O Velhote do Penedo

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O Velho Professor do Penedo em plena labuta! Vida difícil, esta!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Crônica de uma fotografia


 

Jornal do Velhote do Penedo

Terça-feira, 26 de novembro de 2013 – Nº 14.

Um jornal a serviço de ideias desabusadas

Maria e Rambo: duas histórias

 

Mais que qualquer tratado ou ensaio sociológico, a fotografia diz tudo. Na periferia do Rio de Janeiro, enquanto ela (para facilitar, vamos chamá-la de Maria) se prepara para ir a um baile carnavalesco, ele (vamos chamá-lo de Rambo), pronto para a guerra, avança de arma em punho. Ela está preparada para a diversão, para o “esquindô-lê-lê”, usa um enorme chapéu à Carmen Miranda. Ele, com certeza, foi feito de papel crepom de cores variadas. Maria veste um duas peças ousado, que ressalta o corpo já um tanto combalido. Maria e Rambo, tão diferentes, têm algo em comum. Ambos estão à vontade: ela no seu traje sumário; ele no seu uniforme, armas nas mãos e na cintura, munição e cantil. Maria – pronta para se divertir, sorrir, cantar. Rambo – pronto para atirar, torturar, matar.

Reparem que Maria olha para o soldado com certa resignação, embora ainda com algum espanto. Ao fundo, do portão de sua casa, uma moradora espia a cena, talvez apenas curiosa. Mais ao fundo, de costas, uma jovem está diante de um balcão, quem sabe bebendo um refrigerante ou apenas jogando conversa fora com alguém que está no interior da birosca.

Notem, agora, o cenário. O chão é de terra, não há calçamento nem calçadas. A fiação sugere a presença de gambiarras e “gatos”. Certamente, os moradores são posseiros ou adquiriram o terreno (onde ergueram as casas, algumas sem rebôco) de um espertalhão qualquer, que não tinha nenhuma autoridade sobre a área onde se instalou a favela. Tinha talvez a força, com a qual impôs condições de preço, prazos e lucros.

A presença de Rambo indica a presença no local de meliantes, quem sabe de uma gangue ou do próprio narcotráfico. Tudo é possível. Contudo, a presença de Rambo no lugar é típica. Nunca vi soldados armados, ostensivamente prontos para a guerra, nas ruas de Ipanema ou Leblon. Rambo é polícia de pobre, das zonas pobres da Cidade Maravilhosa – e lá ela pode disparar quantos tiros quiser, pode matar quantos quiser e puder (meliantes ou não), pode jogar bombas de efeito moral, pode despejar spray de pimenta no rosto das pessoas, pode invadir casas, pode sequestrar e roubar. Nas favelas, na periferia e, não esqueçamos, nas manifestações públicas vale tudo: são dezenas, centenas, milhares de Rambos prontos para o que der e vier. Eles têm a força, como dizia aquele personagem das histórias em quadrinhos.

Tudo o que a fotografia mostra nos provoca melancolia e raiva. Talvez o carnaval de Maria seja o que lhe restou de alegria na vida. Rambo, coitado, não sabe fazer outra coisa: o negócio dele é a violência e o uso da força. Talvez nem o consolo do Carnaval lhe tenha restado.

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