Por do sol em Penedo

Por do sol em Penedo

terça-feira, 27 de março de 2012

Contra o racismo: um pouco de história

Orgulho de torcer pelo Clube de Regatas Vasco da Gama

Antes que me critiquem, explico: sou vascaíno, não nego, desde o dia 7 de setembro de 1952. O pai levou-me ao Maracanã para assistir o clássico Vasco X Bangu. Sim, naqueles tempos pré-históricos, o Bangu era um dos seis grandes clubes cariocas: os quatro grandes de hoje (Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo) mais o Bangu e o América.

O pai era flamenguista, então por que ele resolveu ir ao Maracanã naquele feriado, levando, de quebra, o filho que não torcia por clube algum? Um mistério, mas desconfio que o pai queria ver o Zizinho jogar. Zizinho – acreditem os mais jovens – foi tão craque quanto Pelé, Garrincha e Maradona. O Vasco venceu o jogo: 6 x 2. E o chamado clube da colina, naquele dia, ganhou mais um torcedor: o Velho Professor do Penedo.

Os anos se passaram. Ninguém é vascaíno impunemente: tive alegrias e amargas tristezas ao longo da vida torcendo pelo meu clube, mas nunca pus em dúvida a minha opção clubística. Uma coisa, porém, me fez ficar, em especial, extremamente orgulhoso de ser vascaíno. Além das suas grandes vitórias em terra e mar, o Vasco foi o único clube brasileiro a assumir, de forma clara e decisiva, uma posição antirracista.

Resumo da história.

No dia 26 de Novembro de 1915 o Vasco se fundiu com o Lusitânia F.C. e formou seu primeiro time de futebol. (O Vasco tinha sido fundado, como um clube de regatas, em 21 de agosto de 1898).

Em 1923, após vencer a divisão de acesso do Campeonato Carioca (2ª Divisão do Campeonato Carioca) no ano anterior, o Vasco conquistou o título logo em seu ano de estreia na divisão principal. O time-base vascaíno, campeão, era o seguinte: Nelson; Leitão e Cláudio (Mingote); Nicolino, Claudionor e Artur; Pascoal, Torterolli, Arlindo, Cecy e Negrito. O Vasco disputou quatorze jogos, obteve 11 vitórias, dois empates e uma derrota. O time fez 32 gols, sofreu 19, com saldo de 13 gols. Os craques vascaínos eram quase todos moradores da Zona Norte e dos subúrbios e, invariavelmente, negros e mulatos.

As derrotas sofridas para o Vasco ao longo da competição foram consideradas inadmissíveis pelos adversários, que logo começaram a alegar que o quadro de atletas cruzmaltinos era formado por gente de "profissão duvidosa", ou seja, garções, motoristas, operários, estivadores. Disseram ainda que o clube não possuía um estádio, o que era inaceitável. Com isso, os clubes das elites desejavam excluir o Vasco da Gama do campeonato.

Após a tentativa fracassada de ver o Vasco da Gama fora da competição em 1923, os clubes da zona sul, ou seja, da área de elite da cidade do Rio de Janeiro, encontraram a solução para se verem livres dos vascaínos no ano seguinte. Assim, se uniram, abandonaram a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), deixando de fora o Vasco, que só poderia se filiar à nova entidade caso:

·         dispensasse doze de seus atletas (todos negros, mulatos e pobres) sob a acusação de que tinham "profissão duvidosa";

·         construísse um estádio de futebol, o que, por sinal, não era exigido dos demais clubes.  

Diante da situação imposta, em 1924, o presidente do Club de Regatas Vasco da Gama, José Augusto Prestes, enviou uma carta à AMEA, que veio a ser conhecida como a "resposta histórica", recusando a se submeter às condições impostas e desistindo de filiar-se à AMEA. A carta entrou para a história como marco da luta contra o racismo no futebol.

"Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.

Ofício nr. 261

Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle,

M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos:

As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.

Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções. Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.

Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.

São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias.

Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.

Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado

(a) Dr. José Augusto Prestes Presidente"



O Vasco sai por cima

Em 1924, foram disputados dois campeonatos em paralelo, sendo que o da LMDT foi vencido de forma invicta pelo Vasco. O Vasco, assim, consagrou-se bicampeão estadual. O time-base do Vasco foi o seguinte: Nélson, Leitão e Mingote; Brilhante, Claudionor e Artur; Pascoal, Torterolli, Russinho, Cecy e Negrito. O Vasco disputou 16 partidas, venceu a todas, teve 46 gols pró e 9 gols contra, o que aponta um saldo de 37 gols. Russinho, com 12 gols, foi o artilheiro da equipe. O campeonato da AMEA foi vencido pelo Fluminense.

No ano seguinte, o clube venceu as resistências da AMEA, conseguiu integrar-se à entidade e voltou a disputar o campeonato contra os grandes times sob a condição de disputar seus jogos no campo do Andarahy. Apesar disso, o Vasco decidiu construir o seu próprio estádio, para acabar com qualquer exigência. O local escolhido para a construção foi a chácara de São Januário, que fora um presente de Dom Pedro I à Marquesa de Santos.

Em 21 de abril de 1927, o Vasco da Gama inaugurava o então maior estádio do Brasil, o Estádio Vasco da Gama, construído em dez meses e com dinheiro arrecadado por uma campanha de recolhimento de donativos de torcedores de toda a cidade. Dois anos depois seria inaugurada a sua iluminação, passando a ser o único clube do país com um estádio em condições de sediar jogos noturnos.

Encerro as considerações acima dizendo: como vascaíno não me sinto melhor nem pior que os meus leitores que torcem por outros clubes. Jamais briguei ou discuti com alguém sobre futebol. Torço apenas pelo meu time, o que já é muito.

Não afirmo que o Clube de Regatas Vasco da Gama seja melhor ou pior que os demais clubes do Rio de Janeiro ou do Brasil. O que declaro, com orgulho, que o Vasco da Gama é o único clube brasileiro a assumir posição claramente antirracista e em defesa dos valores democráticos.

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Este Papo de Amigos homenageia, hoje, cantores vascaínos afrodescentes. São eles Teresa Cristina, Nelson Sargento e Zé Kéti.





sábado, 17 de março de 2012

Sobre "O alienista", de Machado de Assis

O revolucionário conservador

Os grandes temas tratados por Manoel Bomfim, com variações de forma, intensidade ou conteúdo, permanecem, sem solução, no cotidiano brasileiro. Um desses temas, pouco salientado nos estudos sobre a obra do sergipano, tem evidente atualidade: o caráter intrinsecamente conservador dos políticos brasileiros e latino-americanos. Mesmo os mais ousados entre os homens públicos (quando estão na oposição) tornam-se, no poder, tão conservadores como os conservadores de ofício.

O perfil que Bomfim traça dos políticos é atualíssimo: todos são progressistas ou, mesmo, revolucionários, quando estão fora do poder; no poder, o sentimento conservador os domina, seja por pura ambição, tendência instintiva ou jogo de interesses. Foi o que aconteceu com o chamado Partido dos Trabalhadores.

Bomfim extraiu do conto O alienista, de Machado de Assis, um exemplo de como age o “revolucionário conservador”. Diante das violências do médico Simão Bacamarte, o povo de Itaguaí se revolta sob a liderança de Porfírio das Neves, que assume o governo da vila. “O nosso revolucionário depõe as autoridades, faz-se chefe do governo local, vai ao médico, arranca-lhe as chaves do hospício-prisão; mas, com grande espanto das gentes, no momento de franquear as portas, faz um discurso sobre os interesses conservadores da sociedade e o perigo das transições bruscas, e pede o respeito às coisas existentes”.

