O Velhote do Penedo

O Velhote do Penedo
O Velho Professor do Penedo em plena labuta! Vida difícil, esta!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Educação: às vésperas da catástrofe

 “Eu? Nada...” (Resposta de Sebastião de Souza Lima, 14 anos, analfabeto, carroceiro, cearense de Pedra Branca à pergunta do repórter: “O que você vai ser quando crescer?”).
Há uma frase de Anísio Teixeira que resume perfeitamente o que pretendo discutir no presente ensaio: “o nosso século se acha num páreo entre a educação e a catástrofe”. O dilema brasileiro é bem mais grave, pois tudo indica que fizemos - nós, a sociedade brasileira – uma consciente opção pela catástrofe, ou seja, pela anticultura, pelo antissaber, pelo anticonhecimento. Os dados disponíveis são irrefutáveis: em 2001, 43% dos municípios brasileiros (2.378 de um total de 5.560 localidades) tinham, pelo menos, uma livraria. Em 2005, o número caiu para 1.721 – 31% de um conjunto de 5.564 cidades. No Brasil, os índices de leitura não ultrapassam a 1,8 livros per capita por ano, enquanto tal indicador atinge 2,4 na Colômbia; 3,1, na Argentina; 5,1 nos Estados Unidos; 7,0 na França.
Em 1990, a população brasileira somava 147 milhões e a indústria do livro vendeu 212,2 mil livros, o que equivale a 1,44 exemplares por pessoa. Treze anos depois, a indústria vendeu 225,8 mil exemplares para uma população de 179 milhões – e a relação caiu para 1,42 livros por pessoa.
Hoje, em termos educacionais, o que se discute é a crise e a reforma universitária, o regime de cotas e outras tantas inovações criadas pelos tecnoburocratas do ensino, com o apoio equivocado de determinados movimentos sociais. Embora extremamente relevante, pois a universidade brasileira, sobretudo a pública, encontra-se semidestruída e semidesmoralizada, esta não é, segundo meu julgamento, a discussão essencial e necessária.
A rigor, o olho da tragédia brasileira, no campo da educação, localiza-se no ensino fundamental e médio – e é justamente aí, no ensino fundamental e médio, que a sociedade e o governo brasileiro deveriam estar investindo tempo, energia e dinheiro.
Analfabetos absolutos e funcionais
De que adianta reformar a universidade se grande parte do alunado que a alcança traz na sua formação as mazelas e taras de um ensino fundamental e médio de baixíssima qualidade? Todos nós, pais e professores, temos experiência direta ou indireta nesse assunto – e sabemos que muitos dos discentes que chegam às faculdades, centros universitários e universidades públicas ou privadas são verdadeiros analfabetos funcionais, incapazes de redigir, sem erro e com lógica, um simples bilhete.
Analfabetos funcionais são as pessoas, com mais de 15 anos, que só cursaram as quatro primeiras do 1º ciclo. São 27% da população com mais de 15 anos. Na prática, porém, o analfabetismo funcional se amplia, atingindo parte daqueles estudantes que chegam ao ensino superior.     
Nenhum exagero nisso. Em 2002, a UNESCO verificou que 50% dos alunos brasileiros estão abaixo da escala de verificação no domínio dos rudimentos básicos da leitura e da aritmética. Entre 41 países estudados pelo organismo, o Brasil ficou em 37º lugar na prova de leitura e em último na prova de aritmética. Antes, em 1992, um teste (questões de matemática e ciências) que reuniu vinte países, 4.000 escolas e 157.000 estudantes, evidenciou a fragilidade do ensino brasileiro. No Brasil, foram escolhidas 110 escolas em São Paulo e 110 em Fortaleza. O resultado do teste foi acachapante: os estudantes brasileiros só superaram os de Moçambique, um país solapado pelo colonialismo e por anos de guerra civil. Ora, se os indicadores de avaliação dos alunos brasileiros de ensino fundamental e médio são tão pífios, como estes alunos poderiam ser bons alunos no curso superior?
A maioria dos alunos universitários não lê – e não lê porque não adquiriu o hábito da leitura. Pudera: o Ministério da Educação sabe, mas finge desconhecer, que 80% dos docentes do ensino primário e médio jamais leram um livro! Como vão transmitir aos seus alunos um hábito que – eles, professores - não possuem? A reforma do ensino fundamental e médio, que não está na ordem do dia, é mais prioritária e indispensável que a reforma universitária.
