sábado, 4 de junho de 2016

Somos uma sociedade enferma


Sem futuro

O episódio da morte de uma criança de 10 anos num tiroteio com a polícia, o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos, o estupro de um menino de seis anos por dois adolescentes num condomínio de luxo, os constantes linchamentos, a corrupção danosa na Petrobrás, realizada por uma quadrilha orquestrada, o cinismo de tantos governantes e ex-governantes, de políticos, e muitos outros pavorosos acontecimentos mostram, com clareza, que a sociedade brasileira está irremediavelmente enferma.

O menino de 10 anos tinha um companheiro de luta: outro menino, este de onze anos, que sequer pode ser levado para um Núcleo de Custódia. Os dois meninos assaltaram uma mulher, fugiram no seu carro, dispararam pelo menos três tiros contra a polícia. Os dois meninos já tinham assaltado antes – e como eram crianças foram, na época, entregues às mães. A mãe do menino de dez anos (que morreu) já cumpriu pena, inclusive por tráfico – e o pai está preso no momento. As duas crianças, portanto, estavam na rua, ao deus-dará, sem famílias, sem escolas, sem qualquer tipo de assistência. O estupro coletivo da menina de 16 anos pôs em evidência uma estatística horrorosa: a cada onze minutos uma pessoa é estuprada no Brasil. O estupro do menino de seis anos num condomínio de ricos está correndo em sigilo. A corrupção na Petrobrás nos escandaliza diariamente, pois a cada dia uma nova delação acrescenta mais fatos à dilapidação da companhia, que, um dia, foi símbolo da capacidade brasileira. Um horror tudo isso.

Conto um episódio. Há alguns anos, estive em Aracaju a convite do meu saudoso amigo Marcelo Deda, na época prefeito da capital sergipana. Hospedei-me num hotel na Praia de Atalaia. Após me instalar, sai a pé para almoçar num restaurante próximo. No caminho, fui abordado por duas meninas, que me ofereceram os seus “préstimos”, não sei se me entendem. Fiquei chocado. Conversei, à noite, com Deda a respeito – e ele me fez um longo e sofrido relato sobre a prostituição infantil na cidade. Claro, o fenômeno não é exclusivo de Aracaju, muito menos das capitais do Nordeste: a prostituição infantil está presente em todo o país - nas capitais, no interior, nas estradas. O que fazer? O Brasil não sabe lidar com os seus problemas.

O drama social brasileiro é extenso e profundo. Somos um povo de analfabetos, um povo inculto, ignorante, um povo deformado por uma evolução histórica que tratou o povão como uma lenha, como um carvão, enfim, que precisava ser queimado na produção da riqueza dos 10% mais ricos. Somos um povo miseravelmente explorado, roubado, estuprado por uma elite irresponsável e insensível. Quando vejo os que se dizem de esquerda (uma esquerda atrasada, envelhecida) lutar pelo Ministério da Cultura, como se o desenvolvimento da cultura dependesse de um prédio na Esplanada dos Ministérios, sinto uma depressão, um tédio miserável. Defender os governos do PT é estar ao lado da corrupção, da gatunagem, da incompetência – e, pior, indiferente aos 12 milhões de desempregados, à inflação, ao buraco de 170 bilhões, à miséria. Ao dizer isto, não estou defendendo nenhum outro partido, nenhuma outra força política. A meu ver, em matéria política, estamos num beco sem saída.

O PT ficou treze anos no poder. Tinha tudo para iniciar um processo de revitalização da sociedade brasileira, criar as bases de uma sociedade mais justa, mais igualitária e decente. Não. O PT – ou, pelo menos, sua liderança – aliou-se a empreiteiras, bancos, garantindo a estes lucros extraordinários, como disse o próprio Lula. Mas tal aliança teve um preço: os bilhões que foram transferidos ao partido e, deste, aos bolsos e contas no exterior das lideranças. Ao povão garantiram Bolsa Família, que já existia com outro nome, o programa Minha Casa, Minha Vida, conjunto de edificações de péssima qualidade e sem rede de esgoto. Migalhas se comparadas aos lucros dos bancos e empreiteiras. E há quem veja nisso ações de um partido de esquerda.

Esta semana, Dilma afirmou que o governo Temer é “um governo de velhos, brancos e ricos”, numa clara referência preconceituosa aos chamados idosos. Se eu dissesse aqui que Lula é mameluco, os petistas iriam me crucificar; quando Dilma afirma que o governo Temer é ruim porque tem “velho”, os falsos esquerdistas acham uma graça enorme, pois se recusam a perceber que ao dizer que o que disse, Dilma usa o termo “velho” como uma referência negativa, logo preconceituosa. E pensar que a Dilma tem 70 anos.

Estou convicto, enfim, de que o Brasil como civilização não tem futuro. As forças que lutam e agem para manter o Brasil no estágio que está são muito fortes, quase invencíveis. Um Brasil atrasado é terreno favorável à proliferação de ervas daninhas, como o PT. E não só o PT.

Somos uma sociedade enferma. Muitos a querem assim, pois lucram com essa enfermidade.

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Em tempo (1): Volto a perguntar: de que vivem Boulos e Stédile? Trabalham? Ganham quanto? De quem?

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