Quando todos supunham que Porfírio iria prender Bacamarte e fechar o hospício-prisão, o líder da revolta assume um discurso conciliador, pois “a ordem, minha gente, é a base do governo”. Em nome da tradição e “dos perigos inerentes às transições bruscas”, Simão Bacamarte e o hospício são reintegrados à nova ordem por proposta do ex-revolucionário Porfírio das Neves. Antes em campos opostos, Bacamarte e Porfírio tornam-se aliados. Tal qual os nossos inefáveis Lula e Sarney.

A análise do caráter dos dirigentes políticos nos ensina que, na véspera, todos são radicais ou reformistas, querem mudanças; no dia seguinte, as vozes se amansam e passam a defender a ordem que antes denunciavam.

Como escreveu Bomfim, em 1905, esta é a nossa rotina: conciliar e conservar. Uma rotina que perdura, até hoje.



Y así pasan los días

1 – Aqui, nesse Papo de Amigos, o Velho Professor do Penedo já falou sobre a tragédia do Sudão. Semana passado, por coincidência o astro George Clooney participou de uma manifestação em Washington contra a matança no país africano. Foi preso. A Rede Globo noticiou o fato, mas sem revelar a causa da prisão, ou seja, o protesto que Clooney fazia contra o morticínio no Sudão. A atitude de Clooney foi perfeita. Pena que os astros e estrelas do Brasil não tenham o mesmo comportamento diante das mazelas do nosso mundo. Agora, a Rede Globo é isso: entre o morticínio no Sudão e a notícia da prisão de Clooney, preferiu a segunda, sem mostrar o que ocorre no Sudão.

2 – O episódio da morte de 16 civis no Afeganistão, assassinados por um soldado não foi uma exceção. Em janeiro, um vídeo mostrou soldados americanos urinando em corpos de militantes do Taliban. Em fevereiro, soldados americanos queimaram exemplares do Alcorão. Mais isto é tradicional: durante a Guerra do Vietnam soldados americanos aprontaram. Duvidam? Leiam sobre a guerra ou vejam o filme “Platoon”.

3 – O desenvolvimento brasileiro, patrocinado pelo PT, foi um retrocesso ao nosso passado colonial. Deu no O Estado de S. Paulo: “Só 6 produtos representam 47% do que o Brasil exporta”. Seis matérias-primas: minério de ferro, soja, carne, açúcar, petróleo bruto e café. Um dia, “tia” Dilma ainda vai anunciar que nos tornamos, graças ao seu governo, um exportador de pau-brasil. E vai informar que Mem de Sá foi um dos fundadores do glorioso PT.

4 – A transposição do Rio São Francisco, assunto sobre o qual o Velho Professor do Penedo já escreveu tantas vezes, está com as obras do trecho de Salgueiro paradas. Aliás, como informou Luiz Carlos Azedo (Correio Braziliense, 9 de março de 2012), o balanço da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) mostrou que o custo saltou de R$ 4,5 bilhões para R$ 8,18 bilhões. Um aumento de 82%. Tem muita gente ficando rica...

5 – O Pastor Crivella, nosso ministro da pesca que não sabe prender uma minhoca no anzol, vai nomear o brigadeiro Átila Maia, filiado ao PRB, como secretário executiva (vice-ministro) da pasta. Um pastor e um brigadeiro. Não pode dar certo.

6 – O jornalista Luiz Carlos Azedo informou (Correio Braziliense, 6 de março de 2012) que o choro da “tia” Dilma no episódio do afastamento de Luiz Sérgio do Ministério da Pesca para dar lugar ao Pastor Marcelo Crivella não foi motivado pelo afeto. “Tia” Dilma chorou porque fez a mudança contrariada, a pedido de Lula. O Velho Professor do Penedo já defendeu nesse Papo de Amigos que “tia” Dilma chorou de vergonha. Mais uma vez: bem feito.

7 – Quando eu estava pesquisando para escrever “O rebelde esquecido: tempo, vida e obra de Manoel Bomfim”, encontrei histórias (reais) paralelas incríveis. Sentem-se, fiquem à vontade e escutem.