Leitura exige hábito e concentração.
O fenômeno é assustador e triste. Sabemos que os alunos que chegam ao ensino superior, dispõem - devido à falta de leitura - de um vocabulário extremamente pobre, daí a sua incapacidade de formular conceitos e idéias razoavelmente estruturadas. Os alunos, em geral, são incapazes de fazer o resumo de uma página que acabaram de ler, ou de ir até o final de um livro – isso, claro, quando tomam um livro nas mãos, o que é raro. A ausência de qualquer atividade intelectual autônoma criou nos estudantes uma espécie de indolência mental, que os impede de construir e externar bons pensamentos, ou seja, idéias organizadas e estruturadas.
Bem verdade que o baixo nível cultural dos universitários não se explica apenas pela sua má formação de base. A má qualidade dos cursos superiores (ineficácia e programas defasados), a ausência de laboratórios equipados, a insuficiência das bibliotecas, a carência de bons professores e a falta de espírito universitário e desinteresse pelo conhecimento, principalmente nas instituições privadas, entre outros fatores, potencializam as sequelas que os estudantes trazem dos cursos fundamental e médio.
Recente matéria publicada na revista Exame mostrou que, em 2005, a Atento, maior empresa de atendimento telefônico do país, entrevistou 240 mil jovens de 18 a 24 anos com ensino médio completo. Metade dos candidatos foi reprovada nos testes orais por não conseguir falar o português básico corretamente.
Segundo dados do Anuário do Trabalho na Micro e Pequena Empresa (2007), elaborado pelo Sebrae, há escassez de mão-de-obra qualificada capaz de sustentar um processo de crescimento econômico. O estudo atesta, ainda, que as pequenas e microempresas, responsáveis por 52% dos empregos formais do país, já enfrentam dificuldade para contratar trabalhadores mais qualificados. Os programas públicos de atualização, diz o documento, não foram eficientes para incorporar a mão-de-obra disponível ao cenário tecnológico. Outro estudo, este elaborado pelo IPEA, aponta que há déficit de profissionais qualificados em determinados setores da indústria: química e petroquímica, minerais metálicos, extrativismo mineral, produtos mecânicos e de transporte.
O estudo do Ipea mostra ainda que o perfil do trabalhador procurado é o seguinte: idade média, 33,8 anos; escolaridade média, 9,3 anos, sobretudo com nível técnico; salário médio, 2,5 salários mínimos, o que não deixa de ser extremamente baixo.
Outro exemplo: o setor de recursos humanos da rede de livrarias Fnac recebe cerca de 7.000 currículos por mês, mas, de cada vinte candidatos selecionados para entrevista, 19 não conseguem entabular uma conversa mais elaborada - e são reprovados. Tais exemplos são trágicos – mormente quando se sabe que, segundo o Dieese, 45,5% dos desempregados têm entre 16 e 24 anos.
A escolaridade média da população economicamente ativa brasileira é da ordem de 3,8 anos, um dos mais baixos do mundo, comparável aos do Haiti e de Honduras. Na Argentina, a média é de 8,7 anos, no Paraguai, 9 anos, e na Coréia do Sul, 11 anos.

“Deu preguiça de andar até a escola”, disse uma jovem de 15 anos ao explicar por que parou de estudar.
Alguns especialistas costumam afirmar que o avanço tecnológico provocou uma transformação no comportamento e na maneira de ser dos estudantes. Os jovens, segundo aqueles especialistas, estariam – “no mundo todo”, acentuam tais especialistas, como se isso justificasse ou amenizasse a miséria educacional brasileira - substituindo o livro, ou seja, as palavras impressas pelas imagens, isto é, pelas figuras coloridas do computador e da televisão.
