Por do sol em Penedo

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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Teatro no Brasil


A falta que o teatro me faz

Certo dia, perguntei ao ator Sérgio Brito se faltavam autores de teatro no Brasil. A resposta foi quase um lamento: “E como faltam!”

Gosto muito de teatro. Mais do que cinema, o que não me faz ser indiferente a um bom filme. Moro numa cidade, Brasília, onde o teatro inexiste, o que é uma pena. Uma amiga minha disse, rindo, que o teatro de Brasília é alternativo, algumas peças são representadas nas ruas, nos semáforos. Não sei o que é teatro alternativo. Sei o que é teatro – ponto.

Notem que não estou falando de um vilarejo perdido nos cafundós do Judas, estou falando da capital da República. Bem verdade que esta não é a única deficiência cultural da cidade: aqui só temos um jornal, o Correio Braziliense, provinciano e fraco do ponto de vista editorial. O Correio Braziliense é o único jornal que ainda mantém uma coluna social e uma página inteira de fotos da elite local - inculta e jeca. A rigor, as únicas colunas do Correio que merecem ser lidas são as de Luis Carlos Azedo, Márcio Cotrim e Dad Squarisi, não por acaso jornalistas veteranos e cultos.

Não temos, em Brasília, nada que se aproxime a um museu ou a uma biblioteca pública de porte. Sim, temos duas razoáveis bibliotecas, a do Senado e a da Câmara, mas elas não chegam aos pés da Biblioteca Nacional e do Real Gabinete Português de Leitura, ambos no Rio. A biblioteca da Universidade de Brasília poderia ser boa, equivalente às bibliotecas do Senado e da Câmara, se não vivesse à míngua, sem grana para adquirir livros e revistas. Como todas as bibliotecas universitárias, a da UnB é assustadoramente desatualizada.

Sinto falta dos prazeres burgueses que os bens culturais nos proporcionam, mas, sobretudo, sinto falta de teatro. Quando vou ao Rio procuro tirar o atraso, mas convenhamos que isso não basta. Hoje, leio teatro, o que é um consolo, não uma solução. Outro dia, fiquei uma tarde inteira, no melhor dos mundos, lendo aos pulos a obra completa de Martins Pena. Hoje, eu duvido que os jovens saibam que Martins Pena foi o fundador da comédia de costumes no Brasil. Martins Pena, para quem não sabe, escreveu quase 30 peças, entre comédias e dramas. Em apenas 33 anos de existência.

Andei sabendo que anda sendo exibida por aí um espetáculo chamado “Macaquinhos”, financiado pelo Governo Federal, na qual nove atores nus fazem uma cena explícita de perscrutação anal. Os atores postam-se de quatro, formando um círculo. Dedos e narizes são espetados no fiofó do ator da frente. O distinto público recebe então uma aula sobre o ânus humano: o que é um ânus; quais os seus usos; quais os seus variados nomes. Uma demonstração de péssimo gosto, que alguns idiotas afirmam ser arte e exprimir uma mensagem.

Numa exposição (acho que em São Paulo) sobre arte contemporânea, um sujeito espalhou o conteúdo de uma lata de lixo no salão – e apresentou o seu serviço como “obra de arte”, uma denúncia contra o mundo moderno. Os conceitos de arte e cultura foram para o espaço há muito tempo, ao mesmo tempo em que a imbecilidade passou a campear.

Sérgio Brito confirmou apenas o que eu já sabia: não temos autores de teatro. Os grandes do ramo morreram – e não foram substituídos. Os autores brasileiros atuais não escrevem para teatro, talvez porque o teatro tenha perdido público para a televisão e suas inacreditáveis novelas, BBBs, faustões. Li, outro dia, que o brasileiro permanece, em média, quatro horas por dia diante da TV. São 1.460 horas por ano, ou seja, 60 dias – dois meses!

Quando eu era jovem (morava no Rio), os teatros funcionavam a todo vapor, sessões diárias (menos nas segundas), inclusive porque a TV não chegara à falsa sofisticação de hoje. Nas quintas tínhamos matinê, às 17 horas. Eu morava na Rua Senador Vergueiro, no Flamengo, onde havia dois teatros, o Kelly e o Senador Vergueiro. Não existem mais.

Na última vez que estive no Rio assisti, entre outras, “Anti-Nelson Rodrigues”, penúltimo trabalho do autor. Como sempre, o ator Tonico Pereira teve um desempenho exemplar, apesar de ser esta talvez a pior peça de Nelson Rodrigues. Gosto muito de Nelson Rodrigues. Acho que ele escreveu obras-primas, como “Vestido de noiva”, “Boca de Ouro”, “Os sete gatinhos”, “Perdoa-me por me traíres”, “A falecida” e “Dorotéia”.

Nelson não foi o único grande autor de teatro no Brasil. Tivemos, entre outros, Dias Gomes, Oduvaldo Viana Filho, Jorge Andrade, Plínio Marcos, Joracy Camargo, Gianfrancesco Guarnieri, Millôr Fernandes – isto sem falar dos mais antigos ou dos bissextos.

Fazer teatro hoje no Brasil é caro. Além da competição desigual com a TV, o custo de montagem de uma peça é muito alto – e o retorno curto e incerto. Já vi produtores, atores e diretores falarem sobre prejuízos. Ninguém pode montar uma peça com mais de cinco ou seis personagens: o custo seria proibitivo, inclusive porque teatro no Brasil funciona apenas nos fins de semana, uma sessão por dia. Os produtores buscam financiadores, mas a crise brasileira anda dificultando o andar da carruagem. Não sei como andam os recursos do Ministério da Cultura, mas devem estar zerados.

Se há no Brasil grana para financiar coisas como “Macaquinhos”, então estamos perdidos.

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