O Velhote do Penedo

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O Velho Professor do Penedo em plena labuta! Vida difícil, esta!

sábado, 6 de outubro de 2012

Tolices e grandezas do Brasil


Ninguém é brasileiro impunemente

1 - A ONG Iara, que significa Instituto de Advocacia racial move ações contra “Caçadas de Pedrinho” e “Negrinha”, sob a alegação que o autor, Monteiro Lobato, defende nas citadas obras ideias racistas. De modo a fundamentar tais ações, um cidadão chamado Humberto Adami, do Iara, cita trechos das obras, o que é, no mínimo, uma bobagem. Caso prevaleçam os argumentos de Adami, amanhã livros de Euclides da Cunha (inclusive “Os sertões”, uma obra-prima) e Silvio Romero poderam ser proibidas, tal como músicas como “Samba do crioulo doido” e “O teu cabelo não nega”. Uma pena. No começo do século passado, os argumentos de diferenciação das raças eram tidos como científicos, basta ler “Os sertões”. Eram ideias datadas. Hoje, tais verdades científicas não mais prevalecem, mas daí, a partir de hoje, censurar ideias expressas noutro contexto, é tolice e cheira à censura. Devemos combater o racismo, inclusive denunciando o valor científico que lhe era atribuído. Renegar, censurar, denunciar Monteiro Lobato não é lutar contra o racismo: é defender a tolice.

2 – O julgamento do mensalão será o grande fato político do Brasil em 2012. Eu disse, há tempos, que o Brasil não será o mesmo depois do mensalão: a condenação dos envolvidos no escândalo sinalizará à população brasileira, principalmente aos jovens, as ideia de que o Brasil poderá dar certo. É só uma questão de jeito.

3 – A respeito do crítico Alvaro Lins, transcrevo abarixo a carta que enviei ao embaixador de Portugal em Brasília, Dr. Francisco Knobfli, em 29 de maio de 2000. Dias após o envio da correspondência, fui procurado pelo Adido Cultural da embaixada portuguesa, que me informou que o embaixador fôra simpático à mensagem da carta. Depois disso, o silêncio.     

Brasília, DF. - 29 maio de 2000.

A Sua Excelência o Senhor Embaixador de Portugal em Brasília

Dr. Francisco Knobfli

Senhor Embaixador

Faz parte da história comum dos povos português e brasileiro o episódio do asilo concedido ao general Humberto Delgado pelo governo do Brasil, em 1959.

Contudo, muito mais que o ato de concessão de asilo, muito mais que a personalidade e o perfil político do asilado, tomou vulto naquele episódio a atitude corajosa do então embaixador brasileiro em Lisboa, professor ALVARO LINS, que soube resistir às pressões das autoridades portuguesas e brasileiras da época no sentido de encorajar o general Delgado a renunciar ao pedido de asilo, o que significaria, na prática, entregá-lo à PIDE. Os pormenores desse episódio acham-se perfeitamente documentados no livro Missão em Portugal, escrito pelo professor ALVARO LINS logo após o seu regresso ao Brasil.

Por força da resistência do embaixador brasileiro, o governo português viu-se na contingência de fornecer ao general Humberto Delgado o salvo-conduto que o trouxe, em segurança, para o Brasil. Tão logo isso ocorreu, o professor ALVARO LINS renunciou às suas funções e aos seus compromissos pessoais e políticos com o governo brasileiro, retornando ao Brasil e às suas atividades docentes, jornalísticas e de escritor. Aqui chegando, tratou logo de devolver ao governo de Portugal, por intermédio do então embaixador português no Rio de Janeiro, Manuel Rocheta, a condecoração que recebera, em 1957, no grau máximo da Grã-Cruz da Ordem de Cristo.

Naquela oportunidade, em carta que dirigiu ao embaixador Rocheta, o professor ALVARO LINS esclareceu que o seu ato,

"significando repúdio ao governo salazarista, representa, consequentemente, homenagem e solidariedade ao povo português, oprimido na vida interna do seu país, e deslustrado, na situação internacional, pela mais antiga ditadura existente sobre a face da terra".

O professor ALVARO LINS ainda acrescentou, sem esconder a sua esperança:

"Mais tarde, quando Portugal for restituído, democraticamente, a si próprio, isto é, ao nobre, generoso e admirável povo português, com um governo legítimo e representativo, então, se vier, novamente, a merecer essa mesma condecoração e distinção honorífica, eu a receberei, e ostentarei as suas insígnias, com ufania, desvanecimento e gratidão".

Lamentavelmente, o professor ALVARO LINS não viveu o bastante para acompanhar a derrocada do regime salazarista, pois veio a falecer a 4 de junho de 1970. Tenho certeza, porém, que ele saberia viver o fim da ditadura em Portugal com a mesma profunda e bela emoção vivida pelos portugueses e brasileiros democratas em todo o mundo.

Senhor Embaixador,

Desconheço se os governos democráticos de Portugal tomaram qualquer iniciativa no sentido de resgatar o que, com todo o respeito, considero ser um compromisso moral e político para com a atitude do professor ALVARO LINS.

Admirador sincero da Nação portuguesa, da qual orgulhosamente descendo, tomo a liberdade de sugerir ao governo de Portugal, por seu intermédio, a restituição post-mortem da Grã-Cruz da Ordem de Cristo ao professor ALVARO LINS, em justa homenagem à sua contribuição ao processo de democratização da terra lusitana. Ele, hoje, a ostentaria com orgulho e gratidão, segundo disse na carta citada ao então embaixador Manuel Rocheta.

Creio que este ato significaria não apenas um testemunho de reconhecimento pessoal, mas, sobretudo, um ato de maior aproximação entre os povos de Portugal e do Brasil em prol do fortalecimento dos nossos ideais comuns de democracia e justiça perenes em nossos países.

Agradecendo a atenção e a acolhida de V. Excia., aproveito para transmitir-lhe, Senhor Embaixador, os meus sinceros votos de felicidade e as minhas respeitosas saudações.

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