O Velhote do Penedo

O Velhote do Penedo
O Velho Professor do Penedo em plena labuta! Vida difícil, esta!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Dos Paraísos à Música do Grande Noel



Paraísos fiscais e a privataria tucana



Escrito por Altamiro Borges
Terça, 24 de Julho de 2012
O Brasil é o quarto país do mundo em recursos desviados para os paraísos fiscais. A conclusão é de uma pesquisa encomendada pela organização Tax Justice Network, que comprova que de US$ 21 trilhões a US$ 32 trilhões sumiram de seus países de origem em ações para sonegar impostos e lavar dinheiro oriundo da corrupção, do tráfico e de outros crimes. O valor deste roubo da elite dos super-ricos equivale ao tamanho das economias somadas dos EUA e do Japão.
O roubo dos super-ricos
O estudo listou os 20 países onde há maior remessa de recursos para os paraísos fiscais. No topo está a China, com US$ 1,1 trilhão, seguida por Rússia (US$ 798 bilhões), Coréia do Sul (US$ 798 bilhões) e Brasil (US$ 520 bilhões - mais de R$ 1 trilhão). A pesquisa, feita com base nos dados do Banco de Compensações Internacionais, do Banco Mundial, do FMI e dos governos locais, trata apenas da riqueza financeira depositada nas contas dos paraísos fiscais. Bens como imóveis e iates não foram contabilizados.
Segundo reportagem da BBC, “o relatório surge em meio à crescente preocupação pública e política sobre fraude e evasão fiscal”. Para James Henry, responsável pelo estudo, “as receitas fiscais perdidas são enormes. Grandes o suficiente para fazer uma diferença significativa nas finanças de muitos países”. John Christensen, diretor da Tax Justice Network, observa que o dinheiro sonegado pelos super-ricos é “mais do que suficiente para manter os serviços públicos e erradicar a pobreza nestes países”.
Ricaços sonegam os impostos
O estudo constatou que apenas 100 mil ricaços, no universo de 139 países pesquisados, formam a elite mundial dos sonegadores com dinheiro desviado para offshores. Ele também comprovou que 50 bancos privados movimentaram US$ 12,1 trilhões nestas operações criminosas, com destaque para gigantes como UBS, Credit Suisse, Goldman Sachs, JP Morgan e Citibank. A pesquisa inédita não dá nome aos bois, mas serve para desmascarar alguns discursos das elites e dá pistas para novas investigações.
“As elites fazem muito barulho sobre os impostos cobrados delas, mas não gostam de pagar impostos. No caso do Brasil, quando vejo os ricos brasileiros reclamando de impostos, só posso crer que estão blefando. Porque eles remetem dinheiro para paraísos fiscais há muito tempo”, comenta John Christensen. Diante dessa roubalheira dos ricaços, a recente campanha da mídia privada sobre a inadimplência dos pequenos consumidores brasileiros parece piada ou pura provocação.
Maluf e a turma do José Serra
Com a divulgação da pesquisa da Tax Justice Network, entidade que luta contra os paraísos fiscais, a imprensa nativa apontou seu dedo contra o ex-prefeito Paulo Maluf. Por razões puramente eleitoreiras, ela descobriu que Maluf é Maluf! De fato, o ex-prefeito deve ser investigado e punido por sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Na semana passada, surgiram novos indícios de que ele mantém recursos nas Ilhas Jersey, famoso paraíso fiscal. Caso fosse séria, porém, a mídia deveria seguir outras pistas da pesquisa.
Uma boa dica é o livro “A privataria tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr. A obra, que a mídia tentou sabotar, apresenta farta documentação sobre as fortunas desviadas para os paraísos fiscais no processo de privatização no reinado de FHC. Ela inclusive dá nome aos bois e até o número das contas nas Ilhas Virgens Britânicas. Entre os nomes citados: Verônica Serra, filha do tucano José Serra; Alexandre Bourgeois, genro do tucano José Serra; e Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro do tucano José Serra.
Dos US$ 520 bilhões remetidos do Brasil para os paraísos fiscais, qual será o montante que esta turma bicuda desviou?
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A poesia de Noel