Em A vida digital, Nicholas Negroponte, um dos papas da revolução digital, deixou claro que sua rejeição à leitura decorre do fato de ser desleixo, ou seja, de possuir incapacidade de compreensão do que lê devido a distúrbio do sistema nervoso. A verdade é que o e-book (o livro eletrônico) é uma enganação – e, como o próprio computador, serve (ou deveria servir) apenas como facilitador de tarefas e suporte de pesquisa, o que, em si, já seria ótimo. A rigor, ninguém é capaz de ler Os sertões, Crime e castigo ou Grande sertão: veredas numa telinha de computador. Ou fica irremediavelmente cego ou morre de tédio profundo ou, ainda, é dominado por um sono irresistível. Paulo Ronái, educador húngaro radicado no Brasil, escreveu, certa vez, que o manuseio do livro, o prazer tátil aliado ao prazer da leitura, é essencial na formação do jovem, coisa que a telinha do computador não permite.
Ler é vital: como comer e beber.
A minha experiência em sala de aula, como a de muitos outros professores, mostra que os alunos não conseguem se concentrar e, pior ainda, compreender o conteúdo do que vêem - filme ou documentário. Suas deficiências intelectuais não são resolvidas pelas imagens. Explico: os filmes do Schwarzenegger, por exemplo, em que ele mata dezenas de inimigos e fala apenas 17 frases em quase duas horas, são campeões de bilheteria justamente porque são exclusivamente imagem e ação bruta, não exigindo qualquer resquício de entendimento ou análise inteligente por parte do expectador.
Um filme ou um documentário que exija um mínimo de reflexão é, em geral, rejeitado pela garotada, que, a partir dos dez minutos de projeção, já demonstram cansaço extremo, impaciência e irritação. Muitos, inclusive, dormem nas carteiras ou ficam olhando para o teto, certamente refletindo sobre a inutilidade de tudo aquilo – aulas, professores, livros, exibição de filmes, vida inteligente.
A verdade é que a garotada não possui capacidade de concentração e, muito menos, de reflexão, e isso engloba, em graus variados, o livro, a telinha e o telão. E não possui capacidade de concentração e reflexão porque, em grande parte, não foram treinados para isso. Tal treinamento seria dado – ou deveria começar - nos cursos fundamental e médio.
Antes das reformas educacionais da ditadura, bem como dos palpites dos especialistas, no ensino primário e ginasial os estudantes tinham aulas de leitura, ministradas em classe. Isso acabou.
A escola não motiva o aluno – nem o professor.
Cerca de metade dos 27.741 professores, diretores e coordenadores pedagógicos (12.206 ou 44% do total) em Brasília apresenta sintomas de doenças relacionadas ao trabalho, está doente ou em fase de cura. Depressão, estresse, calo nas cordas vocais e lesões por esforço repetitivo estão entre os males mais comuns, segundo o último levantamento do Sindicato dos Professores do Distrito Federal.

Recente estudo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), tendo por base os números do Pnad (2004 e 2005), destaca que a desmotivação (“falta de vontade de estudar”) é a razão alegada por 40,4% dos jovens que estão fora da escola. Outros 17,1% informaram que não iam à escola porque estavam trabalhando ou procurando trabalho.
Fracasso histórico
O pior é que parte do professorado é egresso também desse ensino fundamental e médio cuja qualidade situa-se abaixo da linha do meio-fio. Por conseguinte, da mesma maneira que os alunos, tais professores (que são os alunos de ontem) não têm, perderam ou estão perdendo o hábito da leitura. O mesmo se pode dizer quanto à escrita e à capacidade de concentração. Trata-se, como diria o economista Gunnar Myrdal, de um processo de causação circular acumulativa, com características negativas, através do qual o fracasso educacional brasileiro tornou-se autoperpetuante e autorreprodutivo, atingindo alunos, professores e gestores. Os alunos não aprendem o básico nos cursos fundamental e médio: criam-se, assim, graves e incontornáveis hiatos culturais; não conseguem ampliar a visão dos problemas e o nível de conhecimento no ensino superior. Ampliam-se os déficits de conhecimento. A anticultura e o antissaber se instalam. Uma política educacional consistente e honesto seria aquela em que tal equação fosse alterada.
Claro, há exceções a tudo isso: conheço e tive alunos brilhantes, conheci e conheço professores notáveis e gestores sérios e responsáveis, o que me faz ainda pensar que há razões para alimentar mínimas esperanças. Mas o tempo corre contra o Brasil: estamos no século XXI – e os nossos problemas educacionais têm o selo do século XIX. Estamos, pelo menos, duzentos anos atrasados. Não estou exagerando – talvez até esteja sendo modesto na minha apreciação.
