Por do sol em Penedo

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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Estão destruindo o Velho Chico
Em novembro de 2006, estive na minha terra natal – Penedo, Alagoas -, onde recebi a Comenda da Ordem do Mérito Barão de Penedo, Grau de Comendador. Uma honra.
Na oportunidade, a convite da Fundação Casa do Penedo, entidade fundada e dirigida pelo meu amigo Francisco Sales, fiz, no Theatro Sete de Setembro, um prédio de estilo arquitetônico neoclássico, fundado em 1884, uma palestra sobre Francisco Inácio de Carvalho Moreira, o Barão de Penedo, “o mais notável dos diplomatas brasileiros do Império”, conforme afirmou Oliveira Lima no livro “Memórias (Estas minhas reminiscências...)”.
A foto abaixo mostra bem a beleza interior do Theatro Sete de Setembro, recentemente restaurado.


Após a palestra, fui conversar com pescadores do Rio São Francisco, que me falaram, com emoção, sobre o lastimável estado do chamado “rio da integração nacional”: escassez de pescado, desaparecimento de espécies, destruição das várzeas, assoreamento, redução da sua profundidade.
As grandes barragens do alto e do médio curso do Velho Chico produziram uma redução drástica da vasão do rio no seu baixo curso. As várzeas arrozeiras, que se alongavam por ambas as margens (principalmente de Propriá até a foz), e que era o fato geográfico mais característico do Baixo São Francisco, desapareceram.
Nas várzeas arrozeiras, durante as cheias, depositava-se material orgânico trazido pelo rio, o que garantia uma fertilização natural, da qual resultava uma produtividade da ordem de três toneladas de arroz por hectare, equivalente à produção do arroz irrigado do Rio Grande do Sul. Em 1962, o geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro dirigiu uma pesquisa de campo, da qual resultou o relatório “Aspectos geográficos do Baixo São Francisco”, que trata desse assunto.
Hoje, as antigas várzeas estão ocupadas, em parte, por uma população pobre e carente, que sofre os rigores das enchentes quando as barragens médio curso do Velho Chico são obrigadas a abrir suas comportas, provocando verdadeiros tsunamis, que invadem e destroem suas casas.
Devido ao rebaixamento da lâmina d’água do Velho Chico, as águas do mar, a partir da sua foz, avançam rio acima, a ponto de alterar a composição química da água. Em boa parte do seu curso, a água do Baixo São Francisco, antes doce (como costumam ser as águas dos rios), agora é salobra e amarga.
Com o rebaixamento do nível da água do Rio São Francisco, é possível enxergar grandes bancos de areia em toda a extensão do baixo curso. Vejam as fotos abaixo.





