Por do sol em Penedo

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terça-feira, 18 de agosto de 2015

A incapacidade de entendermos o que se passa no Brasil


Nada vai dar certo

Vivi uma época em que os jovens ou eram engajados ou alienados; revolucionários ou acomodados; de esquerda ou de direita. Não existiam, na visão tosca da época, mediações. O mundo ou era branco ou preto – não existia o cinzento, muito menos os seus matizes.

Lembro-me que o povão dividia-se em preferências, que às vezes produziam xingos e tapas: os que amavam Emilinha Borba e os fãs da Marlene. Flamengo ou Fluminense. Vasco ou Flamengo – e, conforme os estados, Internacional ou Grêmio, Atlético ou Cruzeiro, Bahia ou Vitória. Corinthians ou São Paulo. Bossa Nova ou Jovem Guarda – não havia escapatória. Hoje, mais velhos, mas ainda sem juízo, reincidimos nesse tipo de análise, que, felizmente, não mais apelidamos de dialética, termo que, parece, caiu em desuso, para alegria de Hegel, Marx e Engels.

No Brasil de hoje, século XXI, continuamos a velha cantilena. Os intelectuais, oriundos daquela época, repetem as dicotomias, direita ou esquerda, manifestações de direita e manifestações de esquerda, os de lá e os de cá. Nada mudou, nem m esmo a arrogância.

As universidades brasileiras, destroçadas, que sequer têm vaga entre as cem melhores do mundo, informam, através de seus agregados, professores, mestres e doutores, que estão ali produzindo conhecimento – isto mesmo, produzindo conhecimento! Pretensão típica de país de Terceiro Mundo. O que não é de se espanta: afinal, não temos teólogos, filósofos e tantos outros doutores e sabichões, que escrevem sempre para os mesmos leitores embasbacados?

Tantos os intelectuais quanto os doutores universitários são incapazes de explicar mínima e logicamente o Brasil. Repetem, apenas, a velha cantilena dos anos 1960. Temos um belo futuro pela frente. O oportunista e delator Regis Debray veio, semana passada, ao Brasil, foi cultuado, apesar das besteiras que disse. Ah, sessão nostalgia! Esse mesmo francês, nos anos 1960, escreveu um livro sobre revolução, que todos os jovens leram e ficaram extasiados. O livro de Debray nos ensinou nada mais que o caminho mais rápido do buraco, que nos custou fracassos e mortes.

O Brasil está atolado: quando vejo a foto da corja do PMDB, tendo entre eles o Lula, me lembro das fotos do Politburo soviético. Estamos mal. Hoje, o temário é avaliar quantas pessoas foram à rua no último domingo e quem eram eles. Notável pauta! Alguém disse: poucas pessoas, meros eleitores do Aécio. Pronto, a análise foi feita, como se fosse um veredicto. Umas idiotas ostentaram cartazes nazistas, coisa tipicamente montada e plantada pelos que queriam melar as manifestações, mas os intelectuais detectam aí o grande perigo: a direita vem aí, gente, como se os aliados do PT (e o próprio, tirante o discurso, é claro) não fossem de direita.
 
O Velhote do Penedo para por aqui. Afinal, de que adianta escrever tudo isso? Como vi e ouvi num filme brasileiro: “Não se preocupe: nada vai dar certo”.
 
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Recebi uma mensagem onde o amigo diz: "Admito que as manifestações era eclética, mas inegavelmente foi puxada pela direita". Minha resposta: "Concordo, mas isto devido ao fracasso da esquerda. Ou não houve fracasso?".
 
O desenho de Escher, abaixo, simboliza o enigma brasileiro: nunca saímos do lugar.

domingo, 16 de agosto de 2015

"Suicidas" é um livraço


O romance policial vive

Enfim, um jovem escritor que não deseja ser Saramago.

Falo de Raphael Montes, autor de “Suicidas”, um magnífico romance policial, gênero que nos deu poucos grandes escritores. Cito três deles: Luiz Lopes Coelho, Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza.

O surpreendente é que Raphael Montes tinha 22 anos quando escreveu as 487 páginas que conta a maneira como nove jovens, universitários da elite carioca, resolveram praticar uma roleta-russa.

“Suicidas” reúne os ingredientes próprios do grande romance policial: mistério, lógica, diálogos e monólogos densos, entrechoque de sentimentos e crime. Tudo isso, no essencial, se mistura no porão de uma casa de ricaços, pais de um dos suicidas, cenário da roleta-russa. Mas isto não é nem resume tudo.