8 - Em 8 de maio de 1915, o poeta Manuel Batista Cepellos, autor de “A derrubada” (1896), “Os bandeirantes” (1906) e “Vaidades” (1908), suicidou-se por razões que só mais tarde foram conhecidas.

9 – Cepellos era natural de Cotia, interior de São Paulo. Foi protegido do senador Francisco de Assis Peixoto Gomide, que, entre outras ajudas, financiou os seus estudos na capital paulista.

10 – A convivência familiar levou o poeta Cepellos a apaixonar-se pela filha do seu benfeitor. O casamento foi marcado, apesar da incompreensível e estranha oposição de Peixoto Gomide.

11 – Um dia, em meio a uma explosão de cólera, e totalmente fora de si, o senador mata a própria filha e a seguir explode os miolos com um tiro, revelando antes que os noivos eram irmãos!

12 – Chocado, Cepellos muda-se para o Rio de Janeiro, onde torna-se um alcoolatra e vítima de crises continuadas e profundas depressão. Tudo aquilo, porém, foi demais para ele, que acabou também por se matar, atirando-se do alto de uma pedreira. Cepellos tinha ao morrer 43 anos. Uma história de arrepiar. Como diria Nelson Rodrigues, um episódio da vida como ela é.

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Walter Alfaiate

Hoje, é dia de Walter Alfaiata, a quem conheci em Brasília, quando ele aqui veio para fazer um show no Feitiço Mineiro. Isso foi em 2009. No ano seguinte, ele faleceu. No Papo de Amigos, Alfaiate canta “Botafogo, chão de estrelas”, de Paulinho da Viola e Aldir Blanc. Na música, Alfaiate fala da Rua Marques de Abrantes, onde o Velho Professor do Penedo passou a infância.




domingo, 4 de março de 2012

Lágrimas, genocídios e uma grande cantora

As lágrimas da “tia” Dilma: há sinceridade nisso?

“Tia” Dilma chorou ao se despedir de Luiz Sérgio, substituído por Marcelo Crivella no Ministério da Pesca. Por quê?

Os indefectíveis comentaristas políticos da Globo News fizeram mil conjecturas a respeito e, como de hábito, só falaram abobrinhas. Claro, o Velho Professor do Penedo não vai se arvorar a explicar as lágrimas presidenciais, mas gostaria – gostaria mesmo! – que Dilma tivesse chorado por se lembrar da Dilma de anos atrás, da Dilma de esquerda, da Dilma real, que jamais aceitaria a idéia de compor politicamente com Delfim Netto, Sarney, Crivella, Jader Barbalho, Renan, Collor. “Tia” Dilma não é mais aquela.

Por que “tia” Dilma chorou? Minha hipótese é que ela chorou de vergonha. Bem feito.

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Besteirol (1)

Quando Luiz Sérgio assumiu o Ministério da Pesca, disse que tinha intimidade com a atividade pela simples razão de ter nascido em Angra dos Reis, “cidade litorânea, logo pesqueira”, afirmou. No mesmo diapasão, Crivella informou ao Brasil que “sequer sabe prender uma minhoca no anzol”, mas se “sentia preparado para exercer o cargo”.

Besteirol (2)

Cristina Lobo, a cronista social dos palácios brasilienses, estranhou que o Brasil tivesse mais de 500 mil pescadores registrados. Achou um exagero.

Um país do tamanho do Brasil, com tantas bacias hidrográficas enormes (Amazonas, São Francisco, Paraná-Paraguai), lagos e lagoas, um litoral de mais de 8 mil quilômetros, e a Lobo estranha existirem pescadores no Brasil?

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Ruanda (ontem); Sudão do Sul (hoje)

Entre os meses de abril e junho de 1994, uma guerra civil matou mais de 1 milhão de pessoas. O grupo étnico hutu, a maioria da população ruandense, promoveu uma matança sistemática do grupo étnico tutsi, minoria no país.

