Por do sol em Penedo

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sexta-feira, 18 de março de 2016

Caos no Brasil


Sem saída e mal pagos

Como diria minha avó, estamos num mato sem cachorro.

O governo faliu, a oposição está sem rumo e, sobretudo, não temos saída da crise – pelo menos, eu não vejo saída alguma. E quem diz que vê, está mentindo ou sonhando.

Há alguns meses, eu escrevi que era contra o impedimento da Dilma, não porque não houvesse motivo para isso, mas porque seria algo traumático, que poderia gerar desdobramentos muito sérios. Falei, então, em renúncia – e de um esforço de gerar uma coalizão que livrasse o país da crise e aliviasse o povo de suas consequências. Por fim, acrescentei que isso era apenas uma vontade, um sonho, com tudo de utópico que ele, o sonho, possui. O último líder político do Brasil é Lula, que está sendo investigado e periga ser preso. Só faz sucesso junto à militância. Não temos outro.

Às vezes, leio amigos meus do feice, gente que eu respeito política e intelectualmente, falar em saída da crise pela esquerda, pois a direita já preparou a dela: o golpe. Sempre que leio isso, tenho vontade de chorar.

Primeiro, porque o argumento renova a velha dicotomia direita e esquerda, o que é uma tolice, pois está longe de ter valor explicativo. Muita gente, da velha e da nova esquerda, está contra a Dilma e, com ou sem razão, considera Lula um enganador - ele sim, um sujeito de direita. Discutir os problemas com base em direita e esquerda não demonstra só indigência intelectual, mas – e principalmente – fuga da realidade. Não dá para colocar no mesmo prato gente como Jarbas Vasconcellos e Cristovam Buarque e gente como Bolsonaro e Aécio. Todos são contra a Dilma, mas eles são diferentes entre si. Ou não são?

Segundo, porque não há golpe em andamento. Eu tinha 20 anos em 1964 e por tudo que vi e li a respeito do golpe militar, dois ingredientes são fundamentais: movimentação no meio militar e adesão dos principais governadores. Em 1964, as Forças Armadas dispunham de lideranças marcantes, que lideraram e tocaram a ditadura. Não há isso, no momento, nem parece que vai haver.

Terceiro, porque não há saída pela esquerda possível. Esperar uma eventual saída pela esquerda é sonho. Quem faria? Quem conduziria um projeto econômico de esquerda? Nem mesmo o PT poderia fazer isso, pois há muito perdeu credibilidade.

O que há, nas ruas, é um movimento geral de indignação, independentemente de classe social, raça e posição ideológica: os manifestantes contra o governo estão na rua porque estão indignados com a corrupção e porque se sentem ludibriados por um governo que prometeu bonança, mas produziu inflação, desemprego, péssima educação, péssima saúde e muito desencanto. Claro, Bolsonaro defende o golpe, mas Bolsonaro é uma voz isolada, embora o povo do Rio de Janeiro lhe tenha dado quase 600 mil votos.

Tenho escrito também o seguinte: o PT (e seu reboque, o PCdoB) tornou inviável no futuro nova eleição de um governo verdadeiramente de esquerda. Como dizíamos no passado, o PT queimou a esquerda (como proposta de governo e ideal político) e pôs por terra o ideal socialista. Quem era indiferente à esquerda (e votou no Lula em duas eleições), hoje se transformou em antiesquerdista, pois a esquerda está, hoje, no Brasil, identificado com o PT, que por sua vez tornou-se sinônimo de corrupção, bandalheira e incompetência administrativa.

Quando eu vejo uma manifestação promovida pelo PT, sofro um ataque de enfado e tédio. O PT, em geral, só consegue reunir pessoas a troco de transporte, sanduíche de mortadela e 30 ou 50 paus de pagamento. Militância remunerada. Exceção são os ditos intelectuais e artistas, a maioria dos quais dependem de verbas públicas para produzir. O PT de hoje é uma caricatura de má qualidade do PT de 1980, que defendia a ética.

A ida de Lula para a Casa Civil do governo Dilma não vai servir para nada. Lula não tem condições de colar os cacos de um governo mergulhado na incompetência e na falta absoluta de projeto. O impedimento de Dilma é, hoje, uma possibilidade real.

Em resumo, o Brasil ainda vai gramar muito, a crise vai se aprofundar e quem vai sofrer – e muito – vai ser o povão.


Em tempo

Li, nos últimos dias, algumas declarações de Lula sobre as mulheres (deputadas e assessoras do PT) que mostram bem o caráter do ex-presidente. Não vou repetir as palavras de baixo calão pronunciadas sobre suas “companheiras”, nem falar da insinuação abjeta que ele fez em relação a uma de suas principais assessoras, a senhora Clara Ant. Também não vou defendê-las, pois isso cabe a elas, que, tudo indica, acharam uma graça enorme nas ofensas de Lula. Compostura no PT é coisa rara.

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