Raphael Montes inova as técnicas tradicionais do romance policial, cujo desenvolvimento, em geral, é linear: os personagens, a complicação, o crime, as investigações, o desfecho. Em “Delícias do crime”, Ernest Mandel destaca que o padrão clássico do romance policial é uma sequência de sete passos criada pela primeira vez por Edgar Allan Poe e Conan Doyle, o problema, a solução inicial, a complicação, o estágio da confusão, as primeiras luzes, a solução e a explicação. Em “Assassinato no Expresso Oriente”, Agatha Christie, reduz a sequência, mostrando, primeiro, a complicação e o crime, depois os personagens (testemunhos) e, por fim, a elucidação, ou melhor, duas soluções para o crime, empurrando a conclusão final para o leitor, tal como faz em “O caso dos dez negrinhos”. Não é por outro motivo que, segundo Deutscher, Agatha Christie é chamada de “rainha da impostura”, pois, como acentuou S. S. Van Dine, em “As vinte regras do romance policial”, o autor deve “jogar limpo” com o leitor, ou seja, não recorrer a truques baratos. Mas, voltemos ao livro de Raphael Montes.

“Suicidas” mistura um debate difícil entre as mães dos suicidas, um ano após a roleta-russa, ocasião em que uma policial lê as anotações feitas por um dos jovens. Em capítulos alternados, o romance pula das discussões entre as mães, onde todas se acusam, aos acontecimentos dramáticos vividos pelos jovens, que também se culpam, se conflitam - e se matam. O final é inesperado – e eu, que gosto de ler romances policiais (não são diversões escapistas!), confesso que fui surpreendido. Gostosamente surpreendido.

O romance de Montes não é político – e, como tal não discute as desigualdades sociais, a crise do Oriente Médio ou a inflação. Contudo, como bem demonstrou E. Durkheim, o suicídio é um fato social, e como tal deve ser analisado e interpretado. Em os “Suicidas”, o social emerge sub-repticiamente quando mostra nove jovens, de ambos os sexos, universitários e com uma vida pela frente, decidirem deixar de viver num mundo que eles, sem o dizer de forma clara, não suportam, inclusive porque não o entendem.

Em “O mito de Sísifo”, Albert Camus observou que “só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio”. Os jovens de “Suicidas” não tinham motivos plausíveis para buscar a morte, mas resolveram se matar pelo simples fato de que a vida não merecia ser vivida – ponto. Claro, eles não discutem filosofia nem sociologia – eles, simplesmente, vão se matando, assumem seus desesperos e praticam, entre si, atos torpes, como a cena em que um dos rapazes estupra uma moça que acabara de enfiar uma bala na cabeça. Usei a palavra torpe, mas explico: o rapaz amava a moça, que sempre lhe desprezara e humilhara. Ao vê-la morta, ele a penetra – e depois também se mata.

Entre aqueles jovens não há, portanto, compaixão, medo ou arrependimento. Não creem em mais nada. Estão nervosa e tensamente resignados, embora em alguns momentos hesitantes.

“Suicidas” é um grande livro, muito bem escrito e que revelou um mestre. “Suicidas” me impressionou tanto (e me deu tal satisfação), que, após sua leitura, corri à livraria e adquiri outro livro de Raphael Montes, que já comecei a ler, encantado: “Dias perfeitos”.

Enfim, um escritor com régua e compassos próprios.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Dilma já era, meus leitores

Golpe contra Dilma

Enquanto os meus amigos petistas repetem a cantilena do golpe, desejo informar a todos que o golpe já foi dado ou, quando muito, está em curso. E não foi a direita, nem os petistas e esquerdistas desiludidos. Quem deu o golpe foi o PMDB, com o apoio do Lula. Fantasia? Acompanhem o raciocínio do Velhote do Penedo.

O PMDB deu golpe, articulando um triunvirato que assumiu praticamente o governo: Levy-Temer-Renan. Lula, é claro, está por trás disso, fazendo o s...eu jogo, que é sempre a seu favor. Lula não tem compromisso com ninguém ou com nada: só com ele. Mas isto é outra história.

O triunvirato, ao mesmo tempo que governa e dita os rumos do governo, está tramando a renúncia de Dilma, cujo desgaste é definitivo. Não sei se Dilma compactua com a trama, mas isto não importa. Quem governa hoje o Brasil é o triunvirato. Se Dilma sair, o movimento de massa contra o governo sofrerá irremediável esvaziamento, dando ao triunvirato tempo para implantar uma reforma conservadora e liberal.


