O Velhote do Penedo

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O Velho Professor do Penedo em plena labuta! Vida difícil, esta!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Anísio e Darcy: dois educadores

Nota prévia - O velho professor do Penedo reuniu durante a vida algumas admirações de alto estilo. Hoje, cá nesse Papo de Amigos, falo sobre Anísio e Darcy, duas cabeças privilegiadas, duas grandes admirações. Dois brasileiros que fazem falta.

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Anísio Teixeira


Darcy Ribeiro



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Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro foram, sem dúvida, dois dos maiores intelectuais do século passado, com a particularidade muito especial de terem sido também homens de ação.
Essa capacidade de conciliar "ciência" e "política" é, segundo Max Weber, qualidade rara na intelligentsia, principalmente porque existe um antagonismo quase intransponível entre as duas atividades. A ciência apoia-se, sobretudo, na reflexão, na convicção e na ideia do conhecimento provisório. A política baseia-se na tenacidade, na responsabilidade e na decisão, esta quase sempre em cima do laço, intuitiva e, por isso mesmo, pouco racional. Ciência e política, portanto, constituem, para repetir Weber, duas "vocações" distintas, quase inconciliáveis, que Anísio e Darcy, cada qual a seu modo, souberam unir em plenitude.
Anísio e Darcy possuíam ainda outro traço em comum: tinham ambos uma personalidade inquieta e ousada. Eram exageradamente vaidosos (Darcy bem mais que Anísio), mas isso não impediu que tivesse, um pelo outro, verdadeira amizade e sincera admiração. Embora tenham transitado no mesmo meio, não competiram jamais entre si; ao contrário, ajudaram-se mutuamente, apesar de discordarem em várias e importantes questões. "Se me perguntarem pelo encontro mais importante de minha vida, eu diria que foi o nosso encontro". A afetuosa confissão é de Darcy Ribeiro. A referência é a seu encontro com Anísio Teixeira.
Darcy admitiu mais de uma vez a grande influência que Anísio exerceu sobre ele. Quando o conheceu, Darcy ficou, a contragosto, impressionado com a amplitude espiritual de Anísio. Enquanto Darcy - na época, anos 1950, um radical e estreito militante do Partido Comunista Brasileiro - só tinha olhos, ouvidos e boca para os seus dogmas ideológicos, Anísio ousava afirmar, em bom som, quase num desafio, que não tinha nenhum compromisso com suas ideias. De início, Darcy ficou atônito e irado ao escutar tal barbaridade: como não ter compromisso com suas ideias? Que maluquice era aquela? Anos depois, já desasnado, Darcy percebeu o sentido e a extensão real das palavras de Anísio: a única coerência admissível num intelectual é a fidelidade com a busca contínua da verdade. As ideias são meras "vestimentas provisórias de uma verdade sempre inatingível". Essa foi uma das tantas lições que o esquerdista Darcy aprendeu do conservador Anísio Teixeira.
Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro eram, antes de tudo, educadores - ou, mais precisamente, pensadores e gestores de formas institucionais de transmissão da cultura. Dedicaram grande parte de suas vidas a remar contra a maré da ignorância e do analfabetismo. A imaginar e a criar escolas públicas que funcionassem com um mínimo de eficácia e honestidade para com os filhos da gente pobre brasileira.
Anísio, primeiro, e Darcy, depois, descobriram que a escola pública de ensino comum é a maior das criações humanas. E o mais poderoso instrumento com que se conta para produzir democracia e corrigir as desigualdades provenientes da posição social e da riqueza. Anísio lançou a semente desse projeto ao plantar, na Bahia, as Escolas-Parque, experiência que ele tentou multiplicar nos primórdios de Brasília. Os militares de direita, após o assalto de 1964, destruíram o projeto de Anísio.
Darcy Ribeiro foi um escritor bem mais realizado e exuberante que Anísio Teixeira. Além de uma importante obra antropológica ("Os índios Kadiwéu: o saber, o azar e a beleza", "Suma etnológica brasileira" e "Diários índios: os Urubus-Kaapor"), escreveu livros sobre a natureza da história e da sociedade brasileiras, como "O povo brasileiro", "O processo civilizatório" e "Os brasileiros: teoria do Brasil", e obras de ficção, cujo principal produto foi o romance "Maíra".