Nos últimos, o Velhote do Penedo desligou a televisão e, entre leituras e músicas, concentrou sua atenção em Noel Rosa, o grande Noel da Vila. E resolveu transmitir aos amigos um pouco da sua poesai, tão simples e tão bela. Há coisa mais bonita e, ao mesmo tempo, singela que o refrão de Camisa amarela? “Quando eu morrer/não quero choro nem vela/quero uma fita amarela/gravada com o nome dela”? Pois é: não há.

Feitio de oração, de Noel Rosa.

Batuque é um privilégio,

Ninguém aprende samba no colégio.

Feitiço da Vila, de Noel Rosa e Vadico.

O Sol na Vila é triste.

Palpite infeliz, de Noel Rosa.

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo.

Ao som do samba dança até o arvoredo.

Quem ri melhor, de Noel Rosa.

Sabendo disso eu não quero rir primeiro,

Pois o feitiço vira contra o feiticeiro.

O X do problema, de Noel Rosa.

Palmeira do Mangue

Não nasce nas areias de Copacabana.

As Pastorinhas, de Noel Rosa e Braguinha.

Tu não me sais da lembrança

Meu coração não se cansa

De sempre e sempre te amar.

Silêncio de um minuto, de Noel Rosa.

Luto preto é vaidade,

Neste funeral de amor,

O meu luto é a saudade

E saudade não tem cor.


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Vamos ouvir Noel, gente! Noel canta, de sua autoria, "Conversa de Botequim".



segunda-feira, 16 de julho de 2012

A concepção de socialismo de Antonio Cândido


Antonio Candido é um raros intelectuais brasileiros unânimes. Todo mundo o admira – com razão. Esta entrevista dele ao Brasil de Fato prova isto. Ao lê-la, o Velho do Penedo resolveu trazê-la ao conhecimento de mais gente, inclusive aos leitores do exterior. Antonio Cândido é um exemplo de integridade intelectual. Leiam e, depois, me digam: não é mesmo?


“O socialismo é uma doutrina triunfante”


Por Marco Antonio L.

Do Brasil de Fato

 

Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

Brasil de Fato – O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Antonio Candido – Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Brasil de Fato – Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Antonio Candido – Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

Brasil de Fato – O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Antonio Candido – Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

Brasil de Fato – É o que senhor mais gosta?

Antonio Candido – Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

Brasil de Fato – E de qual o senhor mais gosta?

Antonio Candido – Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos… Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Brasil de Fato – Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

Antonio Candido – É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

Brasil de Fato – O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Antonio Candido – Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

Brasil de Fato – O senhor acha que vai?

Antonio Candido – Não sei. Eu não tenho nem computador… as pessoas me perguntam: qual é o seu… como chama?

Brasil de Fato – E-mail?

Antonio Candido – Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

Brasil de Fato – E o que o senhor lê hoje em dia?

Antonio Candido – Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

Brasil de Fato – O senhor é socialista?

Antonio Candido – Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Brasil de Fato – Por quê?

Antonio Candido – Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

Brasil de Fato – O socialismo como luta dos trabalhadores?

Antonio Candido – O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Brasil de Fato – Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Antonio Candido – Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

Brasil de Fato – O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

Antonio Candido – O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

Brasil de Fato – A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Antonio Candido – Conheci em Poços de Caldas… essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

Brasil de Fato – E o dever da atual geração?

Antonio Candido – Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

Brasil de Fato – No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Antonio Candido – Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia… Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria… Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel



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Y así pasan los días (8)

1 – O velódromo do Rio, construído para os Jogos Panamericanos por 14 milhões, deverá ser demolido, pois, conforme disse a Comissão Olímpica, ele não está de acordo com as normas olímpicas et coetera e tal. Inacreditável. Não informaram quanto vai custar o novo velódromo, mas uma coisa já se pode dizer: acho que a “companheirada” está exagerando – ou indo com muito açodamento ao pote.