E tem mais: não pensem que Eduardo Cunha está fora da trama. Ele é o cara escalado para desgastar Dilma – e, sobretudo, mantê-la desgastada, sangrando.
Toda essa coisa tem que ser rápida, pois, tanto Renan como Cunha, foram indiciados no Lava-jato – e uma das maneiras que eles imaginam se livrar do processo é chegar ao poder. A manipulação seria mais fácil e mais eficiente.


 Os próximos dias serão decisivos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Livro: produto de primeira necessidade


Fim das livrarias?

Leio na revista Piauí – 107, agosto, uma matéria sobre a livraria Leonardo da Vinci, que está em vias de cerrar suas portas.

Trata-se de reportagem, no mínimo, aterrorizante, pois talvez revele uma triste tendência. Deu n’O Globo, há uns quinze dias que o último sebo da Praça Tiradentes encontra-se na mesma situação da livraria Leonardo da Vinci. Aliás, na última vez que fui ao Rio, descobri que os sebos da Rua da Carioca (eram três) já fecharam. Outro, na Rua do Carmo, idem. Efeitos da crise? Talvez, principalmente se a eles somarmos o desinteresse do brasileiro pela leitura. Não há quem resista à equação: poucos leitores – crise econômica.

Tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido e escrevo livros, considero livro produto de primeira necessidade – por isso a reportagem da Piauí me causou profunda emoção. O pior é que não acredito que os chamados e-books venham a substituir os livros tradicionais, impressos e de papel. Claro, os e-books terão leitores, porém em número menor que o escasso número de leitores de livros existentes hoje. Quantos dos que me leem agora já leram um e-book de cabo a rabo? Poucos, pouquíssimos.

O Brasil não possui, uma política para o livro, que tivesse, entre outros objetivos, favorecer a produção de livros, garantir apoio às livrarias, além, é claro, de estimular a leitura, pois essa é uma das funções das escolas públicas e privadas. Bem verdade, que, em 1937, o ministro da Educação Gustavo Capanema criou o Serviço Nacional do Livro, que publicou livros e revistas, tendo orientado as decisões no plano da política educacional brasileira. O SNL foi esvaziado durante a ditadura militar e extinto em 1990, façanha de Fernando Collor.

Como não existe uma política para o livro e como a leitura não é habito do brasileiro, o fechamento de livrarias (e de editoras, mas isto é outra história) é inevitável. Dolorosamente inevitável. O que fazer? Não sei. Espero apenas não assistir o fechamento da última livraria.

Na última vez que estive na leitura Leonardo da Vinci comprei o livro “Vida ociosa”, de Godofredo Rangel, um escritor magnífico, embora esquecido. Sobre “Vida ociosa”, disse Monteiro Lobato: “É o único livro nosso que, embora de gênero diverso, pode ser colocado numa estante entre Brás Cubas e Dom Casmurro”. Procurem e leiam. Vale a pena.

O Velhote do Penedo espera que haja um milagre ou que surja um mecenas, que garanta sobrevida à livraria Leonardo da Vinci. E aos sebos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

De líder estudantil à prisão como corrupto


Melancólico!

O Velhote do Penedo sente, sinceramente, enorme tristeza quando vê um sujeito, como José Dirceu, ser preso por corrupção e enriquecimento ilícito.

Eu era estudante, no Rio e em São Paulo, no período 65-68, e participei de várias passeatas lideradas por Dirceu – na verdade, não só ele. Eu o admirava. Lembro-me de uma passeata que teve início da Praça da República, seguiu pelas avenidas Ipiranga e São João e, lá, mais ou menos, na altura do Largo do Paissandu, baixou a repressão, que bateu, prendeu e esbordoou estudantes.

A passeata era uma resposta estudantil à morte de um menino durante a chamada Batalha da Maria Antônio. Na Rua Maria Antonia funcionavam os cursos de ciências sociais, humanas e letras, da USP. Eu estava lá, e vi o estudante secundarista José Carlos Guimarães levar um tiro no peito e morrer. O tiro veio da Universidade Mackenzie, onde se encastelava o CCC – Comando de Caça aos Comunistas.

Não esqueço esse passado – e lamento que, tantos anos depois, José Dirceu tenha se tornado, como diz a imprensa, o organizador da estrutura de corrupção no país, que, como se sabe, inclui o Mensalão, o Petrolão e Eletrolão. É melancólico. Não sou petista, mas acho que o PT encontra-se, perdoem o lugar comum, numa encruzilhada.

Quem, um dia, escreverá a biografia de José Dirceu? Mas uma biografia séria, que mostre todas as nuances de uma personalidade complexa. Não sei. Os sentimentos estão à flor da pele – e não creio que num cenário como o atual do Brasil haja quem possa escrever sobre Dirceu com isenção.

E o Brasil segue o seu sofrido destino.