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Fui ver o Velho Chico. Fiquei assustado. Acreditem: sob a ponte que liga Propriá (Sergipe) a Porto Real de Colégio (Alagoas), o assoreamento e bancos de areia permite que as pessoas atravessem o rio, de uma margem a outra, a pé, com a água abaixo dos joelhos!
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Quando eu era garoto, eu passava quase todas minhas férias de fim-de-ano em Penedo. Vi navios de grande porte navegar no Baixo Rio São Francisco, levando e trazendo produtos do Rio de Janeiro, Salvador e Recife.
Sim, pelos portos de Penedo e Propriá, a região exportava produtos do sertão, como o algodão, o fumo, o coco, o arroz, couro, tecidos (produzidos na fábrica de Neópolis) entre outros. Mais: pelos portos de Penedo e Propriá, a região recebia produtos do sul do país. Hoje, os portos estão desativados, inclusive por falta de calado.
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O Velho Chico, portanto, está doente. E sobre esse organismo debilitado que o governo brasileiro, apoiado em pareceres e estudos de tecnocratas que jamais viram o Rio São Francisco, levar adiante o projeto da transposição. Um projeto desnecessário, descabido, caro, que ameaça o meio ambiente, que agride bom senso, sustentado em argumentações e premissas falsas de tecnocratas arrogantes que não conhecem a região, mas são capazes de falar sobre ela nos gabinetes refrigerados de Brasília.
Sou contra a transposição do Rio São Francisco, mas a favor de um projeto de salvação do Velho Chico.
Li inúmeros textos, alguns contrários, outros favoráveis à transposição.
Muitos dos argumentos favoráveis, inclusive aqueles que emanam das chamadas altas autoridades, são eminentemente ideológicos. Apresentam a transposição como algo milagroso, capaz de resolver todos os problemas do semiárido. Prometem que, através da transposição, haverá água permanente às casas da população pobre do sertão, o que é, antes de tudo, propaganda enganosa: primeiro, porque menos de 10% da população pobre de quatro dos dez estados do semiárido brasileiro poderão ser beneficiados; segundo, porque a transposição avisa a atender às necessidades dos ricaços locais, pois a água transportada visa a atender, de fato, ao cultivo do camarão (para exportação), ao agronegócio, ao parque industrial e, sobretudo, à irrigação – de produtos, esses sim inacessíveis à mesa dos pobres da região. Não foi à-toa que o presidente da associação industrial de Pernambuco, dono de vastas extensões de terras em pelo menos dois estados nordestinos, declarou o seu “irrestrito apoio ao projeto da transposição”.
Afora tudo isso (e muito mais), há as questões ecológicas.
Na antiga União Soviética, um burocrata local propôs a (êpa!) transposição dos rios Sirdaria e Amudaria, que alimentavam o Mar do Aral, que, até 1960, era o quarto maior lago do mundo, com um volume estimado de mais de 1.000 quilômetros cúbicos. O Mar de Aral cobria, então, 68 mil quilômetros quadrados. Pois bem, a transposição dos rios Sirdaria e Amudaria provocou grave acidente ecológico na região: hoje, o Mar do Aral está reduzido a menos de 10% da área original, a salinidade ultrapassou 100 g/l. O Mar do Aral está morto, sem vida fluvial. A população que vivia da pesca no Aral foi obrigada a emigrar.
As fotos abaixo ilustram a morte do Mar do Aral. Na primeira, a redução do volume da água. Na segunda, a melancólica transformação do quarto maior lago do planeta num cemitério de barcos.

Um dia eu conto para vocês, meus amigos, o que aconteceu no rio Colorado, no México e no rio Amarelo, na China.
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Um dia, debatendo com um defensor do projeto da transposição das águas do Velho Chico, fiz de público a pergunta:
- E se houver um desastre ecológico na região? – Provoquei: - Quem vai preso?
- Como?
Repeti a pergunta. O tecnocrata me disse apenas:
- Ora, Dr. Ronaldo, o senhor bem sabe que acidentes podem ocorrer em qualquer obra... Mas eu tenho fé que nada vai acontecer de ruim na região.
Provoquei mais ainda:
- Fé ou certeza?
O tecnocrata não me respondeu.
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Recomendo a todos a leitura de três livros que tratam dos mais variados aspectos do projeto da transposição das águas do Velho Chico.
Caso não tenham tempo, nem disposição para ler os três livros, leiam os dois (curtos) artigos abaixo.
O primeiro artigo foi elaborado pelo professor emérito da Universidade de São Paulo, geógrafo Aziz A'Saber. O segundo foi escrito pelo engenheiro agrônomo João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife.
Para lê-los, basta clicar no título do artigo.

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 Livros sobre a transposição do Rio São Francisco. 
Quintiere, Marcelo de Miranda Ribeiro. Transposição do São Francisco – uma análise dos aspectos positivos e negativos do projeto. Curitiba, Juruá, 2010.


Suassuna, João. Transposição do Rio São Francisco na perspectiva do Brasil Real. São Paulo, Porto das Ideias, 2010.


Coelho, Marco Antonio Tavares. Os descaminhos do São Francisco. São Paulo, Paz e Terra, 2005.


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