – e omitir a realidade das grandes universidades, totalmente decaídas, é próprio dos inconsequentes. Lula é um inconsequente.

O discurso de Lula orbitou em torno de uma mentira. Lula – secundado por seus capangas das redes sociais - afirmou que o procurador Deltan Dallagnol teria dito: “não temos prova, temos convicção”. O que o procurador disse foi o seguinte: “provas são pedaços da realidade, que geram convicção sobre um determinado fato ou hipótese”. Nos devaneios etílicos de Lula, a realidade tem que se ajustar ao que ele pensa ou supõe.

Enfim, Lula fez um discurso para os seus. Cérebros bloqueados por crenças que não se explicam, em geral absorvem tudo, inclusive mentiras e idiotices do “líder”. Uma pena. Os partidos que se autoproclamam de esquerda, conforme mostram as pesquisas, estão agonizantes – levarão uma tunda enorme nas eleições. Tirarão lições da previsível derrota acachapante?

Quando Lula disse que o PT é o maior partido de esquerda da América Latina, pensei: vai ser o partido de esquerda que maior surra eleitoral levou na América Latina. Isto, após ter ocupado a presidência da República.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O discurso de Lula


Como não tenho paciência, vi apenas trechos do discurso de Lula. Lembrou-me os famosos discursos de Jânio Quadros, que, pelo menos, sabia português.

Lula mentiu, tergiversou, desconversou – com o objetivo de politizar a denúncia que foi feita contra ele pelo procurador Deltan Dallagnol. Lula mentiu, por exemplo, quando afirmou que o procurador disse que “não temos prova, temos convicção”. As redes sociais petistas estão espalhando isto, como, semana passada, espalharam que a reforma trabalhista proposta por Temer tinha como objetivo estabelecer carga de trabalho de 12 horas.

O procurador disse que “provas são pedaços da realidade, que geram convicção sobre um determinado fato ou hipótese”. A tradução feita por Lula é um verdadeiro esculacho, próprio de quem convive com a mentira, a torpeza e a enganação – e tem muito que esconder. Lula não respondeu as acusações que lhe foram feitas, que eram específicas: a propriedade do triplex no Guarujá e o pagamento por empreiteiras da guarda das suas tralhas, muitas delas pertencentes à União, que Lula tentou estarrar.

Em momento algum do discurso, Lula falou ou se referiu à crise que hoje penaliza o povo que ele tanto reverenciou. Nada disse sobre o desemprego de quase 13 milhões de brasileiros, que afeta mais de 30 milhões de pessoas. Nada disse sobre o endividamento da população, vítimas do monstruoso modelo “nacional-consumista” que ele implantou e Dilma, sua pupila, exacerbou. Nada disse sobre a carestia, que atinge o comércio – e a aquisição de alimentos pelos pobres. Nada falou da crise imobiliária, da inflação. Falou de um país que só existe nos seus devaneios etílicos.

Não lhe faltou sequer escrúpulo para afirmar que o “PT é o maior partido de esquerda da América Latina”. Boquirroto, comparou-se a Jesus Cristo, Tiradentes, Getúlio Vargas, Jango e Juscelino. Tanto devaneio e tanta impostura só podia mesmo resultar numa frase, onde se percebe a influência da Dilma:

“As pessoas achincalham muito a política, mas a profissão mais honesta é a de político, porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir pra rua e pedir voto”.

 Agora, meus amigos, explica o que Lula quis dizer.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Denúncia


Bem, parece que a coroa do Lula transformou-se em colarinho de palhaço.

Assisti parte da apresentação dos procuradores, mas o que vi deu para o gasto. Lula foi chamado de “comandante de uma quadrilha de criminosos” – ou, se não foi exatamente isto, a coisa beirou algo semelhante.

Vi petistas afirmarem que Temer dera o “golpe” com o objetivo impedir que Dilma levasse adiante o seu maravilhoso governo e com a sinistra intenção de melar o processo da Lava-Jato. O Brasil constatou, hoje, que ninguém será capaz de tumultuar o andamento do processo – e que o PT mergulhou de cabeça na corrupção. E – parece – vai pagar caro por isso. Transformar a denúncia contra Lula num fato político é inócuo, pois as evidências e provas contra ele são taxativas. Mas parece que o PT não vislumbra outra saída para a esparrela em que está enfiado.