Como notou Guillermo Bonfil Batalla, a vocação primária de Darcy Ribeiro era a de participar da transformação da ordem social, não apenas propondo ideias, mas lutando direta e pessoalmente para implantá-las. Foi ministro da Educação e Chefe da Casa Civil do governo Jango Goulart. Lutou em favor da reforma agrária e dos direitos dos índios e contra a venda das riquezas do país ao capital estrangeiro. No exílio, trabalhou com Alvarado, no Peru, e foi assessor de Allende, no Chile. Ao retornar, aderiu ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), de Leonel Brizola, e foi eleito vice-governador do Estado do Rio de Janeiro. Elaborou e coordenou o Programa Especial de Educação, cuja meta principal era a de implantar 500 Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), um verdadeiro laboratório da proposta de Escola Nova, que perfilava o ideário de Anísio Teixeira, vide as Escolas-Parque. O Programa Especial de Educação foi, sem dúvida, o grande empreendimento de educação pública jamais realizada no Brasil. As elites puseram no chão esse projeto de Darcy Ribeiro.
A obra literária de Anísio Teixeira versou, exclusivamente, sobre a educação - e alguns dos seus livros tornaram-se clássicos. Em "Educação não é privilégio", talvez o mais importante de todos, Anísio analisou o arcaísmo da escola brasileira, sua estrutura deficiente que leva à formação de privilegiados. Embora escrito em 1957, esse livro é, ainda hoje, atual, principalmente porque define a escola universal e pública como um verdadeiro movimento popular pela educação.
Hermes Lima observou que Anísio Teixeira dominava uma qualidade invulgar: sabia pensar e sabia fazer. "É notável", observou, "a segurança com que, nos exames a que submeteu a realidade educacional brasileira, Anísio debatia questões de financiamento da educação, de organização de programas, de técnicas de ensino". Ao longo da vida, Anísio esteve na frente de importantes projetos educacionais, como dirigente, formulador, ou ambos.
Na concepção filosófica de Anísio, a educação destinava-se tanto a mudar como a conservar. Era um humanista: acreditava sinceramente no homem, nas suas possibilidades de mudar, de reconstruir, de refazer e de pensar, em benefício de todos, da sociedade. Como disse Gilberto Freyre, Anísio era "uma das mais completas personalidades de renovador da educação correlacionada com a cultura em geral - cultura no largo sentido sociológico - que a América já conheceu".
Anísio e Darcy atuaram em alguns dos setores mais importantes da cultura brasileira - e criaram instituições da mais alta relevância. Anísio, por exemplo, criou a primeira universidade brasileira digna desse nome, a Universidade do Distrito Federal, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Darcy foi o pai amantíssimo da Universidade de Brasília ("a minha mais querida filha", dizia, amoroso) e da Universidade do Norte Fluminense. Anísio craniou o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), com a finalidade de pensar os fundamentos da educação brasileira, e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), para cuidar da formação de professores do ensino superior. Darcy bolou o Museu do Índio, de modo a criar uma consciência positiva em relação aos mais autênticos e desprotegidos brasileiros, e o Sambódromo, misto de centro popular de cultura e escolão com mais de cem salas de aula.
Bem verdade que a amizade entre Anísio e Darcy não foi isenta de desentendimentos e turbulências. A devoção de Anísio por John Dewey, fundador de uma pedagogia baseada no instrumentalismo, uma variedade do pragmatismo, irritava Darcy que, por esquerdismo, não suportava o apreço do educador baiano pela civilização americana.
Anísio vivia defendendo a ideia, rejeitada in limine por Darcy, de que a educação devia ser comunitária. A proposta de Anísio tinha raízes no processo de ocupação do território americano pelos pioneiros, que criaram milhares de pequenas comunidades praticamente autossuficientes, inclusive em matéria educacional. Darcy não se conformava: os rincões brasileiros, dizia, eram dominados pelo latifúndio, pelo mundo sombrio do latifúndio - e este não estava nem um pouco interessado em educação popular e, sim, na perpetuação do seu domínio. Segundo Darcy, a educação era, e devia ser, uma política de Estado. Tal divergência os acompanhou pela vida afora, mas nunca os separou.
Em suma, Darcy era bem mais esfuziante que Anísio, mas ambos, a rigor, tinham a rara capacidade de rir de si mesmos, zombando dos interlocutores que, talvez, esperassem encontrar nos dois rigidez, circunspecção e arrogância.
Anísio morreu, em 1971, quando despencou no fosso do elevador do prédio em que morava Aurélio Buarque de Holanda, a quem acabara de visitar. Darcy lutou contra a metástase de um câncer na próstata, que finalmente o derrotou em 1997.
Na opinião do velho professor do Penedo, foram dois heróis. Deixaram uma herança rara e inesquecível, toda ela feita de ideias, generosidade e esperanças.
O Brasil sente falta de homens como Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira.

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