Há cem anos, a voz solitária de Manoel Bomfim reclamou para o Brasil um amplo e consistente projeto educacional que nos livrasse do atraso e abrisse perspectivas seguras para o futuro brasileiro. O curioso – e, ao mesmo tempo, triste – é que, em 1893, Bomfim tomara conhecimento das estatísticas sobre a situação do ensino básico e secundário nos países americanos, do Canadá à Argentina e Chile. Os números citados no Report of the commissioner of educations, documento preparado pelo governo dos Estados Unidos, mostravam que o Brasil amargava o terceiro pior índice de escolaridade de toda a região, superando apenas o Haiti e Santo Domingo (atual República Dominicana). Estávamos atrás de todos os demais países americanos, do Canadá à Argentina, passando pela América Central e Caribe.

Bomfim era um pensador rebelde – e, com razão, culpava as elites pela situação de abandono em que se encontrava a educação brasileira. Para demonstrar seu ponto de vista, Bomfim realizou uma reveladora – e chocante – análise do orçamento de 1903.
O quadro geral das despesas orçamentárias correspondia, em 1903, a 330 mil contos de réis, dos quais 122 mil contos (37%) representavam os gastos diretos com a manutenção da máquina governamental, 132 mil contos (40%) eram as despesas com o serviço da dívida (juros, amortizações e resgates) e 46 mil contos (13%) eram os gastos com os serviços de utilidade pública, ou seja, os chamados “gastos sociais”, no jargão de hoje. Contudo, o que mais espantou Manoel Bomfim foi a ínfima previsão de gastos com a educação.
“É espantoso, é monstruoso, que um país novo, onde toda a educação intelectual está por fazer, onde a massa popular é ignorantíssima, onde não há educação industrial nem técnica, onde o próprio meio e todos os seus recursos naturais não são conhecidos – é monstruoso que, num tal país, para um orçamento de 330 mil contos, reservem-se 73 mil contos (22%) para a força pública, e apenas 3,2 mil contos (apenas 1%!) para tudo que interessa à vida intelectual – ensino, bibliotecas, museus, escolas especiais, observatórios, etc.! (...) Gastam-se 73 mil contos com a defesa material do Estado; não se despende um tostão no intuito de melhorar as sortes destas populações, que nascem infelizes, vivem sofredoras e morrem miseráveis”.
Bomfim acrescentou ainda que os números não podiam ser justificados, ou compensados, pelos eventuais investimentos educacionais promovidos pelas unidades federativas, pois estas, a rigor, seguiam a incúria federal. Os estados que mais gastavam com a instrução pública eram São Paulo (seis mil contos de réis), Distrito Federal (3,5 mil contos de réis) e Rio Grande do Sul (pouco menos de dois mil contos de réis).
A análise do orçamento de 1903 resume perfeitamente o descaso: tributa-se a população e transferem-se recursos e bens para as elites. 132 mil contos são pagos em juros da dívida – e investem-se apenas três mil contos em educação.
Criam-se, assim, graves e incontornáveis hiatos culturais.
Ampliam-se os déficits de conhecimento.
A anticultura e o antissaber se instalam.
 O país perde o seu futuro.
O projeto educacional defendido por Manoel Bomfim fundava-se na escola pública e no ensino fundamental e médio. Era, antes de tudo, um projeto emancipador, pois não encarava apenas a educação como um mero exercício de transmissão e absorção de conhecimentos, mas como um processo de conscientização dos excluídos.
Bomfim encarava a educação como um direito, que era negado ao povo por uma elite dominante conservadora e refratária.
Manoel Bomfim, em 1905, sabia perfeitamente que educação não é apenas transmissão e assimilação de conhecimentos, embora isso seja essencial, como acentuou Hannah Arendt: “não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar; uma educação sem aprendizagem é vazia e, portanto, degenera, com muita facilidade, em retórica moral e emocional”. Educação para ele, segundo a linha defendida por Durkheim, era (e é) também o processo pelo qual o jovem aprende a ser membro da sociedade, onde passa a atuar de modo consciente, livre e crítico. Educação, portanto, era (e é) socialização e troca de conhecimento. Em outras palavras: cabe à educação formar gente culta e cidadã.