O que me parece é que, aos trancos e barrancos, as mazelas do país estão sendo expostas. A população está tomando conhecimento das nossas misérias – e talvez estejam compreendendo que há saídas possíveis, mas estas não são fáceis. Ninguém, nos dias atuais, é capaz de defender o modelo político no qual estamos atolados. Todos querem reformas - profundas ou superficiais -, mas todos, ou a maioria, sabem que elas são essenciais. Minha principal proposta eu já apresentei aqui. Transcrevo:

“Sou favorável a uma nova constituinte, digamos, em 2018, em eleições separadas: os constituintes seriam eleitos apenas com a missão de escrever uma nova constituição, com mandato de até dois anos. A nova constituição seria votada e aprovada pelo Congresso, que teria seis meses para tanto. Defendo o parlamentarismo, o fim das coligações, o fim do foro privilegiado, o voto distrital misto, regras que limitem o número de partidos, entre outras coisas. A reformulação institucional no Brasil deve ser profunda”.

Como se sabe em Brasília não há eleições este ano. Não tenho, portanto, condições de comentar o “clima”, mas andei vendo pesquisas (para prefeito) em algumas capitais. A esquerda está sendo engolida, mormente o Psol e o PT (se é que ambos sejam, de fato, partidos de esquerda). Vejo nisso duas origens: os desgovernos petistas e os equívocos das esquerdas, que não conseguem fazer um discurso moderno, atualizado, limitando a repetir o jargão, os clichês e as palavras de ordem do passado, os mesmos que o Velhote do Penedo cansou de ouvir e repetir nos anos 1960.

Então, além da reconstrução econômica, há duas missões pela frente: redefinir a esquerda, construindo um discurso moderno sobre o Brasil e o mundo; reconstruir o cenário institucional, o que, a meu ver, tem como premissa uma constituinte. A constituição de 1988 reflete, sobretudo, a euforia da redemocratização; o que lhe faltou foi um olhar firme sobre o futuro, daí as sucessivas crises políticas que atravessamos.

Tudo está a ser reconstruído no Brasil: a educação, a saúde, os diversos sistemas infraestruturais, a mobilidade urbana. Temos quase 13 milhões de desempregados, o que significa mais de 35 milhões de pessoas afetadas. Dois milhões de pessoas deixaram de pagar planos de saúde, e o SUS transformou-se numa tremenda porcaria. Mais de 70% das famílias brasileiras, que embarcaram no “nacional-consumismo” da Dilma, estão endividadas – e não têm como resolver este problema. As vendas comerciais despencaram, a participação do setor industrial no PIB caiu, brutalmente, e evidencia, hoje, algo semelhante ao da década de 1940. O mercado imobiliário desmoronou - como mostrou recente matéria publicada na revista Exame.

Ontem, em Copacabana, mais de cem adolescentes e crianças provocaram um inacreditável arrastão, que assombrou moradores e turistas. Por que estes jovens não estão na escola? São jovens que não têm futuro – e, por isso mesmo, é trágico que os políticos, mormente os que se dizem de esquerda, nada façam, nada proponham, nada digam a respeito disso. Tenho, em meu poder, dado pelo Darcy Ribeiro, o projeto do CIEPs – e um dos seus objetivos era justamente tirar as crianças e adolescentes das ruas, afora proporcionar a eles um ensino de qualidade, alimentação, tratamento médico-odontológico (extensivo à sua família). O projeto dos CIEPs seria de longo prazo, mas ele foi selvagemente atacado por donos das escolas privadas e, surpreendentemente, pelo PT. Lembro-me de uma frase do Lula a respeito dos CIEPs: “Pobre não precisa estudar em hotel de cinco estrelas”.

O Brasil fez uma opção pelo atraso. Agora mesmo, no instante em que concluo este texto, Lula está falando – e informou a nós outros que ele – ele! – “criou o mais importante partido de esquerda do Brasil”. Encerro reafirmando que a esquerda, não a esquerda do espertalhão petista, precisa se repensar.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Do puxa-saquismo ao atraso da esquerda brasileira


Depois que o Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia, afirmou que Dilma era uma pessoa extraordinariamente culta e que falava latim com perfeição – cheguei à conclusão que: 1) o puxa-saquismo não tem limites; 2) o senso de ridículo tornou-se raro no Brasil.

As esquerdas velhas e superadas acrescentaram ao “fora, Temer!” a exigência de “eleições diretas já”, como se a história, mesmo como farsa, pudesse se repetir. Não pode. A campanha das “diretas, já”, em 1983-1984, uniu todos os partidos, tínhamos grandes lideranças civis engajadas, governadores dos estados de Minas, Rio e São Paulo se uniram, a população estava praticamente unida em torno desse objetivo. Nada semelhante ao que ocorre hoje.