2 – E o Estádio de futebol de Brasília? Mais de 1 bilhão de reais: para sediar na Copa das Confederações uma única partida de futebol.

3 – 12 de julho de 2012: “tia” Dilma, sempre professoral, em face do fracasso econômico do seu governo, disse que o desenvolvimento de uma nação não se mede pelo crescimento do PIB – e, sim, pela atenção que o governo dá às suas crianças e adolescentes. Belas intenções, não é mesmo? 11 de julho de 2012, véspera do pronunciamento, ops!, aula da “tia” Dilma: no programa “Profissão: Repórter”, a equipe do competente jornalista Caco Barcelos mostrou a situação das crianças e adolescentes, em vários estados brasileiros, obrigados a trabalhar (para ganhar uma ninharia). Os meninos (alguns com 9, 10 e 11 anos) não estudam (não têm tempo) e, segundo uma das mães entrevistadas, “não têm futuro”. O Velho Professor do Penedo acha que “tia” Dilma está perdendo o prumo...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Broncas do Velhote do Penedo


Y así pasan los días (7)

1 – No jogo entre Corinthians e Boca Junior, no qual o Coringão tornou-se campeão da Taça Libertadores, o público presente era de 37 mil espectadores. Notem bem: 37 mil pessoas estavam no Pacaembu. Em Brasília, o público médio nas partidas do campeonato local é de menos de 3 mil pessoas. Notem bem: menos de 3 mil pessoas. Porque estou informando isto? Por que, em Brasília, está sendo construído um estádio para 73 mil pessoas, a um custo de mais de 1 bilhão de reais. Pensem nisso.

2 – Há algumas semanas, três crianças morreram em hospitais públicos de Brasília por uma razão: nos hospitais as UTIs infantis estavam desativadas por falta de equipamentos. Mas o estádio de futebol que está sendo construído...

3 – Na Argentina, o ex-presidente Videla foi condenado a 50 anos de cadeia. Videla foi ditador, deu ordens a torturadores e foi responsável pelo sequestro de crianças, filhos de opositores do seu regime. Estas crianças foram adotadas (talvez mesmo vendidas) a famílias argentinas, que apoiavam a ditadura. Foram mais de 500 crianças: 105 (hoje, adultas) já foram localizadas e identificadas, muitas estão psicologicamente dilaceradas. Até torturador ficou e criou filho de torturado. Horror, não?

4 – Por onde anda o procurador Luiz Francisco Fernandes de Souza, que, nos tempos em que o PT era oposição, vivia acusando políticos dos demais partidos. Por que, hoje, diante dos aloprados (operação sanguessuga) e do mensalão, o desengonçado procurador mantém rigoroso silêncio?

5 – O deputado Maluf, que recebeu Lula nos jardins de sua Mansão em São Paulo e compareceu ao Palácio do Planalto, onde beijou as mãos de uma sorridcente “tia” Dilma, é procurado pela Interpol - e caso desembarque em mais de 100 países será preso. Tudo por fraude, desvio de dinheiro e otras cozitas más. Maluf, a quem Lula chamou várias vezes de ladrão, é hoje aliado do governo do PT. Pois é, o companheiro Maluf...

6 – Um casal de moradores de rua encontrou, perto do ponto onde vive, uma sacola com dez mil reais. Não pestanejaram: entregaram a sacola à polícia, que localizou o dono da grana, um japonês, proprietário de um restaurante. Notem bem: mendigos – dez mil reais achados e devolvidos ao dono. Enquanto isso, o Maluf... Bem, Maluf foi visto recebendo em casa um sorridente Lula.
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É duro ser brasileiro! - gemeu o Velho Professor do Penedo ao receber o cartoon abaixo.



Meus amigos! No Brasil, globalização é isso!