Tal massacre não foi um fato isolado e muito menos recente na história daquele país. A rivalidade entre as duas etnias era anterior à chegada dos colonialistas europeus ao continente africano, mas foi potencializada quando os belgas se aliaram aos tutsis para dominar a população hutu. Com as idas e vindas das políticas nacionais africanas, os hutus reverteram a situação, tornaram-se dominantes e foram para a desforra. Este, em síntese, é o resumo da tragédia ruandense, que foi conta no cinema (Hotel Ruanda, Genocídio em Ruanda e Aperte as mãos do diabo) e em livro (Uma temporada de facões: relatos do genocídio de Ruanda, do jornalista francês Jean Hatzfeld, e Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias, de Philip Gourevitch).

Ano passado, mediante plebiscito acompanhado pela ONU, o antigo Sudão dividiu-se em dois países: Sudão (erroneamente chamado de Sudão do Norte), com a capital em Cartum, e Sudão do Sul, com capital e, Juba).

A divisão trouxe aos dois países alguns sérios problemas, aos quais se somam as contradições ancestrais. Ao contrário do Sudão, o Sudão do Sul possui grandes reservas petrolíferas, mas o escoamento da produção depende do Sudão, que o vem bloqueando desde a criação dos dois países. Como observou Linda Bishal, especialista em gerenciamento de conflitos da United States Institute of Peace (Usip), “não existe uma forma de refinar e transportar o petróleo, sem que seja através do Sudão. Os dois vizinhos têm entrado em desacordo sobre o pagamento de taxas para o uso de um oleoduto passando pelo território sudanês”.

Acontece que o Sudão do Sul, apesar de possuir petróleo, é reconhecidamente um dos países mais miseráveis do planeta, com elevados índices de mortalidade geral e materna, com a maioria das crianças fora da escola e um índice de analfabetismo que chega a 84% entre as mulheres.

A verdade é que no Sudão do Sul o dinheiro praticamente inexiste – e as transações  básicas entre as pessoas se faz na base da troca. A criação de gado é a principal atividade econômica do Sudão do Sul.

Desde dezembro passado, o país vive submerso num conflito interétnico regido por uma espiral de vingança.

Tudo começou no dia 23 de dezembro de 2011, quando 6 mil integrantes do tribo Lou Nuer marcharam até a região de Pibor, onde investiram contra integrantes da etnia Murle. O massacre foi terrível: 3 mil murles foram mortos, 60 mil foram desalojados, 1,8 mil mulheres e crianças foram sequestradas e uma centena de cabeças de gado roubadas. A desforra veio em seguida: centenas de murles invadiram aldeias “inimigas”, incendiaram todas as casas, executaram mulheres, homens e crianças. Tudo isso, claro, sob o silêncio das agências noticiosas e da ONU. Tal como ocorreu na época do massacre de Ruanda.

A lógica do conflito entre as duas etnias envolve um aspecto dilacerante, além, é claro, da busca pelo poder. Os Murle padecem de uma epidemia crônica de sífiles, o que os leva a ter alto índice de esterilidade. Em consequência, os Murle especializaram-se no rapto de crianças Lou Nuer. O rapto de  bebês e crianças aumenta a animosidade entre eles – e os ataques violentos de uns contra os outros. Os jovens raptados são usados como escravos no pastoreio do gado.

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Mariana Bernardes

Quando escrevi “As Divas do Rádio Nacional” tive que deixar de fora do livro algumas grandes cantoras brasileiras, como Dóris Monteiro, Carmélia Alves, entre outras tantas. Hoje, talvez eu tivesse dificuldade de reunir 14 divas em exercício. Bem, uma grande cantora, infelizmente pouco conhecida chama-se Mariana Bernardes, que apresento hoje cá nesse Papo de Amigos. Caso vocês queiram conhecê-la melhor, escutem o magnífico CD duplo “O Samba é Minha Nobreza”, da Biscoito Fino. Mariana Bernardes canta o fino!