Por do sol em Penedo

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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Do puxa-saquismo ao atraso da esquerda brasileira


Depois que o Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia, afirmou que Dilma era uma pessoa extraordinariamente culta e que falava latim com perfeição – cheguei à conclusão que: 1) o puxa-saquismo não tem limites; 2) o senso de ridículo tornou-se raro no Brasil.

As esquerdas velhas e superadas acrescentaram ao “fora, Temer!” a exigência de “eleições diretas já”, como se a história, mesmo como farsa, pudesse se repetir. Não pode. A campanha das “diretas, já”, em 1983-1984, uniu todos os partidos, tínhamos grandes lideranças civis engajadas, governadores dos estados de Minas, Rio e São Paulo se uniram, a população estava praticamente unida em torno desse objetivo. Nada semelhante ao que ocorre hoje.

É triste e, ao mesmo tempo, constrangedor constatar que amigos meus, gente que respeito e afianço, estejam embarcando nessa canoa furada, própria de um partido, o PT, e das organizações a ele vinculadas, que perderam o discurso, a compostura e a dignidade. As eleições desse ano mostrarão o quanto o PT murchou no Brasil – e o quanto a população perdeu a fé e a crença na política e nos políticos. Será uma lição, sem dúvida, que ninguém levará em conta.

Sou favorável a uma nova constituinte, digamos, em 2018, em eleições separadas: os constituintes seriam eleitos apenas com a missão de escrever uma nova constituição, com mandato de até dois anos. A nova constituição seria votada e aprovada pela Câmara dos Deputados, que teriam seis meses para tanto. Defendo o parlamentarismo, o fim das coligações, o fim do foro privilegiado, o voto distrital misto, entre outras coisas. A reformulação institucional no Brasil deve ser profunda.

O Brasil precisa de estabilidade – e de busca de solução dos problemas que aí estão. Vou afirmar algo que julgo ousado: não espero que essa busca de solução seja coerente com o que penso e julgo melhor para o Brasil, política e ideologicamente falando. Não tenho, hoje, mais certeza sobre nada. Na minha idade, certeza é algo que não cola mais. Olho tudo caso a caso, fato a fato – e nada mais. Estou lendo o livro “Quando os fatos mudam”, de Tony Judt, cuja epigrafe, de Albert Camus, diz tudo: “Tudo o que posso dizer é que existem pragas e existem vítimas – e devemos fazer o possível para nos recusar a ficar do lado da praga”.

Acho insensatez e desumanidade discutirmos embasamentos político-ideológicos quando 13 milhões de brasileiros estão desempregados. São 30 a 35 milhões de pessoas afetadas com a crise do emprego, que tende a aumentar. E não só isso. 68% das famílias brasileiras estão endividadas – vítimas do bizarro “nacional-consumismo” inventado pelos governos petistas. A inflação aí está. Os juros dispararam. A carestia está incontrolável.

Defendo – e tenho escrito aqui – que a esquerda precisa se repensar. A esquerda ainda usa os mesmos clichês dos anos 1960. As esquerdas – e os mestres e doutores da nossa academia – não conhecem o Brasil, não conseguem compreender por que o Brasil deu no que deu, ninguém escreve ou fala sobre a realidade brasileira, sem recorrer, como verdades absolutas, a autores da década de 1930. Não estou desprezando as contribuições de Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Oliveira Lima, Gilberto Freyre, entre tantos outros. Afirmo que hoje não temos mais gente como os citados. Recuso-me a pensar que Feghalli, Gleisi, Lindenberg, Fátima sei lá o quê, Boulos, Stédile, Molon, Erundina, Emir Sader, para citar alguns apenas, formem a nossa gloriosa esquerda. Prefiro o exército do Brancaleone.

A universidade brasileira, no campo das ciências sociais, sempre viveu à luz dos autores estrangeiros da moda. Houve um tempo que todos carregavam no sovaco os livros de Althusser. Um dia, porém, Althusser foi substituído (hoje ninguém fala nele): surgiram então Marcuse, Foucault, Habermas, Adorno, Bourdieu e Boaventura dos Santos, não necessariamente nessa ordem. Escreveu-se, na academia, sobre tudo, menos sobre o Brasil. Pegava mal escrever sobre o Brasil – parece. Darcy Ribeiro talvez tenha sido o único pensador social a pensar e escrever sistematicamente sobre o Brasil. É pouco.

A verdade é que os acadêmicos brasileiros pensam clichês manjados. Ontem, domingo, 11 de setembro, tentei acompanhar a entrevista de Jessé de Souza ao jornalista Moreno. Desisti no instante que o espírito petista, misto de Lindenberg e da Chauí, baixou no Jessé e ele, despudoradamente, falou na classe média – branca, alienada, de direita, que não aceitava a ascensão do negro pobre. O que fazer? Depois do ataque às Torres Gêmeas e do Golpe Militar contra Allende, a entrevista do Jessé será o marco brasileiro do 11 de setembro.

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