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Ouçam agora Francis Hime!

Trocando em miúdos - Francis Hime/Chico Buarque


sexta-feira, 6 de julho de 2012

Trambicagem e "jeitinho" brasileiro

O Velhote do Penedo escreveu o texto abaixo a pedido de um jornal universitário. Trata-se, na verdade, de uma crônica, que, depois de publicada, estimulou uma discussão entre alunos em sala de aula, segundo eu soube.

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O trambique
É preciso ter coragem para admitir. O brasileiro sofre da vocação do trambique.
Não, não me refiro aos corruptos que enxameiam os poderes executivo, legislativo e judiciário. Falo dos pequenos trambiqueiros: daqueles que furam fila; daqueles que estacionam seus carros nas vagas dos idosos ou dos deficientes físicos; daqueles que ultrapassam o sinal e não respeitam as faixas de pedestres. Falo daqueles que ultrapassam os limites de velocidade, trafegam pelo acostamento e ultrapassam pela direita. Falo, sobretudo, dos brasileiros que clamam por uma polícia honesta e eficiente, mas não se vexam de oferecer propina ao guarda de trânsito. Falo dos brasileiros que votam nos políticos envolvidos em processos de improbidade, gatunagem ou falta de decoro. Falo dos eleitores do Maluf, do abraço que Lula deu no Maluf, do sorriso que “tia” Dilma dirigiu ao Maluf em solenidade no Palácio do Planalto. Trambique não é só gatunagem. Trambique é um jeito de ser.
Portanto, ao falar em trambique não me refiro apenas aos notórios corruptos. Nem à justiça que não os trancafia os ladrões no xilindró. Falo das pessoas que conversam ao celular enquanto dirigem, falo daqueles que cospem no chão, daqueles que dirigem depois de muito beber. Falo, enfim, de todos que são incapazes de um gesto de ternura.
Falo de todos que repetem clichês, como direitos humanos, desenvolvimento sustentável, igualdade, democracia, paz, transparência, mas agem na contramão de tudo que apregoam. Falo daqueles que mantêm os arquivos da ditadura inacessíveis a todos nós. Falo dos professores que não se autorrespeitam e dos estudantes que compram diplomas. Falo dos torturadores. Dos que pactuaram com a violência da ditadura militar. Falo dos ministros que assinaram o AI-5. Falo dos intelectuais e dos artistas que só produzem mediante verbas do Estado.
Não, não falo apenas daqueles que fazem jogadas no mercado financeiro. Falo dos magistrados que negam habeas corpus a uma mulher que pixou paredes do Museu de Arte Moderna de São Paulo, mas são rápidos em ordenar a libertação de corruptos e criminosos. Falo dos brasileiros que poluem as praias, provocam incêndios criminosos, são traficantes de animais silvestres, de mulheres, de crianças, de órgãos humanos, de armas e drogas. Falo contra as autoridades brasileiras que estimulam o não-saber, a incultura e a ignorância. Falo das autoridades que reduzem os impostos dos automóveis, mas não fazem nada semelhante em relação aos livros, aos remédios, às mensalidades escolares.
O trambique é a fraude das fraudes. O trambique age sorrateiramente, faz parte da cultura brasileira, é irmão-gêmeo da ideologia do “primeiro eu”, do “tirar vantagem em tudo”, da “farinha pouca meu pirão primeiro”, do “depois de mim, o dilúvio”, do “sabe com quem está falando”, do “meu cargo me dá esse direito”, do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. O maior dos trambiques é o “jeitinho brasileiro”, que é uma forma sorrateira e pretensamente graciosa de ludibriar o próximo e burlar a lei. Uma sociedade que elegeu o “jeitinho” como estilo e maneira de ser não tem futuro.
O trambique impregna e mutila o caráter nacional brasileira.

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Ouçam o cantor e compositor Carlos Lira (Primavera - Carlos Lira e Vinicius de Moraes)