Por do sol em Penedo

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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ainda a leitura, dias que passam e Dolores

Ler é fundamental (2ª parte)

Disse, anteriormente, que a clarividência nos fornece as condições de ver além do “nevoeiro das aparências”. Disse, também, que a clarividência não é um sentido natural do homem, como o olfato, a visão, o paladar. Clarividência se adquire através da leitura dos bons livros, escritos por bons escritores.

Um exemplo: em “Otelo”, Shakespeare elabora um belíssimo estudo sobre a inveja e o ciúme. Inveja é diferente, por exemplo, da cobiça. Inveja é não querer que o outro possua algo (ou alguém) que eu não possa ter. Cobiça é o que move o roubo: por cobiça, eu roubo algo que pertence a outro. A inveja, não, por isso é um sentimento destrutivo e inconfessável. Ciúme, por sua vez, vincula-se ao sentimento da posse. Eu sinto ciúme em relação a algo (ou alguém) porque vejo nesse algo (ou nesse alguém) um objeto (ou pessoa) que me pertence. Pois bem, em “Otelo”, Shakespeare trabalha, de um lado, com a inveja de Iago (que inveja Otelo porque este “possui” Desdêmona) e o ciúme de Otelo (que supõe que a “sua” Desdêmona o traiu com Iago), que o leva a matar e a suicidar-se.

“Otelo” é uma grande peça, uma das maiores de Shakespeare, porque não descamba para o “ensaísmo”, embora penetre intimamente na alma humana.

Hoje, vamos desenvolver aqui o segundo motivo que explica a afirmação de que “ler é fundamental”.

Todos nós, de uma maneira ou de outra, desejamos ter “bons pensamentos”. Ter “bons pensamentos” significa, antes de tudo, possuir o melhor e o mais útil instrumental da nossa vida criativa.

A criação intelectual depende e tem por base os “bons pensamentos” – que também podemos chamar de “pensamentos fecundos”. Como disse Otto Lara Rezende, “escrever bem é pensar bem”.

Ter “bons pensamentos”, portanto, é pensar bem. Pensar bem é pensar com criatividade, clareza e precisão. Parafraseando Otto Lara Rezende, criar bem é ter “bons pensamentos”, ou seja, é pensar bem. Dito de outro modo, só é capaz de criar quem pensa bem, ou seja, quem tem “bons pensamentos”.

Certa vez, ao responder a uma pergunta durante um debate na universidade, este Velho Professor do Penedo disse o seguinte:

·        Há pessoas que pensam o “já pensado”. São as pessoas presas na repetição. São as pessoas que não desenvolveram a clarividência.

·        Há pessoas que pensam o “não pensado”. São as pessoas que realmente criam novos pensamentos ou novas formas e maneiras de pensamento.

·        Há pessoas que pensam o “impensável”. São as pessoas que pensam o que os outros, por limitações diversas, seriam incapazes de pensar.

As pessoas capazes de criar, de pensar bem, de ter bons pensamentos, são as pessoas capazes de pensar o “não pensado” ou o “impensável”, ou seja, de pensar o novo, o criativo, o inovativo, aquilo que ainda não se tinha pensado ou de pensar aquilo que ainda não se tinha ousado pensar.

Contudo, não é possível ter “bons pensamentos” sem se recorrer e utilizar a nossa herança cultural, ao acúmulo cultural da humanidade, do qual somos herdeiros.

São os livros que preservam, guardam e armazenam a maior parte da herança cultural da história de um povo e da história da humanidade. Pensar bem é, antes de tudo, ter ou guardar a memória da herança de um povo e da humanidade.

(Continua)

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Y así pasan los días (2)

1 – A CPI do Cachoeira promete. Alguns membros da Comissão: Renan, Collor, Gim Argelo, Jucá. Só faltaram o Maluf e o Tiririca.

2 – “Tia” Dilma entrou na lista das cem pessoas mais influentes do planeta. Bonito. Mas sabem quem entrou na lista também? Kim Jong-Un, o Líder Supremo da Coréia do Norte. Isto a Rede Globo não deu, mas é verdade.

3 – Apenas 30 mil pessoas em todo o Brasil foram assistir o filme “Heleno”. Um fiasco. Por  livros e filmes sobre o futebol, esporte tão caro ao brasileiro, não vendem e não caem no gosto do público?
4 - A charge do dias



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Dolores Duran canta “Tião” (1957)

Além de excelente cantora, Dolores Duran foi uma grande compositora. Com Tom Jobim, compôs duas obras-primas: “Estrada do Sol” e “Por causa de você”. Sozinha, compôs “A noite do meu bem”, “Fim de caso”, “Solidão” e “Castigo”. Nesta última, Segundo o também compositor Antonio Maria, ela disse o que nenhum outro compositor ou letrista soube dizer antes:

A gente briga

Diz tanta coisa que não quer dizer

Briga pensando que não vai sofrer

Que não faz mal se tudo terminar

Há coisa mais simples e bonita que isso? Dolores Duran é uma das minhas divas (V. “As Divas do Rádio Nacional”, Rio, Casa da Palavra, 2010).

No vídeo, ela canta “Tião”, de Jorge de Castro e Wilson Batista.


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