Contudo, e em razão do que foi dito acima, a educação aguça e expõe determinadas contradições da sociedade capitalista. Uma delas é a seguinte: as elites (o patronato) demandam gente instruída – pois essa gente (o patriciado ou o proletariado) é a mão-de-obra (força de trabalho) que aciona e comanda os seus negócios. Contudo, gente instruída é – ou pode ser – gente potencialmente consciente, capaz de perceber e questionar politicamente a própria engrenagem do modo de produção capitalista – e, em conseqüência, pôr em xeque os próprios mecanismos da sua exploração pelo sistema.
Em 1932, Fernando de Azevedo encabeçou um amplo esforço de renovação pedagógica, cujo ideário foi consolidado no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. O manifesto, um dos documentos mais importantes da história brasileira, foi assinado por gente ilustre: além do próprio Fernando de Azevedo, lá estavam Cecília Meireles, M. B. Lourenço Filho, Anísio Teixeira, Roquette-Pinto, Afrânio Peixoto, Francisco Venâncio Filho, Paschoal Lemme, entre muitos outros.
O manifesto defendia a idéia, sustentada em 1905 por Bomfim, de que a educação era o primeiro e maior problema nacional. De sua solução, dizia, dependiam as possíveis soluções aos demais problemas brasileiros. Pelo que tem de atual, o manifesto deveria ser lido, relido e meditado pelas autoridades de um país que pretende ser respeitado. E que deseja, um dia, ter um projeto educacional sério e responsável, perfeitamente articulado a um projeto de desenvolvimento.
O Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova deve ser lido também por professores. Ele pode ser lido no site: www.pedagogiaemfoco.pro.br/heb07.htm.
Dados do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), relativos às escolas estaduais da cidade de São Paulo, mostram que nenhuma delas obteve nota azul, ou seja, nota superior a 50 (de 100 pontos possíveis). A média geral das notas obtidas pelas estaduais não passou de 38,42 pontos. As escolas privadas da capital paulista alcançaram, em média, a nota 52,81, o que, embora bem acima dos resultados das escolas públicas, não é nenhuma maravilha. É claro que a raiz desse enorme fracasso não residia (como não reside) nas dimensões da máquina educacional, mas no caráter deformado de seu crescimento.
Como observou Darcy Ribeiro, a escola brasileira não cresceu onde devia, nem como devia: “ela cresceu, em grande parte, como uma deterioração, quebrando padrões de educação melhores, ainda que precários, alcançados no passado”.
Tal como Manoel Bomfim, Fernando de Azevedo e Darcy Ribeiro enxergavam na sociedade brasileira a existência de uma enfermidade congênita (decorrentes daquilo que Caio Prado chamou de “sentido da colonização”, da formação das políticas oligárquicas, da inconseqüência das elites brasileiras, entre outros) que a faz produzir mais desigualdades para o seu povo. Isto atinge, em especial, a população mais jovem. Não é à-toa que, no Brasil, o desemprego na faixa etária de 15 a 24 anos dobrou (107%) entre 1995 e 2005.
Milhares de jovens ficam fora da escola.
Nas ruas, acabam sendo atraídos para a delinquência.
A reforma profunda e extensa da educação básica e média, que poderia servir de alavanca à superação do subdesenvolvimento, é postergada em favor de projetos alucinantes, como esse da transposição do rio São Francisco, e de panaceias demagógicas, como essa proposta de reforma universitária, que tem como tributário esse inacreditável e absurdo regime de cotas. Repito: a universidade pública brasileira, com raras e localizadas exceções, está em cacos, mas a reforma educacional necessária tem que começar na base, ou seja, no ensino fundamental e médio.
Um educador inglês disse, há dois séculos, que era necessário gastar tanto com a educação para que as crianças não pusessem fogo na Inglaterra. É o que está ocorrendo presentemente no Brasil. Muitos jovens que a escola não absorve ou rejeita por esse ou aquele motivo estão sendo preparados, nos submundos das cidades brasileiras, para a delinquência – são os trombadinhas, os soldados de narcotráfico, os menores assaltantes e os que perambulam pelas ruas das cidades brasileiros. Uma minoria, aos trancos e barrancos, chega ao ensino superior (público ou privado): muitíssimos deles, contudo, sem condições de exercer o pleno direito da aprendizagem, pois estão mergulhados ou bem próximos do analfabetismo funcional.
