O Velhote do Penedo

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O Velho Professor do Penedo em plena labuta! Vida difícil, esta!

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Mata Hari: espiã?

Em 1917, em pleno conflito mundial, Mata Hari, bailarina especializada em danças exóticas, foi presa, julgada por um conselho de guerra, condenada à morte e dois meses e meio mais tarde, em 15 de outubro, fuzilada na cidade de Vincennes, na França. Mata Hari, ou seja, Margaretha Gertruida Zelle tinha 41 anos. Nascera em Leeuwarden, norte da Holanda, embora preferisse se declarar nativa das Índias Holandesas, filha de um rajá e de mãe indiana. Os pais de Mata Hari chamavam-se Adam Zelle, empresário, e Antje van der Meulen.

Como dançarina, Mata Hari obteve enorme sucesso nos teatros e music-halls europeus. Recebia cachês astronômicos, que pulverizava em jóias e roupas (renovava seu guarda-roupa com rapidez estonteante). Apaixonou-se muitas vezes e provocou paixões avassaladoras em homens poderosos e ricos. Talvez tenha sido a mulher mais desejada de sua época, o que a fez atrair rancores, ciúmes e ódios. Mulheres a odiavam; homens a veneravam.

Mata Hari viveu sobre o fio da navalha, mas nunca se deu conta disso – ou, se deu, fez que não sabia. Era uma mulher sem preconceitos, que ousou desafiar o moralismo e os costumes provincianos dos primeiros anos do século XX – e pagou muito caro por isso. Devido ao seu trânsito fácil pelos gabinetes, quartos e alcovas de figurões dos mais diferentes governos e das mais variadas estaturas econômicas (banqueiros, industriais), Mata Hari foi sondada por diversos países. Todos a desejavam como espiã, pois, os homens quando elogiados por seu desempenho na cama, tornam-se loquazes e manipuláveis.

A verdade é que nunca ficou provada a culpa de Mata Hari. Contra ela havia apenas um cabograma enviado à espionagem alemã (e interceptado pela contraespionagem francesa), cujo texto era curto e dúbio – e que afirmava que a agente H.21 (que seria o codinome de Mata Hari) “nada produziu de sério depois que a guerra começou”. A vida, peripécias e morte de Mata Hari – não se trata de uma biografia – foram contadas por Paulo Coelho em seu novo romance, “A espiã”.

Considero Paulo Coelho um fenômeno – e isso não é um elogio, mas uma contestação. Ele já vendeu mais de 210 milhões de livros em mais de 170 países e 81 idiomas. Não sei se há equivalente no mundo. No Brasil, ele é ignorado pela chamada inteligência, que o considera um escritor menor. Tudo bem: menor ou não, Paulo Coelho é um escritor: tem uma produção, vive do que escreve, nunca se envolveu em polêmicas inúteis e defende a liberdade de expressão. Jamais processou alguém pelos ataques que recebeu, e eles foram muitos. No episódio em que Roberto Carlos processou Paulo César de Araújo, autor de “Roberto Carlos, em detalhes”, Paulo Coelho não se omitiu: defendeu, em artigos, o direito do jornalista, condenando a censura – que, por sinal, era defendida por gente como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, entre outros “democratas”. O livro do Paulo César de Araújo foi recolhido das livrarias – e queimado por ordem de Roberto Carlos. Num país em que talento superlativo nem sempre anda a par com a grandeza moral, vulgo dignidade, o comportamento de Paulo Coelho no episódio deve ser destacado. A inteligência brasileira, a mesma que não reconhece Paulo Coelho, nada disse contra o arbítrio que vitimou Paulo César de Andrade, nem sobre a atitude do autor de “Brida”. (Sobre o episódio, sugiro a leitura de “O réu e o rei”, de Paulo César de Araújo, que narra os meandros do episódio).

“A espiã”, de Paulo Coelho, enfim, me agradou – não me pejo de afirmar. Claro, Paulo Coelho não é um escritor da dimensão de Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, José Lins do Rego, Rubem Fonseca, Graciliano Ramos e Machado de Assis, para citar os meus preferidos. Mas é competente, domina as técnicas da narrativa – e, sobretudo, não busca uma falsa sofisticação: escreve com clareza e suas frases têm sujeito, verbo e predicado. Não derrapa em silogismos e evita os conectivos. Seu texto lembra redação de estudante aplicado e estudioso: é claro e correto. É sóbrio. Não abusa de figuras de linguagem.

Um amigo meu me afirmou que “O alquimista” é uma droga. Não sei – não o li. Nem pretendo. Li “A espiã” movido pela curiosidade: eu nunca lera Paulo Coelho e nada sabia sobre a saga de Mata Hari. De qualquer forma, aconselhei o meu amigo a ler “A espiã”. Ele pediu o meu exemplar emprestado.

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