É triste e, ao mesmo tempo, constrangedor constatar que amigos meus, gente que respeito e afianço, estejam embarcando nessa canoa furada, própria de um partido, o PT, e das organizações a ele vinculadas, que perderam o discurso, a compostura e a dignidade. As eleições desse ano mostrarão o quanto o PT murchou no Brasil – e o quanto a população perdeu a fé e a crença na política e nos políticos. Será uma lição, sem dúvida, que ninguém levará em conta.

Sou favorável a uma nova constituinte, digamos, em 2018, em eleições separadas: os constituintes seriam eleitos apenas com a missão de escrever uma nova constituição, com mandato de até dois anos. A nova constituição seria votada e aprovada pela Câmara dos Deputados, que teriam seis meses para tanto. Defendo o parlamentarismo, o fim das coligações, o fim do foro privilegiado, o voto distrital misto, entre outras coisas. A reformulação institucional no Brasil deve ser profunda.

O Brasil precisa de estabilidade – e de busca de solução dos problemas que aí estão. Vou afirmar algo que julgo ousado: não espero que essa busca de solução seja coerente com o que penso e julgo melhor para o Brasil, política e ideologicamente falando. Não tenho, hoje, mais certeza sobre nada. Na minha idade, certeza é algo que não cola mais. Olho tudo caso a caso, fato a fato – e nada mais. Estou lendo o livro “Quando os fatos mudam”, de Tony Judt, cuja epigrafe, de Albert Camus, diz tudo: “Tudo o que posso dizer é que existem pragas e existem vítimas – e devemos fazer o possível para nos recusar a ficar do lado da praga”.

Acho insensatez e desumanidade discutirmos embasamentos político-ideológicos quando 13 milhões de brasileiros estão desempregados. São 30 a 35 milhões de pessoas afetadas com a crise do emprego, que tende a aumentar. E não só isso. 68% das famílias brasileiras estão endividadas – vítimas do bizarro “nacional-consumismo” inventado pelos governos petistas. A inflação aí está. Os juros dispararam. A carestia está incontrolável.

Defendo – e tenho escrito aqui – que a esquerda precisa se repensar. A esquerda ainda usa os mesmos clichês dos anos 1960. As esquerdas – e os mestres e doutores da nossa academia – não conhecem o Brasil, não conseguem compreender por que o Brasil deu no que deu, ninguém escreve ou fala sobre a realidade brasileira, sem recorrer, como verdades absolutas, a autores da década de 1930. Não estou desprezando as contribuições de Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Oliveira Lima, Gilberto Freyre, entre tantos outros. Afirmo que hoje não temos mais gente como os citados. Recuso-me a pensar que Feghalli, Gleisi, Lindenberg, Fátima sei lá o quê, Boulos, Stédile, Molon, Erundina, Emir Sader, para citar alguns apenas, formem a nossa gloriosa esquerda. Prefiro o exército do Brancaleone.

A universidade brasileira, no campo das ciências sociais, sempre viveu à luz dos autores estrangeiros da moda. Houve um tempo que todos carregavam no sovaco os livros de Althusser. Um dia, porém, Althusser foi substituído (hoje ninguém fala nele): surgiram então Marcuse, Foucault, Habermas, Adorno, Bourdieu e Boaventura dos Santos, não necessariamente nessa ordem. Escreveu-se, na academia, sobre tudo, menos sobre o Brasil. Pegava mal escrever sobre o Brasil – parece. Darcy Ribeiro talvez tenha sido o único pensador social a pensar e escrever sistematicamente sobre o Brasil. É pouco.

A verdade é que os acadêmicos brasileiros pensam clichês manjados. Ontem, domingo, 11 de setembro, tentei acompanhar a entrevista de Jessé de Souza ao jornalista Moreno. Desisti no instante que o espírito petista, misto de Lindenberg e da Chauí, baixou no Jessé e ele, despudoradamente, falou na classe média – branca, alienada, de direita, que não aceitava a ascensão do negro pobre. O que fazer? Depois do ataque às Torres Gêmeas e do Golpe Militar contra Allende, a entrevista do Jessé será o marco brasileiro do 11 de setembro.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Diretas já", não! "Constituinte já", sim!


Recebi inúmeras mensagens sobre as manifestações “fora Temer”. Não vi nenhuma manifestação “volta Dilma”. Mas isto é um detalhe. Os manifestantes são equivocados, mas não são loucos.

Vi candidatos a prefeito e vereador em meio ao povo, como o patético Suplicy, que, para não passar em branco, teve a carteira batida. Deve ter concluído que o punguista que levou os seus caraminguás deve ser um fascista disfarçado. O fato é que Suplicy sempre faz das suas: desde deitar-se no chão e sair carregado como se fosse (ele próprio) um ataúde, como ser tungado em meio a uma garotada que não estuda, não pensa e não sabe o que diz - cujos palpites são sempre infelizes. Sou um permanente saudoso de Noel. Desculpem.

