Por do sol em Penedo

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sexta-feira, 13 de maio de 2016

É hora de ter a cabeça fria

"Tempos difíceis"
 
Por motivos que me dispenso comentar, não acompanhei a sessão do Senado.

Eram cinco e pouco da manhã, eu já tinha acordado – e estava na cama lendo quando ouvi o som dos fogos de artifício. Levantei-me e fui espiar a história que se desenrolava a poucos quilômetros da minha casa. Liguei a televisão – e vi que Dilma tinha sido afastada do cargo por 55 a 22 votos. Uma goleada. Os fogos eram de comemoração.

Informado dos fatos, voltei aos “Tempos difíceis”, de Charles Dickens (Boitempo Editorial). Não, não procurem nenhuma insinuação entre o título e o momento político brasileiro.

Dilma plantou e colheu. Ela, conforme ficou certo, cometeu crimes de responsabilidade, mas ela mostrou-se péssima gestora, medíocre política e pífia articuladora. Um desastre. E seus auxiliares, gente do tipo Mercadante, Berzoine, Cardoso, sentiam-se os tais, mas só fizeram burradas.

A verdade é que ela foi derrocada pelo “conjunto da obra”: inflação, carestia, desemprego (11 milhões de brasileiros), corrupção (não dela, mas de parte expressiva da elite petista), déficits, crateras orçamentárias, destruição da Petrobrás, dos Fundos de Pensão, várias outras estatais, como Eletrobrás. O BNDES é, hoje, uma vergonha – e quando a caixa-preta for aberta, meus amigos, saiam debaixo.

Diante desse monumental descalabro, Dilma brandia os chamados programas sociais. Bolsa-família, no meu entender, é uma falácia. Minha casa, minha vida é uma enganação: casas mal construídas, sem rede de esgoto, que, em poucos anos, já apresenta infiltrações, rachaduras, portas e batentes emperrados. Sei disso porque constatei pessoalmente – ninguém me contou. Metade da população brasileira está endividada. Não há ideologia capaz de afrontar a realidade.

O PT, como partido, vai encolher bastante. Muita gente vai abandonar o partido nos próximos dias ou semanas, mormente porque teremos eleições breve – e entre a fidelidade partidária ou a vitória eleitoral, muitos petistas vão escolher a segunda. É a vida.

Os eleitores não vão votar no PT, a não ser nos grotões. O PT vai se transformar num partido político nanico, mas não vai desaparecer. Desaparecer nacionalmente parece ser o destino do PDT, que se transformará num mero partido gaúcho. O inacreditável Lupi asfixiou um partido que ele recebeu de bandeja. Um partido que reuniu grandes figuras, como Brizola, Darcy Ribeiro, Doutel de Andrade, Brandão Monteiro, entre muitos outros, e que hoje está reduzido ao próprio Lupi e o inacreditável senador Teomário Mota.

Dilma saiu do Planalto cuspindo maribondos. Dizem que vai fazer oposição, pois o Senado garantiu-se uma mordomia absurda. Mas Dilma, logo, logo, vai submergir na solidão, pois as visitas ao palácio Alvorada vão minguar, como as manifestações em sua defesa. Afinal, o PT vai tratar dos seus cacos, tentando colá-los – e ninguém vai perder tempo com uma presidente tocada do poder e que, supõe-se, não volta mais. Cruel isso? Talvez, mas a vida – sobretudo, a política – é assim. Afora isso, a operação Lava-Jato aí está para assombrar alguns ex-ministros que perderam o foro privilegiado. Lula que se cuide.

O governo Temer vai dar certo? A questão é bizantina. Como não sou adivinho, tenho uma opinião: nenhum governo pode ser igual ou pior que o governo Dilma. Há gente boa no ministério Temer – falo de competência, não de ideologia. Discutiu-se que falta mulher no grupo. Bem, pode ser, mas se esse problema não existisse, estaríamos discutindo a falta de negro, cadeirante, albino, anão e homossexual.

Um deputado do PT postou no seu blog um comentário preconceituoso: é um ministério de velhos – e vinha em seguida um rol de epítetos ofensivos, direita, incompetentes, por aí. Sei, o deputado é um idiota, mas é bom chamar a atenção para os escorregões ideológicos.

Não sou otimista em relação ao governo Temer, até porque não cultivo o otimismo como visão do mundo e da vida. Mas o Brasil não aguenta mais – e saiu de um processo traumático, difícil. A situação é grave, a crise atinge a todos. Eu, pessoalmente, ando nas ruas, ando de ônibus, visito as cidades satélites, vejo a vida – e o que vejo não me agrada. A miséria campeia.

Repito, por fim, o que já disse. Além dos danos econômicos causados pelos governos do PT, eu aponto o que para mim são os mais importantes:

1) a desmoralização da esquerda, na medida em que o PT conseguiu difundir, junto à população, a ideia de que ser de esquerda é ser incompetente, arruaceiro e corrupto. Esta foi a ideia que o governo Dilma legou ao país;

2) o governo Dilma fez tantas besteiras e tolices que pôs no colo de todos nós o governo Temer. Se o governo Temer for pior que o governo da Dilma – adivinhem de quem é a culpa?

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