Estamos, sem dúvida, às vésperas da catástrofe sugerida por Anísio Teixeira – enquanto ministros, orgulhosos de si mesmos, constroem castelos de areia acerca de uma reforma universitária que perde o sentido se não for antecedida de uma ampla e profunda reconstrução da educação básica e média.
Notícias
1 - O Correio Braziliense, de 24 de junho de 2007, publicou uma matéria sobre a escassez de mão-de-obra qualificada, experiente e com boa educação em segmentos estratégicos, a ponto de impedir que empreendimentos vitais para o Brasil saiam do papel. Segundo diz o jornal, a situação é extremamente grave. “A lista das profissões com carência de trabalhadores qualificados é extensa. Há falta de químicos, economistas, analistas financeiros, atuários, especialistas em tecnologia de informação – e, para surpresa de muitos, soldadores mecânicos”. A verdade é que nos últimos quatro anos nada mudou.
2 - Como observou Humberto Machado Zica, diretor comercial do Grupo Delp, fabricante de bens de capital sob encomenda, citado pelo jornal, “estamos há um mês e meio tentando contratar 35 soldadores e não conseguimos. Nem soldadores aposentados estão mais disponíveis”. O Correio Braziliense cita, ainda, muitas empresas, entre as quais a multinacional indiana Tata e a Vertrax, que estão importando mão-de-obra. “Quanto mais especializado for o posto, mais difícil está encontrar um brasileiro para ocupá-lo”.
3 – Segundo fonte do próprio governo, a Bolsa Família ajudou a retirar oito milhões de brasileiros da miséria. Levantamento feito pelo Correio Braziliense, no entanto, mostrou que a evasão escolar aumentou justamente onde o programa Bolsa Família é mais expressivo! Em artigo publicado na revista ISTOÉ (26 de setembro de 2007), o senador Cristovam Buarque afirmou que a Bolsa Família “pode até diminuir a miséria entre os beneficiários, mas não elimina a pobreza do Brasil”.
4 – O senador Cristovam Buarque notou, em artigo recente, que a transformação da Bolsa-Escola em Bolsa Família produziu três ordens de efeitos negativos. Primeiro, ao eliminar a palavra educação do nome do programa ocorreu uma mudança na percepção do benefício por parte daqueles que o recebem: a Bolsa Família não condiciona o seu recebimento à educação dos seus filhos. Segundo, a gestão pelo Ministério do Desenvolvimento Social transformou o programa numa espécie de apoio social, retirando dela a idéia de “mudança pela educação”. Terceiro, a mistura do programa educacional com programas assistenciais anulou, por assim dizer, a natureza educacional do programa, transformando a Bolsa Família num mero programa eleitoral. Nunca é demais lembrar Luiz Gonzaga e Zé Dantas, que, em 1953, cantaram: “Seu dotô, os nordestino/têm muita gratidão/pelo auxílio dos sulista/nessa seca do sertão/mas dotô uma esmola/a um homem que é são/ou lhe mata de vergonha/ou vicia o cidadão”.
5 – Leio no livro de Rubem Fonseca, O romance morreu:
Uma pesquisa recente sobre hábitos de leitura no meio universitário chegou a conclusões espantosas: trinta e seis por cento dos pesquisados nunca, repito, nunca haviam lido sequer um livro de ficção. Uma minoria lia um ou dois livros de ficção durante o ano. Um número grande lera apenas um livro a vida inteira. Estamos falando de universitários.
Não quero tirar conclusões a partir dessa pesquisa. Elas seriam sombrias demais. Li recentemente, em um estudo das professoras Isabel Sampaio e Acácia Angeli dos Santos, que as chamadas dificuldades de leitura e redação referem-se, na verdade, a deficiências em capacidades cognitivas básicas, como a habilidade de compreender variáveis, fazer proposições, identificar lacunas de informação, distinguir entre observações e inferências, raciocinar hipoteticamente e exercitar a metacognição. Vivendo numa sociedade em que a capacidade de processamento de informação deixou de ser apenas habilidade intelectual para transformar-se em condição de sobrevivência econômica, o indivíduo privado de ferramentas da leitura e da escrita está sujeito à marginalização – pessoal, profissional e social.
Será que os universitários sabem disso?
O texto de Rubem Fonseca é preciso - e serve de melancólico fecho ao presente artigo.

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