Muitos amigos que sinceramente respeito e admiro, admitem que esse é o momento exato de pedir “diretas já”. Impossível. Nenhum dos três grandes partidos – PT, PSDB e PMDB – por razões diversas vão defender esta causa. O PT saiu do episódio do impeachment muito queimado e foi levado à UTI, onde lambe suas feridas, que são muitas. O PT, que levará uma tunda nas próximas eleições, sabe que perderia qualquer corrida presidencial, cabendo-lhe papel subsidiário no processo. PSDB tem uns cinco possíveis candidatos – e a defesa de eleições diretas produziria o esfacelamento do partido, que, pior ainda, não tem uma ideia clara do que faria na presidência. O PMDB é, hoje, o menos interessado nessa história de “diretas, já”. Como dizia brincando o meu velho mestre Manuel Maurício, as “tais massas” não teriam condições de levar o processo sem os partidos.

A versão 1983-1984 (das Diretas já) aconteceu numa conjuntura muito própria: todos os partidos, da direita à esquerda estavam unidos, governadores de estados vitais, como Brizola, Tancredo e Montoro, se engajaram, lideranças como Covas, Ulisses, Richa, entre outros, lideranças e nomes civis (Sobral Pinto, Faoro) estavam à frente do movimento. Teríamos, nos dias atuais, gente desse quilate? Comparem: o governador do Rio de Janeiro, além de gagá, mal consegue pagar os funcionários; o de Minas vive acuado pelo Lava Jato; o de São Paulo, bem, é uma lástima. O inimigo era um só, as eleições indiretas e o estertor da ditadura, o que facilitou a união dos partidos.

Claro, o Brasil está num beco sem saída. Comparo o legado petista à destruição da Síria. Agora mesmo vi que a Polícia Federal desencadeou uma operação contra fraudes nos quatro maiores fundos de pensão. Por isso, acho, no mínimo, curioso um conhecido meu me informar que o governo Temer é corrupto. Acho que esse amigo meu, que admiro, está sofrendo de demência senil, pois alterna risos, frases desconexas e raciocínios claros. A confusão mental é grave – e em geral desemboca no uivo final. Bem verdade que ninguém está livre disso. Mas isto é outra história.

Melhor que “Diretas já” talvez fosse melhor defender “Constituinte já”, além de mudanças de uma legislação superada, contraditória e equivocada. A mobilização tinha que ser nesse sentido, estabelecendo novas e modernas regras e leis voltadas para a vida política brasileira, cujos escombros são visíveis. A pressão popular tem que ser nesse sentido, embora as dificuldades sejam muitas e grandes.

Nota necessária:

Ouvi, gravei e transcrevo as palavras de uma militante petista, muito bonitinha (desculpe o escorregão machista): “Luto contra a direita porque sou de esquerda. Eles não são como a gente, porque nós somos de esquerda e eles são de direita. Somos de esquerda porque lutamos ao lado do povo. Eles odeiam o povo. Nós amamos o povo”. Tal ideário faria Lindenberg chorar de emoção. Eu, na idade da menina, militava na Polop, participava de grupos de estudo da obra de Marx – e já tinha lido obras máximas da literatura mundial e brasileira. Digo isto não para me valorizar, nem para desvalorizar a jovem, mas para dizer a todos que o meu lema de vida veio de uma música do Paulinho da Viola, com quem – criança - joguei pelada nas ruas Fernando Guimarães: “a vida não é só isso que se vê – é um pouco mais”. Esse pouco mais é o que falta à maioria dos manifestantes petistas.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Uma trampa é uma trampa, é uma trampa, é uma trampa


Ter nascido no Brasil é um fardo que todos os brasileiros conscientes carregam com enorme e resignado estoicismo. Todos os dias somos postos à prova – e somos sistematicamente reprovados. Não somos uma nação: somos um aglomerado de criaturas que fingem se levar a sério. Quem explica?

Eu, de minha parte, confesso que abandonei todas as minhas certezas a respeito, o que me leva a afirmar que o brasileiro é, antes de tudo, um ente inexplicável. Tenho amigos, mas os aceito como eles são – como espero que eles me aceitem como eu sou. Mas meu assunto é o Brasil. E falar do Brasil é um exercício perigoso. E, talvez, inútil. Mas, assim mesmo, vamos lá.

Como esperado, Dilma foi afastada da Presidência. Tenho pena dela: não por razões cristãs ou humanistas, mas por sua absoluta incapacidade de compreender quem é, quais são suas limitações e, sobretudo, em que mundo ela vive e transita. Em síntese, a inconsciência da Dilma me causa pasmo e pena. Estou esperando que um analista faça, um dia, o retrato psicológico da Dilma. Talvez tenhamos muitas surpresas. Será Dilma, por exemplo, uma ET desgarrada?

Dilma sofreu impeachment, mas não perdeu o direito de exercer funções públicas. Os comentaristas estão usando a palavra “fatiamento” da Constituição para explicar o que aconteceu. Meu objetivo, hoje, é discutir o tema.

O artigo 52 da Constituição diz:

“Compete privativamente ao Senado Federal”: “(...) I – processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República nos crimes de responsabilidade e os Ministros de Estado nos crimes da mesma natureza conexos com aqueles; (...) Parágrafo único – Nos casos previstos nos incisos I e II, funcionará como Presidente o do Supremo Tribunal Federal, limitando-se a condenação, que somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do cargo, ‘com’ inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis”.

Notem bem: a palavra-chave do texto do parágrafo único é a preposição “com”. O que ela significa? Fui buscar o significado da preposição “com” na “Gramática da língua portuguesa”, do mestre Evanildo Bechara, livro que o Velhote do Penedo consulta sistematicamente. Mostra o professor Bechara que a preposição “com” transmite a ideia de “concomitância positiva”. A “concomitância negativa” seria construída pela preposição “sem”, oposta à preposição “com”.

Se o parágrafo único do artigo 52 da Constituição diz “(...) à perda do cargo, ‘com’ inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública”, não cabe a menor dúvida: perda do cargo e inabilitação são, como diria o professor Bechara, concomitantes, ou seja, “que acompanha; que se manifesta simultaneamente com outro”, conforme ensina o “Dicionário da língua portuguesa”, da Academia Brasileira de Letras.

Cuidei, até agora, apenas do fato gramatical, que o ministro Lewandovski esgrimiu com absoluta inépcia, secundado por Renan Soares e pelos 42 senadores que votaram a favor do fatiamento – entre os quais se inclui, para minha vergonha, o meu amigo Cristovam Buarque. O Velhote e o Cristovam somos, além de amigos, escritores: logo, temos que respeitar as palavras, que são nossos instrumentos de trabalho. Cristovam deu um pontapé na língua portuguesa – em nome de quê? Lamento, mas como disse antes aceito os meus amigos como eles são.

Claro, há o fato jurídico. O fatiamento foi pedido, durante a sessão do Senado, pelo PT – sob a forma de questão de ordem. O fatiamento, tal como foi feito, representou uma reforma da Constituição (ou emenda à Constituição), o que é do ponto de vista jurídico uma aberração. Fez-se uma reforma constitucional com base numa questão de ordem. Explico.

Segundo o artigo 60 da Constituição, as emendas constitucionais devem ser propostas por “um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal”. As emendas serão discutidas e votadas em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, considerando-se aprovada se obtiver, em ambos os turnos, “três quintos dos votos dos respectivos membros”.

Portanto, a Constituição brasileira foi emendada - sob o beneplácito do ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandovski, e do presidente do Senado, Renan Calheiros -, pelo voto exclusivo de 42 senadores, em votação única. Uma violência constitucional, que mostra até onde chega o desmazelo, a anarquia e a irresponsabilidade da estrutura jurídica do país.

Mas o ministro Lewandovski, o senador Renan Calheiros e o PT não me decepcionaram – eu poderia até dizer que não esperava deles outra coisa. Quem me decepcionou foi o senador Cristovam Buarque, meu amigo, que votou favoravelmente à excrescência jurídica. Ele não tinha o direito de fazer isto. E não me venham com tentativas de explicação humanista. Ter pena de Dilma é uma coisa, que não deve se contrapor à ordem jurídica.

Mas, claro, a trampa tinha dois objetivos perfeitos e claros: abrir espaço para a Dilma se cevar e, principalmente, livrar a cara do deputado Eduardo Cunha, que, se for cassado, poderá concorrer às eleições de 2018, voltando gloriosamente à Câmara dos Deputados. Uma farsa grotesca.

Não vou mais me estender. Tudo está bem explicado. Por tudo que eu disse aqui, repito: ser brasileiro é viver em permanente sofrimento, enfado e tédio. Às vezes me ponho a pensar: por que eu não nasci na Groenlândia? Minha saída é ir morar em Penedo, às margens plácidas e agonizantes do Velho Chico, onde minhas cinzas, um dia, repousarão.